sábado, 13 de outubro de 2007

Trabalho de História valendo 1 ponto

COLÉGIO PEDRO II - UNIDADE SÃO CRISTÓVÃO III
3ª Cert. História - 2007 – 2ª Série do Ensino Médio
Prof. Albano Teixeira - Coord. Prof. Paulo Seabra


NOME______________________________________________Nº_____TURMA_______

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TRABALHANDO COM TEXTOS: 2º REINADO

“Pelos caminhos de ferro que ligavam Vassouras ao Rio de Janeiro corriam vagões carregados. Era o café que se dirigia ao porto para ser vendido à Europa ou aos Estados Unidos.
O café foi, a partir de 1840, o principal produto de exportação brasileiro e o fator de recuperação da economia do país, que estava em crise desde a independência em virtude da decadência das principais lavouras de exportação.
O desenvolvimento da Revolução Industrial (...) gerou uma divisão internacional do trabalho com base no mercado mundial”.
(ALENCAR, Chico. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994, p. 163)
1 - Explique qual o papel do Brasil nessa divisão internacional do trabalho. Explique que mudanças para economia brasileira vieram com a produção do café em relação as suas relações internacionais. (0,25)

















“Entre 1850 e 1860, foram inauguradas no Brasil 70 fábricas que produziam chapéus, sabão, tecidos de algodão e cerveja, artigos que até então vinham do exterior. Essas primeiras fábricas já apresentavam um aspecto diferente das antigas oficinas artesanais: utilizavam motor hidráulico ou a vapor e o trabalho era organizado por mestres e contramestres vindos da Europa. Além disso, foram fundados 14 bancos, três caixas econômicas, 20 companhias de navegação a vapor, 23 companhias de seguro, oito estradas de ferro. Criaram-se, ainda, empresas de mineração, transporte urbano, gás etc.
O Rio de Janeiro era o espelho de toda essa organização. A cidade ganhou iluminação a gás e água encanada. Aos poucos as carruagens eram esquecidas, dando lugar, primeiro, aos bondes elétricos, recebidos com grande entusiasmo pelos moradores de Santa Teresa”.
(ALENCAR, Chico. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994, p. 179)
2 - Quais foram os fatores que contribuíram para esse surto de industrialização e quais foram os que atuaram para seu fim? (0,25)





















“Uma sublevação de colonos aconteceu na fazenda de Ibicaba, em 1857, obrigando o governo brasileiro a tomar providências. Thomas Davatz, líder do movimento, quando retornou à Suíça, escreveu o livro ‘Memórias de um colono no Brasil’, em que descrevia minuciosamente as condições a que estavam submetidos os colonos no sistema de parceria. Sua obra teve grande repercussão sobre a opinião pública européia, e em 1859 o Governo da Prússia proibiu a emigração de alemães para o Brasil.”
(ALENCAR, Chico. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994, p. 177)
3 - Explique o que foi o sistema de parceria, por que originou tantos problemas e qual foi a solução encontrada: (0,25)

















“Em 1862, Antônio Lopez foi sucedido no poder por seu filho, Francisco Solano Lopez. Foi na gestão deste jovem de 36 anos, ex-ministro plenipotenciário de seu país na Europa, que a economia paraguaia atingiu o ápice: foram instaladas linhas de telégrafo, estradas de ferro, fábricas de material de construção, tecidos, papel, tinta, louça e pólvora ( El Mariscal, como ficou conhecido em sua pátria, não se descuidava da produção bélica...). suprindo a ausência de burguesia, o Estado administrava 64 fazendas e cedia aos camponeses parcelas de terra, que não poderiam ser vendidas. Em 1860, as exportações paraguaias eqüivaliam ao dobro das importações. Graças às medidas de proteção à produção nacional, a balança comercial era sempre favorável. A moeda era forte e estável, no país não entravam empréstimos estrangeiros e quase não havia crianças analfabetas. Um quadro original na América Latina!”
(ALENCAR, Chico. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994, p. 191)
4 - Descreva as diversas análises explicativas para Guerra do Paraguai. (0,25)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Musica de Sociologia[aula de sabado]

Gog - Carta A Mãe África Genival Oliveira Gonçalves
É preciso ter pés firmes no chão
Sentir as forças vindas dos céus, da missão...
Dos seios da mãe África e do coração
É hora de escrever entre a razão e a emoção
Mãe! Aqui crescemos sub-nutridos de amor
A distância de ti, o doloroso chicote do feitor...
Nos tornou! Algo nunca imaginavel, imprevisível
E isso nos trouxe um desconforto horrível
As trancas, as correntes, a prisão do corpo outrora...
Evoluiram para a prisão da mente agora
Ser preto é moda, concorda? Mas só no visual
Continua caso raro ascensão social
Tudo igual, só que de maneira diferente
A trapaça mudou de cara, segue impunemente
As senzalas são as anti-salas das delegacias
Corredores lotados por seus filhos e filhas...
Hum! Verdadeiras ilhas, grandes naufrágios
A falsa abolição fez vários estragos
Fez acreditarem em racismo ao contrário
Num cenário de estações rumo ao calvário
Heróis brancos, destruidores de quilombos
Usurpadores de sonhos, seguem reinando...
Mesmo separado de ti pelo Atlântico
Minha trilha são seis românticos cantos
Mãe! Me imagino arrancado dos seus braços
Que não me viu nascer, nem meus primeiros passos
O esboço! É o que tenho na mente do teu rosto
Por aqui de ti falam muito pouco
E penso... Qual foi o erro cometido?
Por que fizeram com agente isso?
O plano fica claro... É o nosso sumisso
O que querem os partidários, os visionários disso
Eis a qüestão...
A maioria da população tem guetofobia
Anormalia sem vacinação.
E o pior, a triste constatação:
Muitos irmãos, patrocinam o vilão...
De várias formas, oportunistas, sem perceber
Pelo alimento, fome, sede de poder
E o que menos querem ser e parecer...
Alguém que lembre, no visual você.
( Refrão 2x ) (Colagem: A Carne - Elza Soares)
A carne mais barata do mercado é a negra,
A carne mais marcada pelo Estado é a negra
A carne mais barata do mercado é a negra,
A carne mais marcada pelo Estado é a negra
Os tiros ouvidos aqui vêm de todos os lados
Mas não se pode seguir aqui agachado
É por instinto que levanto o sangue Panto-Nagô...
E em meio ao bombardeio
Reconheço quem sou, e vou...
Mesmo ferido, ao fronte, ao combate
E em meio a fumaça, sigo sem nenhum disfarce
Pois minha face delata ao mundo o que quero:
Voltar para casa, viver meus dias sem terno
Eterno! É o tempo atual, na moral
No mural vedem uma democracia racial
E os pretos, os negros, afro-descendentes...
Passaram a ser obedientes, afro-convenientes.
Nos jornais, entrevistas nas revistas
Alguns de nós, quando expõem seus pontos de vista
Tentam ser pacíficos, cordiais, amorosos
E eu penso como os dias tem sido dolorosos
E rancorosos, maldosos muitos são,
Quando falamos numa miníma reparação:
-Ações afirmativas, inclusão, cotas?!
-O opressor ameaça recalçar as botas..
Nos mergulharam numa grande confusão
Racismo não existe e sim uma social exclusão
Mas sei fazer bem a diferenciação
Sofro pela cor, o patrão e o padrão
E a miscigenação, tema polémico no gueto
Relação do branco, do índio com preto
Fator que atrasou ainda mais a auto-estima:
-Tem cabelo liso, mas olha o nariz da menina
O espelho na favela após a novela é o divã
Onde o parceiro sonha em ser galã
Onde a garota viaja...
Quer ser atriz em vez de meretriz
Onde a lágrima corre como num chafariz
Quem diz! Que este povo foi um dia unido
E que um plano o trouxe para um lugar desconhecido
Hoje amado (Ah! muito amado..), são mais de quinhentos
anos
Criamos nossos laços, reescrevemos sonhos
Mãe! Sou fruto do seu sangue, das suas entranhas
O sistema me marcou, mas não me arrebanha
O predador errou quando pensou que o amor estanca
Amo e sou amado no exílio por uma mãe branca
( Refrão 2x )
A carne mais barata do mercado é a negra,
A carne mais marcada pelo Estado é a negra
A carne mais barata do mercado é a negra,
A carne mais marcada pelo Estado é a negra

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

trabalho de literatura

APRESENTAÇÃO LITERATURA

Data: 09/11/2007

Contos:
"O espelho"
"A teoria do medalhão"
"O empréstimo"

Livro Papéis avulsos - Machado de Assis

*Todos os contos nos posts abaixo

-Apresebtação cênica dos contos ( pode ser adaptado)
-Seminário crítico-analítico

Cada grupo terá 20 mim em media para apresentar o trabalho(apresentação cênica + seminário)

A turma será dividida em 3 grupos:

2 grupos de 9 alunos
1 Grupo de 8 alunos

O Empréstimo - Machado de Assis

Vou divulgar uma anedota, mas uma anedota no genuíno sentido do vocábulo, que o vulgo ampliou às historietas de pura invenção. Esta é verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem tão bem como eu. Nem ela andou recôndita, senão por falta de um espírito repousado, que lhe achasse a filosofia. Como deveis saber, há em todas as coisas um sentido filosófico. Carlyle descobriu o dos coletes, ou, mais propriamente, o do vestuário; e ninguém ignora que os números, muito antes da loteria do Ipiranga, formavam o sistema de Pitágoras. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de empréstimo; ides ver se me engano.
E, para começar, emendemos Sêneca. Cada dia, ao parecer daquele moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas por que não acrescentou ele que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição, uma pasta de ministro, um Banco, uma coroa de visconde, um báculo pastoral. Aos cinqüenta anos, vamos achá-lo simples apontador de alfândega, ou sacristão da roça. Tudo isso que se passou em trinta anos, pode algum Balzac metê-lo em trezentas páginas; por que não há de a vida, que foi a mestra de Balzac, apertá-lo em trinta ou sessenta minutos?
Tinham batido quatro horas no cartório do tabelião Vaz Nunes, à rua do Rosário. Os escreventes deram ainda as últimas penadas: depois limparam as penas de ganso na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado; fecharam as gavetas, concertaram os papéis, arrumaram os livros, lavaram as mãos; alguns que mudavam de paletó à entrada, despiram o do trabalho e enfiaram o da rua; todos saíram. Vaz Nunes ficou só.
Este honesto tabelião era um dos homens mais perspicazes do século. Está morto: podemos elogiá-lo à vontade. Tinha um olhar de lanceta, cortante e agudo. Ele adivinhava o caráter das pessoas que o buscavam para escriturar os seus acordos e resoluções; conhecia a alma de um testador muito antes de acabar o testamento; farejava as manhas secretas e os pensamentos reservados. Usava óculos, como todos os tabeliães de teatro; mas, não sendo míope, olhava por cima deles, quando queria ver, e através deles, se pretendia não ser visto. Finório como ele só, diziam os escreventes. Em todo o caso, circunspecto. Tinha cinqüenta anos, era viúvo, sem filhos, e, para falar como alguns outros serventuários, roía muito caladinho os seus duzentos contos de réis.
- Quem é? perguntou ele de repente olhando para a porta da rua.
Estava à porta, parado na soleira, um homem que ele não conheceu logo, e mal pôde reconhecer daí a pouco. Vaz Nunes pediu-lhe o favor de entrar; ele obedeceu, cumprimentou-o, estendeu-lhe a mão, e sentou-se na cadeira ao pé da mesa. Não trazia o acanho natural a um pedinte; ao contrário, parecia que não vinha ali senão para dar ao tabelião alguma coisa preciosíssima e rara. E, não obstante, Vaz Nunes estremeceu e esperou.
- Não se lembra de mim?
- Não me lembro...
- Estivemos juntos uma noite, há alguns meses, na Tijuca... Não se lembra? Em casa do Teodorico, aquela grande ceia de Natal; por sinal que lhe fiz uma saúde... Veja se se lembra do Custódio.
- Ah!
Custódio endireitou o busto, que até então inclinara um pouco. Era um homem de quarenta anos. Vestia pobremente, mas escovado, apertado, correto. Usava unhas longas, curadas com esmero, e tinha as mãos muito bem talhadas, macias, ao contrário da pele do rosto, que era agreste. Notícias mínimas, e aliás necessárias ao complemento de um certo ar duplo que distinguia este homem, um ar de pedinte e general. Na rua, andando, sem almoço e sem vintém, parecia levar após si um exército. A causa não era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situação, entre a alma e a vida. Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho. Tinha o instinto das elegâncias, o amor do supérfluo, da boa chira, das belas damas, dos tapetes finos, dos móveis raros, um voluptuoso, e, até certa ponto, um artista, capaz de reger a vila Torloni ou a galeria Hamilton. Mas não tinha dinheiro; nem dinheiro, nem aptidão ou pachorra de o ganhar; por outro lado, precisava viver. Il faut bien que je vive, dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. Je n'en vois pas la nécessité, redargüiu friamente o ministro. Ninguém dava essa resposta ao Custódio; davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil-réis, e de tais espórtulas é que ele principalmente tirava o albergue e a comida.
Digo que principalmente vivia delas, porque o Custódio não recusava meter-se em alguns negócios, com a condição de os escolher, e escolhia sempre os que não prestavam para nada. Tinha o faro das catástrofes. Entre vinte empresas, adivinhava logo a insensata, e metia ombros a ela, com resolução. O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove prosperassem, e a vigésima lhe estourasse nas mãos. Não importa; aparelhava-se para outra.
Agora, por exemplo, leu um anúncio de alguém que pedia um sócio, com cinco contos de réis, para entrar em certo negócio, que prometia dar, nos primeiros seis meses, oitenta a cem contos de lucro. Custódio foi ter com o anunciante. Era uma grande idéia, uma fábrica de agulhas, indústria nova, de imenso futuro. E os planos, os desenhos da fábrica, os relatórios de Birmingham, os mapas de importação, as respostas dos alfaiates, dos donos de armarinho, etc., todos os documentos de um longo inquérito passavam diante dos olhos de Custódio, estrelados de algarismos, que ele não entendia, e que por isso mesmo lhe pareciam dogmáticos. Vinte e quatro horas; não pedia mais de vinte e quatro horas para trazer os cinco contos. E saiu dali, cortejado, animado pelo anunciante, que, ainda à porta, o afogou numa torrente de saldos. Mas os cinco contos, menos dóceis ou menos vagabundos que os cinco mil-réis, sacudiam incredulamente a cabeça, e deixavam-se estar nas arcas, tolhidos de medo e de sono. Nada. Oito ou dez amigos, a quem falou, disseram-lhe que nem dispunham agora da soma pedida, nem acreditavam na fábrica. Tinha perdido as esperanças, quando aconteceu subir a rua do Rosário e ler no portal de um cartório o nome de Vaz Nunes. Estremeceu de alegria; recordou a Tijuca, as maneiras do tabelião, as frases com que ele lhe respondeu ao brinde, e disse consigo que este era o salvador da situação.
- Venho pedir-lhe uma escritura...
Vaz Nunes, armado para outro começo, não respondeu: espiou para cima dos óculos e esperou.
- Uma escritura de gratidão, explicou o Custódio; venho pedir-lhe um grande favor, um favor indispensável, e conto que o meu amigo...
- Se estiver nas minhas mãos...
- O negócio é excelente, note-se bem; um negócio magnífico. Nem eu me metia a incomodar os outros sem certeza do resultado. A coisa está pronta; foram já encomendas para a Inglaterra; e é provável que dentro de dois meses esteja tudo montado, é uma indústria nova. Somos três sócios, a minha parte são cinco contos. Venho pedir-lhe esta quantia, a seis meses, - ou a três, com juro módico...
- Cinco contos?
- Sim, senhor.
- Mas, Sr. Custódio, não disponho de tão grande quantia. Os negócios andam mal; e ainda que andassem muito bem, não poderia dispor de tanto. Quem é que pode esperar cinco contos de um modesto tabelião de notas?
- Ora, se o senhor quisesse...
- Quero, decerto; digo-lhe que se se tratasse de uma quantia pequena, acomodada aos meus recursos, não teria dúvida em adiantá-la. Mas cinco contos! Creia que é impossível.
A alma do Custódio caiu de bruços. Subira pela escada de Jacó até o céu; mas em vez de descer como os anjos no sonho bíblico, rolou abaixo e caiu de bruços. Era a última esperança; e justamente por ter sido inesperada, é que ele supôs que fosse certa, pois, como todos os corações que se entregam ao regime do eventual, o do Custódio era supersticioso. O pobre-diabo sentiu enterrarem-se-lhe no corpo os milhões de agulhas que a fábrica teria de produzir no primeiro semestre. Calado, com os olhos no chão, esperou que o tabelião continuasse, que se compadecesse, que lhe desse alguma aberta; mas o tabelião, que lia isso mesmo na alma do Custódio, estava também calado, girando entre os dedos a boceta de rapé, respirando grosso, com um certo chiado nasal e implicante. Custódio ensaiou todas as atitudes; ora pedinte, ora general. O tabelião não se mexia. Custódio ergueu-se.
- Bem, disse ele, com uma pontazinha de despeito, há de perdoar o incômodo...
- Não há que perdoar; eu é que lhe peço desculpa de não poder servi-lo, como desejava. Repito: se fosse alguma quantia menos avultada, não teria dúvida; mas...
Estendeu a mão ao Custódio, que com a esquerda pegara maquinalmente no chapéu. O olhar empanado do Custódio exprimia a absorção da alma dele, apenas convalescida da queda que lhe tirara as últimas energias. Nenhuma escada misteriosa, nenhum céu; tudo voara a um piparote do tabelião. Adeus, agulhas! A realidade veio tomá-lo outra vez com as suas unhas de bronze. Tinha de voltar ao precário, ao adventício, às velhas contas, com os grandes zeros arregalados e os cifrões retorcidos à laia de orelhas, que continuariam a fitá-lo e a ouvi-lo, a ouvi-lo e a fitá-lo, alongando para ele os algarismos implacáveis de fome. Que queda! e que abismo! Desenganado, olhou para o tabelião com um gesto de despedida; mas, uma idéia súbita clareou-lhe a noite do cérebro. Se a quantia fosse menor, Vaz Nunes poderia servi-lo, e com prazer; por que não seria uma quantia menor? Já agora abria mão da empresa; mas não podia fazer o mesmo a uns aluguéis atrasados, a dois ou três credores, etc., e uma soma razoável, quinhentos mil-réis, por exemplo, uma vez que o tabelião tinha a boa vontade de emprestar-lhos, vinham a ponto. A alma do Custódio empertigou-se; vivia do presente, nada queria saber do passado, nem saudades, nem temores, nem remorsos. O presente era tudo. O presente eram os quinhentos mil-réis, que ele ia ver surdir da algibeira do tabelião, como um alvará de liberdade.
- Pois bem, disse ele, veja o que me pode dar, e eu irei ter com outros amigos... Quanto?
- Não posso dizer nada a este respeito, porque realmente só uma coisa muito modesta.
- Quinhentos mil-réis?
- Não; não posso.
- Nem quinhentos mil-réis?
- Nem isso, replicou firme o tabelião. De que se admira? Não lhe nego que tenho algumas propriedades; mas, meu amigo, não ando com elas no bolso; e tenho certas obrigações particulares... Diga-me, não está empregado?
- Não, senhor.
- Olhe; dou-lhe coisa melhor do que quinhentos mil-réis; falarei ao ministro da justiça, tenho relações com ele, e...
Custódio interrompeu-o, batendo uma palmada no joelho. Se foi um movimento natural, ou uma diversão astuciosa para não conversar do emprego, é o que totalmente ignoro; nem parece que seja essencial ao caso. O essencial é que ele teimou na súplica. Não podia dar quinhentos mil-réis? Aceitava duzentos; bastavam-lhe duzentos, não para a empresa, pois adotava o conselho dos amigos: ia recusá-la. Os duzentos mil-réis, visto que o tabelião estava disposto a ajudá-lo, eram para uma necessidade urgente, - "tapar um buraco". E então relatou tudo, respondeu à franqueza com franqueza: era a regra da sua vida. Confessou que, ao tratar da grande empresa, tivera em mente acudir também a um credor pertinaz, um diabo, um judeu, que rigorosamente ainda lhe devia, mas tivera a aleivosia de trocar de posição. Eram duzentos e poucos mil-réis; e dez, parece; mas aceitava duzentos...
- Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, enfim, nem os duzentos mil-réis posso dar. Cem mesmo, se o senhor os pedisse, estão acima das minhas forças nesta ocasião. Noutra pode ser, e não tenho dúvida, mas agora...
- Não imagina os apuros em que estou!
- Nem cem, repito. Tenho tido muitas dificuldades nestes últimos tempos. Sociedades, subscrições, maçonaria... Custa-lhe crer, não é? Naturalmente: um proprietário. Mas, meu amigo, é muito bom ter casas: o senhor é que não conta os estragos, os consertos, as penas-d'água, as décimas, o seguro, os calotes, etc. São os buracos do pote, por onde vai a maior parte da água...
- Tivesse eu um pote! suspirou Custódio.
- Não digo que não. O que digo é que não basta ter casas para não ter cuidados, despesas, e até credores... Creia o senhor que também eu tenho credores.
- Nem cem mil-réis!
- Nem cem mil-réis, pesa-me dizê-lo, mas é verdade. Nem cem mil-réis. Que horas são?
Levantou-se, e veio ao meio da sala. Custódio veio também, arrastado, desesperado. Não podia acabar de crer que o tabelião não tivesse ao menos cem mil-réis. Quem é que não tem cem mil-réis consigo? Cogitou uma cena patética, mas o cartório abria para a rua; seria ridículo. Olhou para fora. Na loja fronteira, um sujeito apreçava uma sobrecasaca, à porta, porque entardecia depressa, e o interior era escuro. O caixeiro segurava a obra no ar; o freguês examinava o pano com a vista e com os dedos, depois as costuras, o forro... Este incidente rasgou-lhe um horizonte novo, embora modesto; era tempo de aposentar o paletó que trazia. Mas nem cinqüenta mil-réis podia dar-lhe o tabelião. Custódio sorriu; - não de desdém, não de raiva, mas de amargura e dúvida; era impossível que ele não tivesse cinqüenta mil-réis. Vinte, ao menos? Nem vinte. Nem vinte! Não; falso tudo, tudo mentira.
Custódio tirou o lenço, alisou o chapéu devagarinho; depois guardou o lenço, concertou a gravata, com um ar misto de esperança e despeito. Viera cerceando as asas à ambição, pluma a pluma; restava ainda uma penugem curta e fina, que lhe metia umas veleidades de voar. Mas o outro, nada. Vaz Nunes cotejava o relógio da parede com o do bolso, chegava este ao ouvido, limpava o mostrador, calado, transpirando por todos os poros impaciência e fastio. Estavam a pingar as cinco, enfim, e o tabelião, que as esperava, desengatilhou a despedida. Era tarde; morava longe. Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a carteira... Oh! a carteira! Custódio viu esse utensílio problemático, apalpou-o com os olhos; invejou a alpaca, invejou a casimira, quis ser algibeira, quis ser o couro, a matéria mesma do precioso receptáculo. Lá vai ela; mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo; o tabelião abotoou-se. Nem vinte mil-réis! Era impossível que não levasse ali vinte mil-réis, pensava ele; não diria duzentos, mas vinte, dez que fossem...
- Pronto! disse-lhe Vaz Nunes, com o chapéu na cabeça.
- Quer ver?
E o tabelião desabotoou o paletó, tirou a carteira, abriu-a, e mostrou-lhe duas notas de cinco mil-réis.
- Não tenho mais, disse ele; o que posso fazer é reparti-los com o senhor; dou-lhe uma de cinco, e fico com a outra; serve-lhe?
Custódio aceitou os cinco mil-réis, não triste, ou de má cara, mas risonho, palpitante, como se viesse de conquistar a Ásia Menor. Era o jantar certo. Estendeu a mão ao outro, agradeceu-lhe o obséquio, despediu-se até breve, - um até breve cheio de afirmações implícitas. Depois saiu; o pedinte esvaiu-se à porta do cartório; o general é que foi por ali abaixo, pisando rijo, encarando fraternalmente os ingleses do comércio que subiam a rua para se transportarem aos arrabaldes. Nunca o céu lhe pareceu tão azul, nem a tarde tão límpida; todos os homens traziam na retina a alma da hospitalidade. Com a mão esquerda no bolso das calças, ele apertava amorosamente os cinco mil-réis, resíduo de uma grande ambição, que ainda há pouco saíra contra o sol, num ímpeto de águia, e ora habita modestamente as asas de frango rasteiro.

A TEORIA DO MEDALHÃO - Machado de Assis

- Estás com sono? - Não, senhor. - Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são? - Onze. - Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...- Papai... - Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.- Sim, senhor. - Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade. - Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá? - Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: "a gravidade é um mistério do corpo", definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos... - É verdade, por que quarenta e cinco anos? - Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqüenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinqüenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio. - Entendo. - Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da platéia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as idéias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.- Mas quem lhe diz que eu... - Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de idéias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloqüente, eis aí uma esperança, No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas idéias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As idéias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto. - Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.- Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.- Como assim, se também é um exercício corporal? - Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de idéias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.- Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo? - Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra, razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses - suponhamos dois anos, - reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das idéias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim... - Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...- Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant consules é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! - E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol. - Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.- Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma: - ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas; no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular idéias novas, e é radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas, serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira esperta e afreguesada, - que, segundo um poeta clássico, Quanto mais pano tem, mais poupa o corte, Menos monte alardeia de retalhos; e este fenômeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria científico.- Upa! que a profissão é difícil!- E ainda não chegamos ao cabo.- Vamos a ele. - Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante, ações heróicas ou custosas, é um sestro próprio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. Percebeste?- Percebi. - Essa é publicidade constante, barata, fácil, de todos os dias; mas há outra. Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a "alavanca do progresso" e o "suor do trabalho" vencem as "fauces hiantes" da miséria. No caso de que uma comissão te leve a casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d'água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos reporters dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.- Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.- Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.- E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os deficits da vida?- Decerto; não fica excluída nenhuma outra atividade.- Nem política?- Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a cláusula única de não ligar nenhuma idéia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.- Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?- Podes e deves; é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: - ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; - é mais fácil e mais atraente. Supõe que desejas saber por que motivo a 7ª companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.- Farei o que puder. Nenhuma imaginação? - Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo. - Nenhuma filosofia? - Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. "Filosofia da história", por exemplo, é uma locução que deves empregar com freqüência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc. - Também ao riso? - Como ao riso?- Ficar sério, muito sério...- Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente, - e este ponto é melindroso...- Diga... - Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto? - Meia-noite.- Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.

O Espelho – Machado de Assis

Esboço de uma nova teoria da alma humana
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de
alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor
alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era
pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar
que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o
céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e
sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas
metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do
universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam;
mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo
de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem
instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e
defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a
forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam
nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta
mesma resposta naquela noite, contestou-lhe um dos presentes, e desafiouo
a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele)
refletiu um instante, e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou
da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa,
em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu
radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o
acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela
multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um
pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores
pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos.
- Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar
lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem
ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que
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ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em
primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas
consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para
entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de
ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou
dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos
homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um
simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim
também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma
cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é
transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades,
perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a
perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por
exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los
equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um
punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos
ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a
alma exterior não é sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas
almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e
o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas
enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza
mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros
anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma
provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma
senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a
alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a
rua do Ouvidor, Petrópolis...
- Perdão; essa senhora quem é?
- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se
Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado
dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de
que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido,
esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da
civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor
que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e
metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que
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conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele
começou a narração:
- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado
alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em
nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o
seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, notese
bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na
Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos
candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do
desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me
de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés,
durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram
satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado
por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão
Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário,
desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui,
acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia
Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que
não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamavame
também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um
tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse
de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que
me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para
lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como
dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor
alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não
me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas
a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo
caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não
imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao
ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e
magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e
simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da
mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D.
João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho
estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em
parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura,
uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas
bom...
- Espelho grande?
- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho
estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a
demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por
algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais.
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O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em
mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e
completou. Imaginam, creio eu?
- Não.
- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas
equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me
uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior,
que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de
natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me
falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do
cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da
patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar,
não?
- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.
- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos
são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça
namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o
movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que
a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e
intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal
obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de
três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora,
um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas,
casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à
morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo
uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse
conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário;
deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os
poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande
opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um
cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que
se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes
continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a
consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas
suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e
a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles
redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a
minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô
alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de
louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu
suspeitar a intenção secreta dos malvados.
- Matá-lo?
- Antes assim fosse.
- Coisa pior?
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- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos
por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a
noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro
paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego
humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que
fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a
vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados
pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do
que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era
um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras
horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei
também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe
dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo
alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma
estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum;
finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no
outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã
passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de
pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse
consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia,
nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou
proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol
abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de
século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feriame
a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando,
muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e
topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confessolhes
que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era
justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!-
For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo,
um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais
silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra,
era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém,
nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte
nenhuma... Riem-se?
- Sim, parece que tinha um pouco de medo.
- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico
daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo
vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um
defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era
outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da
morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o
sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma
interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos
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amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um
amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão
ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro,
esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a
alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que
teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a
ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne voistu
rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada
mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa,
nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac.
Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava.
Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político,
um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e
tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo.
Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur
Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
- Mas não comia?
- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao
fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral
em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de
Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes.
As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era
só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio,
um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da
pêndula. Tic-tac, tic-tac...
- Na verdade, era de enlouquecer.
- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só,
não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não
tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e
dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é
verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito
dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de
achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o
resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga,
esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não
permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos
contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação.
Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava;
receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E
levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão,
olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado,
mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse,
sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para
dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o
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espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição
de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração
inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes
de adivinhar qual foi a minha idéia...
- Diga.
- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado,
contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de
linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes
de adivinhar.
- Mas, diga, diga.
- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo;
e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo
nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos,
nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a
alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida
com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que,
pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois
começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece
individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é
Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do
sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro,
recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um
autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma
certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo
olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com
este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

domingo, 7 de outubro de 2007

Trabalho de Geo sobre União européia

UNIÃO EUROPÉIA

1. O contexto da formação da União Européia
Castigados duramente por conflitos e disputas durante toda a sua história, os países da Europa ocidental viram na cooperação econômica uma forma de preservar a paz no período que sucedeu a Segunda Guerra Mundial. Além de arrasar o continente, a guerra contribuiu para o declínio das potências européias e ascensão dos EUA como líder capitalista.
Era preciso criar uma relação forte entre França e Alemanha, que depois de mais de cinco anos após o fim da 2ª Guerra continuavam adversárias distantes da reconciliação, e reunir todos os países Europeus de orientação liberal da Europa a fim de construir conjuntamente uma comunidade com um destino comum.
O interesse dos países da Europa Ocidental visavam atenuar freqüentes guerras entre os países vizinhos e também a constituição de um modelo federativo que permitisse a integração entre as economias exauridas dos países europeus no pós guerra, a fim de assegurar-lhes prosperidade e desenvolvimento social crescentes, como forma de recuperar as perdas com a 2ª Guerra. Além disso, formar uma forte resistência à expansão socialista, que já atingia a Europa Oriental, e de criar uma entidade que conseguisse, ao menos, enfrentar a competição dos EUA no mercado capitalista.

2. Comunidade Européia do Carvão e do Aço (CECA)
Com o intuito de deixar as indústrias de carvão e aço sob o controle de uma autoridade comum e independente é assinado, em 1951, o Tratado de Paris sobre o carvão e o aço, originando a Comunidade Européia do Carvão e do Aço (CECA), primeiro passo para a criação do bloco e do processo de integração entre os países da Europa. Este tratado foi assinado por 6 países: Alemanha, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos.

3. Comunidade Econômica Européia (CEE)
Os mesmos 6 países que formavam a CECA, em 1957 assinaram o Tratado de Roma, instituindo a Comunidade Econômica Européia.
A criação de um mercado único possibilitou uma nova área de integração no domínio econômico. Fixou-se a partir daí, o eixo principal em torno do qual se organizou a atual União Européia.
De 1958 a 1970, o fim dos direitos aduaneiros proporcionou à Europa dos 6, um grande crescimento econômico. O comércio intracomunitário cresceu 600%, ao passo que as trocas comerciais da CEE com o resto do mundo cresceram 300%. No mesmo período, o Produto Nacional Bruto (PNB) dos países integrantes, teve alta de 70%.

4. A expansão da Comunidade Européia
Em 1972, e depois em 1994, a Noruega assinou tratados de adesão à União Européia. No entanto, nas duas ocasiões, através de referendos, a população norueguesa rejeitou a adesão do seu país.
No ano de 1973 a Comunidade Econômica Européia passou por seu primeiro processo de alargamento, com a adesão da Dinamarca, da Irlanda e do Reino Unido. A Grécia ingressou no bloco no ano de 1981, e, logo após, Portugal e Espanha, em 1986, transformando-se assim em Europa dos 12.

5. Ato Único Europeu
O objetivo do Tratado de Roma de criar um mercado comum havia sido parcialmente realizado nos anos 60, graças à supressão dos direitos aduaneiros internos e das restrições quantitativas às trocas comerciais. Mas os autores do Tratado haviam subestimado todo um conjunto de outros obstáculos aos meios para adotarem as 300 diretivas que eram necessárias.
Ao objetivo do grande mercado interno, o Ato Único, assinado em 1986, associa estreitamente outro de importância tão fundamental como o primeiro: o da coesão econômica e social. A Europa cria assim políticas estruturais em benefício das regiões menos desenvolvidas ou que tenham sido atingidas por mutações tecnológicas e industriais. Promove igualmente a cooperação em matéria de investigação e de desenvolvimento. Por último, toma em consideração a dimensão social do mercado interno: no espírito dos governantes da União, o bom funcionamento do mercado interno e uma concorrência sã entre as empresas são indissociáveis do objetivo constante que consiste na melhoria das condições de vida e de trabalho dos cidadãos europeus.

6. União Européia
A partir de 1993, quando entra em vigor o Tratado de Maastricht, a CEE consolida-se ganhando prestígio e influência. Deixa de ter um caráter essencialmente econômico e passa a se chamar então União Européia. A partir desse momento criam-se três pilares, referentes à integração econômica, à política externa e de segurança comum, e às políticas de imigração e de cooperação judiciária e policial.
O pilar comunitário, regido pelos procedimentos institucionais clássicos, faz intervir a Comissão, o Parlamento, o Conselho e o Tribunal de Justiça Europeus. Os outros dois pilares envolvem os Estados-membros em domínios caracterizados até então como sendo da competência exclusivamente nacional: a política externa e de segurança, por um lado, e os assuntos internos, tais como a política de imigração e de asilo, a polícia e a justiça, por outro. Trata-se de um progresso importante, na medida em que os Estados-membros consideram que é do seu interesse cooperar nestes domínios, como forma de afirmar a identidade européia no mundo e de assegurar uma melhor proteção dos seus cidadãos.
Em 1995, a União Européia passou de 12 para 15 países membros com o ingresso da Áustria, Finlândia e Suécia. E no ano de 2004, a UE contou com a incrementação de mais 10 países ao bloco: República Tcheca, Chipre, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta e Polônia. No início de 2007, a Romênia e a Bulgária juntaram-se ao grupo, formando a Europa dos 27.
A Croácia, a Turquia e a Macedônia são novas candidatas a ingressar no bloco, mas as negociações, que começaram em 2005, ainda vão durar alguns anos, em função do recente endurecimento das normas para a adesão de novos países ao bloco.
Com o Tratado de Maastrich, organizou-se a União Econômica e Monetária, que desde 1999, reúne todos os países que cumpriram um determinado número de critérios econômicos destinados a garantir a sua boa gestão financeira e a assegurar a estabilidade futura da moeda única: o euro. Pode-se mesmo considerar que o euro é o símbolo mais concreto da União Européia, por ser uma moeda forte, capaz de concorrer com as grandes moedas de reserva internacionais. Apesar disso, Reino Unido, Suécia e Dinamarca optaram por não aderir ao euro. E a Grécia não cumpriu as condições para adotá-lo.

7. A negociação União Européia - Mercosul
As negociações entre o Mercosul (Mercado Comum do Sul) e a União Européia tiveram início em julho de 2001. No entanto, diversas crises econômicas nos países do Mercosul acabaram por suspender as negociações até 2003. Desde então, várias reuniões e propostas foram realizadas, com o intuito de se chegar a um acordo, o que até o presente momento não foi possível.
No dia 12 de outubro de 2006, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que urgia à União Européia terminar as negociações com o Mercosul, que deveriam, por sua vez, conter os seguintes capítulos:

I - Político e institucional, que reforce o diálogo democrático e a articulação política;
II- Cooperação, que promova o desenvolvimento econômico e social sustentável;
III - Comercial, que instaure uma zona de livre-comércio avançada.

As principais dificuldades para celebração de um acordo são, por parte da União Européia, a aceitação de maiores compromissos em agricultura e, por parte do Mercosul, a aceitação de maiores compromissos em regras.


8. Os aspectos político-econômicos da UE
Na atmosfera econômica, o bloco se caracteriza pela derrubada de barreiras alfandegárias entre os países do bloco, possibilitando um intenso fluxo de mercadorias e serviços livre de restrições fiscais, ampliando as produções e os mercados consumidores das empresas situadas nesses países, criando um mercado interno e autêntico completamente unificado, beneficiando empresas e melhorando as condições de vida e de trabalho dos cidadãos europeus. A UE possui ainda políticas comuns de comércio, agricultura, pesca e transportes.

9. O desemprego na UE
Nos países membros da União Européia a alternância de diferentes partidos políticos a frente dos governos freqüentemente faz com que diversas iniciativas e legislações fracassem ou sejam anuladas. Um exemplo: o poder centralizado sobre a política monetária confiado a um Banco Central Europeu (BCE) que escapa a qualquer controle político.
De acordo com especialistas, a estrutura do BCE é profundamente anti-democrática à medida em que priva as autoridades públicas eleitas, de intervir sobre as políticas macro-econômicas. Eles apontam ainda que as prioridades e as metas da instituição são desequilibradas visto que sua atuação é orientada ao controle de preços, a despeito dos efeitos que isso pudesse causar em termos de desemprego, dificuldades financeiras ou da desorganização do sistema produtivo.
Durante o período de 2001 a 2004, as taxas de crescimento anual médio da União Européia foram de 1,5%, isto é, inferior à registrada no fim dos anos 1990 e apenas metade da taxa esperada. O nível da atividade econômica sofreu uma elevação que foi suficiente apenas para estabilizar a taxa de desemprego por volta dos 15%, mas não para aproximá-la dos 7,4% a 8,1% projetados para o período. Ainda que os novos países membros registrem taxa de crescimento um pouco superior; a de desemprego se mostrava ainda mais elevada: 14,4% nos últimos quatro anos. A resposta invariável do BCE a estes problemas foi de pedir mais reformas estruturais, maior flexibilidade de preços e salários e maior mobilidade da mão de obra.
O Fundo Social Europeu, criado na década de 60, é hoje a principal arma da UE na luta contra o desemprego. O Fundo concede financiamento a programas de desenvolvimento de competências sociais e profissionais. As regiões da UE com níveis de desemprego particularmente elevados ou rendimentos médios baixos merecem especial atenção nas decisões de financiamento. Existe ainda o programa EQUAL que testa formas de combater a discriminação e as desigualdades.
Esse ano, os índices de desemprego diminuíram substancialmente, passando para 6,9%, (cerca de 16,1 milhões de desempregados), dos quais, 10,4 milhões na região de moeda única. Parece pouco, mas ainda é um valor muito elevado se comparado à taxa dos EUA: 4,5% e do Japão: 3,8%.

10. O envelhecimento populacional
O decréscimo populacional na Europa, acentua-se cada vez mais e a imigração não será suficiente contrapeso perante o declínio da natalidade. Ou seja, mesmo prevendo que a Europa acolha até 2050 cerca de 40 milhões de habitantes, haverá perda populacional. Usando a tendência atual como uma média de evolução, a Europa dos 27 terá perdido perto de nove milhões, sobretudo nos novos Estados-Membros. A tendência natural é a diminuição do número de filhos por mulher e o adiamento da maternidade. Por isso, sem o investimento dos Estados membros em políticas ativas de promoção da natalidade, vai acentuar-se a diminuição de nascimentos na Europa. Porque, também fruto desta tendência, há cada vez menos mulheres e jovens para ter filhos no futuro.
Outro dado preocupante é o envelhecimento acentuado da população. Até 2050, o número de pessoas com mais de 65 anos vai triplicar na Europa, passando dos atuais 18 para cerca de 50 milhões. E uma das consequências mais graves será o impacto nas economias dos países, já que, haverá em média, um idoso para cada duas pessoas em idade ativa. Este razão é atualmente de um idoso para quatro pessoas entre os 15 e os 64 anos.

11. Imigração: estimular ou conter?
A Europa vive um dilema: ao mesmo tempo em que precisa importar trabalhadores, teme a invasão de imigrantes. A Europa já é, em termos de circulação de trabalhadores, a região mais livre do mundo. A regra na União Européia é que qualquer pessoa do bloco tem todo o direito de se movimentar, de se estabelecer e de trabalhar em outro país como se fosse um cidadão do local. As medidas de restrição que existem em relação aos novos países-membros são apenas de caráter transitório. Essa nova realidade acirra ainda mais o debate sobre receber ou não mão-de-obra de fora da União Européia. Em alguns países europeus, já há uma porcentagem muito grande de trabalhadores estrangeiros. A Comissão Européia defende uma política de controle rigoroso na entrada dos imigrantes. O fato é que a Europa vai precisar, nos próximos anos, de mais importação de mão-de-obra. Essa é uma condição essencial para o desenvolvimento.

12. Política externa: a racha na UE
Apesar da determinação de uma única política externa no Tratado de Maastrich, o que se vê hoje é uma União Européia dividida. Em 2002, quando a Turquia desejava apoio militar para proteger sua fronteira com o Iraque de ataques desse país, possíveis e até previsíveis em caso de ataque americano a Bagdá, os Estados Unidos estavam dispostos a dar esse apoio e o dariam, seguramente, mesmo sem o consentimento da OTAN. No entanto, o manto jurídico da organização e alguma ajuda dos aliados europeus seriam bem vindas e ela foi solicitada em Bruxelas. Apesar do apoio da maioria dos países membros, França, Alemanha e Bélgica vetaram a ajuda, num claro desafio à posição americana.
Numa frente de batalha paralela, a Europa se rachou ao meio para decidir se apoia ou não a ofensiva americana contra Saddan Hussein. O eixo franco-alemão, motivado por interesses geopolíticos no Iraque, de política interna e, especialmente, por não conseguir aceitar a hegemonia absoluta dos Estados Unidos no mundo, se posicionou radicalmente contra a guerra. Esse posicionamento francês e alemão causou, além disso, funda divisão entre os países europeus. Mais da metade dos Estados membros da União Européia, liderados por Grã Bretanha, Itália e Espanha, efetivamente se rebelaram contra o eixo Paris-Berlim e estão apoiando os Estados Unidos. E o estão fazendo por puro oportunismo e desejo de ter lucros tanto com os despojos da guerra como com a boa vontade da superpotência americana.
Efetivamente, o que vemos nesse exato momento são países que aceitam abdicar de sua soberania econômica, via euro e Banco Central Europeu, mas não a política, e seguem as suas tradições de política externa de forma independente. De um lado, uma Inglaterra sempre pronta a apoiar os Estados Unidos, a espera de que esse “relacionamento especial” lhe traga de volta o status de grande potência, mas que, na verdade, leva apenas ao escárnio mundial. De outro, uma Alemanha que faz de tudo para evitar conflitos e uma França que quer usar o manto europeu para readquirir status mundial. Ao mesmo tempo, vários países (desde gigantes como a Itália e a Espanha até pesos menores, como a Dinamarca ou Portugal) aproveitam o momento de conflito entre Berlim, Paris e Washington para enfraquecer o eixo França/Alemanha que tem conduzido os destinos da União Européia desde os seus anos iniciais.

13. A expansão do bloco: prós e contras
Entre os argumentos mais comuns está o de que a expansão leva à imigração em massa e ao aumento do crime. Ou que trabalhadores de países mais pobres estariam tirando empregos daqueles que vivem em países mais ricos e que companhias trocam de país em busca de menores contribuições trabalhistas e proteção social mais frágil. Os países mais ricos estariam "pagando subsídios' aos estados mais pobres. E muitos acham que o bloco terá um colapso, porque o excesso de países faz com que não haja consenso em torno de nenhum assunto.
Entretanto, a imigração ajuda a distribuir renda dentro do continente e a UE poderá ajudar os novos membros a combater crime e corrupção. A mão de obra barata é positiva para as economias mais ricas da Europa e é melhor que as companhias se mudem para outros países europeus do que para Índia ou China. Os países ricos ganham mais estando em um único e maior mercado do que com as receitas vindas de países mais pobres. A UE tem aumentado em intervalos regulares desde 1973 e a integração tem se mantido firme. Os processos decisórios não entraram em colapso ainda, apesar do sinal preocupante enviado pelo fracasso do projeto de se aprovar a constituição através de referendos nos países-membros.

14. A Constuição Européia
Discutida originalmente em 2004 no mesmo local onde foi selado o Tratado de Roma, a Constituição Européia pretendia aprimorar o funcionamento das instituições da UE e diminuir a distância entre ela e a população dos países-membros. A população da França, entretanto, um dos países comumente citados como locomotiva da União Européia, além da Holanda, rejeitou o projeto, criando um impasse político. O ‘não’ à Constituição foi uma conseqüência dessa aceleração na integração de países diferentes. Agora, são 27 países discutindo tudo isso, e o processo de tomada de decisões passa a ser mais lento.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Texto de Filosofia

Tempo livre

A questão do tempo livre: o que as pessoas fazem com ele, que chances eventualmente oferece o seu desenvolvimento, não pode ser formulada em generalidade abstrata. A expressão, de origem recente, aliás – antes se dizia ócio, e este era um privilégio de uma vida folgada, e portanto, algo qualitativamente distinto e muito mais grato, mesmo desde o ponto de vista do conteúdo -, aponta uma diferença específica que o distingue do tempo não-livre, aquele que é preenchido pelo trabalho e, poderíamos acrescentar, na verdade, determinado desde fora. O tempo livre é acorrentado ao seu oposto. Esta oposição, a relação em que ela se apresenta, imprime-lhe traços essenciais. Além do mais, muito mais fundamentalmente, o tempo livre dependerá da situação geral da sociedade. Mas esta, agora como antes mantém as pessoas sob um fascínio. Nem em seu trabalho, nem em sua consciência dispõem de si mesmas com real liberdade. Até mesmo aquelas sociologias conciliadoras que utilizam o conceito de papéis como chave reconhecem isso, enquanto, como sugerem esse conceito de papéis tomado do teatro, a existência que a sociedade impõe às pessoas não se identifica com o que as pessoas são ou poderiam ser em mesmas. Decerto, não se pode traçar uma divisão tão simples entre às pessoas em si e seus assim chamados papéis sociais. Estes penetram profundamente nas próprias características das pessoas, em geral sua constituição íntima. Numa época de integração de social sem precedentes, fica difícil estabelecer, de forma geral, o que resta nas pessoas, além do determinado pelas funções. Isto pesa multo sobre a questão do tempo livre. Não significa menos do que, mesmo onde o encantamento se atenua e as pessoas estão ao menos subjetivamente convictas de que agem por vontade própria, essa vontade é modelada por aquilo de que desejam estar livres fora do horário de trabalho. A indagação adequada ao fenômeno do tempo seria, hoje, porventura, esta: “Que ocorre com ele com o aumento da produtividade no trabalho, mas persistindo as condições de não-liberdade, isto é, sob relações de prodição em que as pessoas nascem inseridas e que, hoje como antes, lhes prescrevem as regras de sua existência?” Já agora, o tempo, livre aumentou sobremaneira; graças às invenções ainda não totalmente utilizadas - em termos econômicos – nos campos da energia atômica e da automação, poderá aumentar cada vez mais. Se quisesse responder à questão sem asserções ideológias, tornar-se-ia imperiosa a suspeita de que o tempo livre tende em direção contrária à de seu próprio conceito, tornando-se paródia; deste. Nele se prolonga a não-liberdade, tão desconhecida da maioria das pessoas não-livres como a sua não-liberdade, em si mesma.
Para esclarecer o problema, gostaria de fazer uso de uma pequena experiênica pessoal. Em entrevistas e levantamento de dados, sempre se é questionado sobre o seu ‘hobby’. Quando as revistas ilustradas informam a respeito de algum figurão da indústria cultural, falar dos quais é, por sua vez, a ocupação principal da indústria cultural, poucas vezes perdem o esnsejo de relatar algo mais ou menos íntimo sobre os ‘hobbies’ dos mesmos. Quando me toca essa questão. Fico apavorado: Eu não tenho qualquer ‘hobby’. Não que eu seja uma besta de trabalho que não sabe fazer consigo mesma nada além de sforçar-se e fazer aquilo que se deve fazer. Mas aquilo com o que me ocupo fora da minha profissão oficial é, para mim, sem exceção, tão sério que me sentiria chocado com a idéia de que se tratasse de ‘hobbies’, portanto ocupações nas quais me jogaria absurdamente só para matar o tempo, se minha experiência contra todo tipo de manifestações de barbárie – que se tomaram como que coisas naturais – não me tivesse endurecido. Compor música, escutar música, ler concentradamente, são momentos integrais da minha existência, a palavra ‘hobby’ seria escárnio em relação à elas. Inversamente, meu trabalho, a produção filosófica e sociológica e o ensino na universidade, têm-me sido tão gratos até o momento que não coneguiria considerá-los como opostos ao tempo livre, como a habitualmente cortante divisão requer das pessoas. Sem dúvida, estou consciente de que estou falando com privilegiado, com a cota de casualidade e de culpa; como alguém que teve a rara chance de escolher e organizar seu trabalho essencialmente segundo as próprias intenções. Este aspecto conta, não em último lugar, para o fato de que aquilo que faço fora do horário de trabalho não se encontre em estrita oposição em relação a este. Caso um dia o tempo livre se transformasse efetivamente naquela situação em que aquilo que antes fora privilégio agora se tornasse benefício de todos – e algo disso alcançou a sociedade burguesa, em comparação com a feudal -, eu imaginaria este tempo livre segundo o modelo que observei em mim mesmo, embora esse modelo, em circunstâncias diferentes, ficasse por sua vez, modificado.
Quando se aceita como verdadeiro o pensamento de Marx, de que na sociedade burguesa a força de trabalho tornou-se mercadoria e, por isso, o trabalho foi coisificado, então a palavra ‘hobby’ conduz ao paradoxo de que aquele estado, que se entende como o contrário de coisificação, como reserva de vida imediata em um sistema total completamente mediado, é, por sua vez, coisificado da mesma maneira que a rígida delimitação entre trabalho e tempo livre. Neste prolongam-se as formas de vida social organizada segundo o regime do lucro.
A própria ironia da expressão negócios do tempo livre [Freizeitgeschäft] está tão profundamente esquecida quanto se leva a sério o ‘show business’. É bem conhecido, e nem por isso menos verdadeiro, que os fenômenos específicos do tempo livre como o turismo e o ‘camping’ são acionados e organizados em função do lucro. Simultaneamente, a distinção entre trabalho e tempo livre foi incutida como norma à consciência e inconsciência das pessoas. Como, segundo a moral do trabalho vigente, o tempo em que se está livre do trabalho tem por função restaurar a força de trabalho, o tempo livre do trabalho – precisamente porque é um apêndice do trabalho – vem a ser separado deste com zelo puritano. Aqui nos deparamos com um esquema as conduta do caráter burguês. Por um lado, deve-se estar concentrado no trabalho, não se distrair, não cometer disparates; sobre essa base, repousou outrora o trabalho assalariado, e suas normas foram interiorizadas. Por outro lado, deve o tempo livre. Provavelmente para que depois se possa trabalhar melhor, não lembrar em nada o trabalho. Esta é a razão da imbecilidade de muitas ocupações do tempo livre. Por baixo do pano, porém, são introduzidas, de contrabando, formas de comportamento próprias do trabalho, o qual não dá folga às pessoas. Nos boletins escolares, havia outrora notas para a atenção. Isso correspondia ao cuidado, talvez subjetivamente bem intencionado, dos pais de que as crianças não se esforçassem demais no tempo livre: não ler demais, não deixar a luz acesa por muito tempo à noite. Secretamente, os pais farejavam por trás disso uma rebeldia do espírito, ou também, uma insistência no prazer, a qual é incompatível com a divisão racional da existência. Toda mescla, aliás, toda falta de distinção nítida, inequívoca, torna-se suspeita ao espírito dominante. Essa rígida divisão da vida em duas moedas enaltece a coisificação que entrementes subjugou quase completamente o tempo livre.
Podemos esclarecer isso de forma simples através da ideologia do ‘hobby’. Na naturalidade da pergunta sobre qual ‘hobby’ se tem está subentendido que se deve ter um, porventura, também já escolhido de acordo com a oferta do negócio do tempo livre. Liberdade organizada é coercitiva. Ai de ti se não tens um ‘hobby’, se não tens uma ocupação para o tempo livre então tu és um pretencioso ou antiquado, um bicho raro, e cais em ridículo perante a sociedade, a qual te impinge o que deve ser o teu tempo livre. Tal coação não é, de nenhum modo, somente exterior. Ela se liga às necessidades das pessoas sob um sistema funcional. No ‘camping’ – no antigo movimento juvenil, gostava-se de acampar – havia protesto contra o tédio e o convencionalismo burgueses. O que os jovens queriam era sair, no duplo sentido da palavra. Passar-a-noite-a-céu-aberto equivalia a escapar de casa, da família. Essa necessidade, depois da morte do movimento juvenil, foi aproveitada e institucionalizada pela indústria do ‘camping’. Ela não poderia obrigas as pessoas a comprar barracas e ‘motor-homes’, além de inúmeros utensílios auxiliares, se algo nas pessoas não ansiasse por isso; mas, a própria necessidade de liberdade é funionalizada e reproduzida pelo comércio; o que elas querem lhes é mais uma vez imposto. Por isso a integração do tempo livre é alcançada sem maiores dificuldades; as pessoas não percebem o quanto não são livres, lá onde mais livres se sentem, porque a regra de tal ausência de liberdade foi abstraída delas.
Se o conceito de tempo livre, em oposição ao de trabalho, é colocado de maneira tão estrita, como, ao menos, corresponde a uma velha ideologia, hoje talvez ultrapassada, então ele se torna algo nulo – Hegel teria dito: abstrato. Exemplar é o comportamento daqueles que se deixam queimar ao sol, só por amor ao bronzeado e, embora o estado de letargia a pleno sol não seja prazeroso de maneira nenhuma, e talvez desagradável fisicamente, o certo é que torna as pessoas espiritualmente inativas. O caráter fetichista da mercadoria se apodera, através do bronzeado da pele – que, de resto, pode ficar muito bem – das pessoas em si; elas se transformam em fetiches para si mesmas. A idéia de que uma garota, graças à sua pele bronzeada, tenha um atrativo erótico especial, é provávelmente apenas uma racionalização. O bronzeado tornou-se um fim em si, mais importante que o flerte para o qual talvez devesse servir em princípio. Quando um funcionário retorna das férias sem ter obtido a cor obrigatória, pode estar certo de que os colegas perguntarão mordazes: “Mas não estavas de férias?” O fetichismo que medra no tempo livre está sujeito a controles sociais suplementares. Que a indústria dos cosméticos, com sua propaganda avassaladora e inevitável, contribua para isso é tão natural e evidente quanto o é que as pessoas condescendentes o reprimam.
No estado de letargia culmina um momento decisivo do tempo livre nas condições atuais: o tédio. Insaciáveis são também as sátiras sobre as maravilhas que as pessoas esperam das viagens de férias ou de qualquer situação excepcional do tempo livre, enquanto tampouco aqui conseguem escapar do sempre-igual; a que não se dissipa mais, como o ‘ennui’ de Baudelair, com a distância. Gracejos em relação à vítima são o acompanhamento dos mecanismos que a tomam tal. Schopenhauer formulou cedo uma teoria sobre o tédio. De acordo com o seu pessimismo metafísico, ele ensinava que, ou as pessoas sofrem pelo apetite insatisfeito de sua cega vontade, ou se entendiam tão pronto aquele esteja satisfeito. A teoria descreve muito bem o que ocorre com o tempo livre das pessoas sob aquelas condições, que Kant teria denominado situação de heteronomia e que, hoje, em alemão moderno, se costuma chamar de heterodeterminação; também o arrogante dito por Schopenhauer de que as pessoas são produtos fabris da natureza atinge, através de seu cinismo, algo daquilo que determina nas pessoas a totalidade do caráter de mercadoria. Seu irado cinismo sempre as dignifica mais do que as solenes afirmações de que elas possuem um núcleo imperdível. Apesar disso, a teoria schopenhaueriana, não deve ser hipostasiada, nem ser considerada pura e simplesmente válida ou, porventura, ser encarada como condição original da espécie humana. O tédio existe em função da vida sob a coação do trabalho e sob a rigorosa divisão do trabalho. Não teria que existir. Sempre que a conduta no tempo livre é verdadeiramente autônoma, determinada pelas próprias pessoas enquanto seres livres, é difícil que se instale o tédio; tampouco ali onde elas perseguem seu anseio de felicidade, ou onde sua atividade no tempo livre é racional em si mesma, como algo em si de pleno sentido. O próprio bobear [Blödeln] não precisa ser obtuso, podendo ser beatificamente desfrutado como dispensa dos autocontroles. Se as pessoas pudessem decidir sobre si mesmas e sobre suas vidas, senão tivessem encerradas no sempre-igual, então não se entediariam. Tédio é o reflexo do cinza objetivo. Ocorre com ele algo semelhante ao que se dá com a apatia política. A razão mais importante para esta última é o sentimento, de nenhum modo injustificado das massas, de que, com a margem de participação na política que lhes é reservada pela sociedade, pouco podem mudar em sua existência, bem como, talvez, em todos os sistemas da Terra atualmente. O nexo entre a política e seus próprios interesses lhes é opaco, por isso recuam diante da atividade política. Em íntima relação com o tédio está o sentimento, justificado ou neurótico de impotência: tédio é o desespero objetivo mas, ao mesmo tempo, também é a expressão de deformações que a Constituição global da sociedade produz nas pessoas. A mais importante, sem dúvida, é a detração da fantasia e o seu atrofiamento. A fantasia fica tão suspeita quanto a curiosidade sexual e o anseio pelo proibido, assim como dela suspeita o espírito de uma ciência que já não é mais espírito. Quem quiser adaptar-se, deve renunciar cada vez mais à fantasia. Em geral, mutilada por alguma experiência da 1ª infância, nem consegue desenvolvê-la. A falta de fantasia, implantada e insistentemente recomendada pela sociedade, deixa as pessoas desamparadas em seu tempo livre. A pergunta descarada sobre o que o povo fará com todo o tempo livre de que hoje dispõe – como se este fosse uma esmola e não um direito humano – baseia-se nisso. Que efetivamente as pessoas só consigam fazer tão pouco de seu tempo livre se deve a que, de antemão, já lhes foi amputado o que poderia tornar prazeroso o tempo livre. Tanto ele lhes foi recusado e difamado que já nem o querem mais. A diversão por cuja superficialidade o conservadorismo cultural as esnoba injuria, lhes é necessária para forjar no horário de trabalho aquela tensão que o ordenamento da sociedade, elogiado por este mesmo conservadorismo cultural, exige delas. Esta não é a última das razões por que as pessoas seguem acorrentadas ao trabalho e ao sistema que as adestra para o trabalho depois que, em grande medida, ele já nem necessitaria desse trabalho.
Sob as condições vigentes, seria inoportuno e insensato esperar ou exigir das pessoas que realizem algo produtivo em seu tempo livre, uma vez que se destruiu nelas justamente a produtividade, a capacidade criativa. Aquilo que produzem no tempo livre, na melhor das hipóteses, nem é muito melhor que o ominoso ‘hobby’: imitações de poesias ou pinturas, as quais sob a divisão do trabalho, dificilmente revogável, outros fazem bem melhor que os artistas das horas vagas [Freizeitler]. O que produzem tem algo de supérfluo. Essa superfluidade comunica-se à qualidade inferior da produção, ficando com isso estragada a alegria do trabalho.
Também a atividade supérflua e sem sentido do tempo livre é socialmente integrada. Novamente entra em jogo uma necessidade social. Certas formas de serviços, em especial os domésticos, extinguem-se; a demanda é desproporcional em relação à oferta. Nos Estados Unidos, somente pessoas realmente abastadas podem manter criadas; a Europa segue rapidamente pelo mesmo caminho. Isto obriga muitas pessoas a realizar atividades subalternas que antes eram delegadas. A isso se vincula o lema ‘Do it yourself’, ‘Faça você mesmo’, como conselho prático; sem dúvida, também no fastio que as pessoas experimentam ante a mecanização que as alivia de uma carga sem que elas – e esse fato não é contestável, somente sua Interpretação habitual – saibam fazer uso do tempo ganho. Daí que novamente no interesse de indústrias especializadas sejam encorajadas a fazer elas mesmas o que outros poderiam fazer por elas melhor e mais facilmente e que, no fundo, por isso mesmo, elas têm que desdenhar. De resto, pertence a uma camada muita antiga da consciência burguesa que o dinheiro gasto com serviçais, na sociedade de divisão do trabalho, poderia ser economizado por obstinado interesse pessoal, cego ao fato de que o mecanismo todo só se mantém vivo através de práticas especializadas. Wilhelm Tell, o abominável protótipo de uma personalidade rude, preconiza que o machado em casa economiza o carpinteiro; assim também, das máximas de Schiller, poder-se-ia compilar toda uma ontologia da consciência burguesa.
O ‘Do it yourself’, um tipo de comportamento recomendado atualmente para o tempo livre, inscreve-se, não obstante em um contexto mais amplo. Eu já o designei, há mais de 30 anos atrás como pseudo-atividade. Desde então, a pseudo-atividade ampliou-se assustadoramente, também e precisamente entre aqueles que se sentem como questionadores da sociedade. De uma forma geral, pode-se presumir, na pseudo-atividade, uma necessidade represada de mudanças nas relações fossilizadas. Pseudo-atividade é espontaneidade mal-orientada. Mal-orientada, mas não por acaso, e sim porque as pessoas pressentem surdamente quão difícil seria para elas mudar o que pesa sobre seus ombros. Preferem deixar-se desviar para atividades aparentes, ilusórias, para satisfações compensatórias institucionalizadas, a tomas consciência de quão obstruída está hoje tal possibilidade. Pseudo-atividades são ficções e paródias daquela produtividade que a sociedade, por um lado, reclama incessantemente, e por outro lado, refreia e não quer muito nos indivíduos. Tempo livre produtivo só seria possível para pessoas emancipadas, não para aquelas que, sob a heteronomia, tornaram-se heterônomas também para si próprias.
Tempo livre, entretanto, não está em oposição somente com trabalho. Em um sistema, no qual o pleno emprego tornou-se um ideal em si mesmo, o tempo livre segue diretamente o trabalho como sua sombra. Ainda faz falta uma penetrante sociologia do esporte, sobretudo do espectador esportivo. Todavia, parece evidente a hipótese, entre outras, de que mediante os esforços requeridos pelo esporte, mediante a funcionalização do corpo no ‘team’, que se realiza precisamente nos esportes prediletos, as pessoas adestram-se sem sabê-lo para as formas de comportamento mais ou menos sublimadas que delas se espera no processo do trabalho. A velha argumentação de que se pratica esporte para permenecer ‘fit’ só pelo fato de colocar a ‘fitness’ como fim em si; ‘fitness’ para o trabalho é contudo uma das finalidades secretas do esporte. De muitas maneiras, no esporte, nós nos obrigaremos a fazer certas coisas – e então gozaremos como sendo triunfo da própria liberdade – que, sob a pressão social, nós temos que obrigar-nos a fazer e ainda temos que achar palatável.
Permitam-me ainda uma palavra sobre a relação entre o tempo livre e a indústria cultural. Sobre esta, enquanto meio de domínio e de integração, foi escrito tanto desde que Horkheimer e eu introduzimos o seu conceito há mais de vinte anos, que me limitarei a destacar um problema específico de que não conseguimos dar-nos conta na ocasião. O crítico da ideologia que se ocupa da indústria culturalhaverá de inclinar-se para a opinião de que – uma vez que os ‘standarts’ da indústria cultural são os mesmos dos velhos passatempos e da arte menor, congelados – ela domina e controla, de fato e totalmente, a consciência e inconsciência daqueles aos quais se dirige e de cujo gosto ela procede, desde a era liberal. Além disso, há motivos para admitir que a produção regula o consumo tanto na vida material quanto na espiritual, sobretudo ali onde se aproximou tanto do material como na indústria cultural. Deveríamos, portanto, pensar que a indústria cultural e seus consumidores são adequados um ao outro como, porém, a indústria cultural, entretanto, tornou-se totalmente fenômeno do sempre-igual, do qual promete afastar temporariamente as pessoas, é de se duvidar se a equação entre e indústria cultural e aconsciência dos consumidores é precedente. Há alguns anos, no Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, realizamos um estudo consagrado a esse problema. Infelizmente, a valoração do material teve que ceder lugar à tarefas mais urgentes. Mesmo assim, uma ligeira vista-d’olhos desse material pode ser relevante em alguns pontos para o assim chamado problema do tempo livre. O estudo era relativo ao casamento da Princesa Beatriz da Holanda com o jovem diplomata alemão Claus von Amsberg. Deveríamos verificar como o povo alemão reagia a esse casamento, o qual, difundido por todos os meios de comunicação de massas e minuciosamente descrito pelas revistas ilustradas, era consumido durante o tempo livre. Dado o modo de apresentação e a quantidade de arquivos que foram escritos sobre o acontecimento, atribuindo-lhe importância extraordinária, esperávamos que também os telespectadores e os leitores o considerariam igualmente importante. Acreditávamos, em especial que operaria a hoje típica ideologia da personalização, que consiste em atribuir-se importância desmedida a pessoas individuais e a relações privadas contra o efetivamente determinante desde o ponto de vista social, evidentemente como compensação da funcionalização da realidade. Com toda prudência, gostaria de dizer que tais expectativas eram demasiado simples. O estudo oferece diretamente um paradigma de como uma reflexão teórico-crítica pode aprender da investigação social empírica e retificar-se sobre a base desta. Esboçam-se sintomas de uma consciência duplicada. Por um lado, o acontecimento foi degustado como um aqui e agora, como algo que a vida geralmente nega às pessoas; deveria ser único [einmalig], segundo clichê da moda na linguagem alemã de hoje. Até aqui, a reação dos expectadores encaixou-se no conhecido esquema que transforma em bem de consumo inclusive as notícias atuais e quiçá, as políticas. Mas, em nosso questionário, complementamos, para efeito de controle, as perguntas tendentes a conhecer as reações imediatas, com outras orientadas a averiguar significação política atribuíam os interrogados ao tão alardeado acontecimento. Verificamos que muitos – a proposição não vem ao caso agora – inesperadamente se portaram de modo bem realista e avaliavam com sentido crítico a importância política e social de um acontecimento, cuja a singularidade bem propagada os havia mantido em suspenso ante a tela do televisor. Em conseqüência, se minha conclusão não é muito apressada, as pessoas aceitam e consomem o que a indústria cultural lhes oferece para o tempo livre, mas com o tipo de reserva, de forma semelhante à maneira como mesmo os mais ingênuos não consideram reais os episódios oferecidos pelo teatro e pelo cinema. Talvez mais ainda: não se acredita inteiramente neles. É evidente que ainda não se alcançou inteiramente a integração da consciência e do tempo livre. Os interesses reais do indivíduo ainda são suficientemente fortes para, dentro de certos limites, resistir à apreensão [Erfassung] total. Isso coincidiria com o prognóstico social segundo o qual, uma sociedade, cujas contradições fundamentais permancem inalteradas, também não poderia ser totalmente integrada pela consciência. A coisa não funciona assim tão sem dificuldades, e menos no tempo livre, que, sem dúvida envolve as pessoas, mas, segundo seu próprio conceito não pode envolvê-las completamente sem que isso fosse demasiado para elas. Renuncio a esboçar as conseqüências disso; penso, porém, que se vislumbra aí uma chance de emancipação que poderia, enfim, contribuir algum dia com a sua parte para que o tempo livre [Freizeit] se transforme em liberdade. [Freizeit].


Bibliografia:
Adorno, Theodor W.,
Indústria cultural e sociedade/Theodor W. Adorno; Seleção de Textos Jorge Mattos Brito de Almeida; traduzido por Julia Elizabeth Levy – São Paulo: Paz e Terra, 2002