quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Geofrafia- Oriente Medio textos

Oriente Médio: um espaço de conflitos
a) Localização
O Oriente Médio, ou Ásia ocidental, caracteriza-se antes de tudo pela sua função histórica de corredor entre três continentes: Ásia, Europa e África. O Mar Verme­lho constitui o limite ocidental do Oriente Médio, que está conec­tado à África através da Península do Sinai. Os mares Mediterrâneo e Negro, ligados pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, formam os limites setentrionais do Oriente Médio. Os estreitos separam as duas porções do território da Turquia, como mostra a figura a seguir.




b) A geopolítica do petróleo


O PETRÓLEO NO GOLFO PÉRSICO

A geopolítica dos países do Golfo organiza-se em torno do pe­tróleo. A exploração das jazidas iniciou-se na década de 1920, sob o comando de companhias transnacionais britânicas, norte-ameri­canas e francesas. A estabilidade dos países da área e a garantia de suprimentos de petróleo para o mundo desenvolvido representam um dos vetores da política internacional contemporânea.
Na margem ocidental do Golfo localizam-se a Arábia Saudita (desempenha as funções geopolíticas de liderança) e os pequenos Estados petrolíferos litorâneos. Nesses países, o poder político é controlado por dinastias islâmicas conservadoras, susten­tadas pelas rendas do petróleo e associadas às potências ocidentais.
O Iraque e o Irã ocupam as margens setentrional e oriental do Golfo. O Iraque nasceu do desmembramento do Império Turco e permaneceu, até 1958, sob regime monárquico pró-ocidental. A re­pública, instalada por um golpe militar nacionalista, sofreu forte influ­ência da ideologia pan-arabista. No Irã, a monarquia do xá Reza Pahlevi rompeu com as tradições islâmicas e promoveu campanhas ocidentalizantes, até a insurreição que conduziu o clero xiita ao poder.
O Iraque, nacionalista e acalentando o projeto da unidade ára­be, entrou em conflito com o Irã, que sonhava com a difusão da revolução islâmica. A guerra eclodiu em 1980, precipitada por uma disputa de fronteira. Durou até 1988, sem alterar as fronteiras, mas arrasando os dois países. Calcula-se que cerca de 700 mil pessoas morreram na guerra.
Os países exportadores do Golfo colocaram a extração do pe­tróleo sob controle de companhias nacionais entre as décadas de 1950 e 1970. Em 1960, foi criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). A OPEP destinava-se a transferir o poder de fixar os preços do petróleo para os países exportadores. A estra­tégia consistia em estabelecer cotas máximas de produção para os países integrantes, de modo a regular a oferta mundial do produto.
O primeiro "choque de preços" do petróleo utilizou como pre­texto a Guerra do Yom Kippur (1973). Reagindo ao apoio dos Estados Unidos a Israel, os países árabes da OPEP conseguiram aprovar uma brusca redução nas cotas de produção, deflagrando súbito au­mento de preços. O barril de petróleo saltou de cerca de 3 dólares para cerca de 12 dólares. O segundo "choque de preços" ocorreu logo após a Revolução Iraniana, em 1979. O barril de petróleo ul­trapassou, então, a marca de 30 dólares.
Os "choques do petróleo" atingiram pesadamente a economia mundial, provocando inflação nos países ricos e desequilibrando a balança comercial de diversos países importadores. Ao mesmo tem­po, geraram extraordinário fluxo de rendas petrolíferas para as elites econômicas dos países exportadores. No Golfo Pérsico, as rendas do petróleo consolidaram o poder da monarquia saudita e financia­ram o Iraque e o Irã no seu esforço de guerra.
Os países desenvolvidos reagiram à esca­lada dos preços do petróleo com a pesquisa e prospecção de novos campos petrolíferos, localizados fora da área da OPEP. A explora­ção de jazidas situadas sob águas profundas tornou-se economicamente viável, em função dos elevados preços do barril. Assim, passa­ram a ser exploradas bacias em várias partes do mundo. Além disso, os países importado­res engajaram-se na diversificação das fontes energéticas, reabrindo minas de carvão e im­plantando usinas nucleares.
A revolução tecnocientífica contribuiu de­cisivamente para a eficiência energética. A produção de riquezas, especialmente nos pa­íses desenvolvidos, cresce em ritmo muito mais acelerado que a expansão do consumo de energia. A partir de meados da década de 1980, os preços do barril de petróleo come­çaram a declinar acentuadamente. Entre os membros da OPEP, a redução das rendas pe­trolíferas aprofundou as divergências sobre a distribuição de cotas de produção.
Nesse contexto, em 1990, o Iraque pro­moveu uma invasão militar do Kuwait e de­clarou que o anexaria permanentemente. A iniciativa do regime nacionalista do lraque alar­mou os países desenvolvidos. Temia-se o sú­bito aumento do controle iraquiano sobre as reservas petrolíferas do Golfo e, sobretudo, o prosseguimento da ação militar, desta vez contra a Arábia Saudita.
Os Estados Unidos reagiram articulando uma ampla coalizão in­ternacional, formada por aliados europeus e países árabes (como o Egito, a Arábia Saudita e até a Síria), para expulsar o Iraque do Kuwait. Na Guerra do Golfo, breve e violenta, uma devastadora campanha de bombardeios aéreos e uma ofensiva final terrestre destruíram a estrutura militar do lraque e expulsa­ram as tropas invasoras do Kuwait.
Desde a Guerra do Golfo, os Estados Unidos estabeleceram uma ostensiva presença militar na região. Centros de comando e bases aéreas foram implantados ou modernizados na Arábia Saudita, no Kuwait, em Barein e Catar. As instalações operadas pelos Estados Unidos nesses países tornaram-se o núcleo de uma engrenagem estratégica destinada a preservar a estabilidade dos Estados da Península Arábica.
A engrenagem militar norte-americana revela o valor estratégi­co dos campos de petróleo e das rotas de navios petroleiros no Golfo. Mas essa engrenagem tem provocado a reação de organiza­ções e grupos fundamentalistas, que não admitem a presença de militares estrangeiros em terras muçulmanas.


IRAQUE: CENÁRIO DE VIOLÊNCIA, TERROR E MORTE
Mesmo com a ocupação estrangeira ocorrida há três anos, o país ainda vive um cotidiano de guerra civil.

O Iraque viveu em 5 de janeiro de 2006 um triste dia típico: atentados suici­das, ataques contra peregrinos xiitas e conflitos com tropas norte-americanas. Nesse triste cotidiano do país, essa data se destacou porque o número de mor­tos, 130, foi um dos mais elevados de todo o período da guerra.
Três anos depois que os soldados dos Estados Unidos (EUA) e do Reino Unido - à frente de uma coalizão - inva­diram e ocuparam o país, vê-se que a guerra não só continua como também está mais feroz. Diariamente, a insur­gência contra a presença estrangeira se expressa em atentados terroristas, que têm custado a vida de milhares de pes­soas. De 2003 para cá, de acordo com os cálculos mais conservadores, morre­ram em média mil civis por mês.
O presidente norte-americano, George W. Bush, porém, continua a defender a presença das tropas de seu país e reafir­ma a posição do governo de não deixar o Iraque até que haja uma vitória final. Os EUA mantêm no país quase 140 mil soldados. A eles se somam 22 mil milita­res de outras nações, entre as quais a de maior contingente é o Reino Unido.
A guerra teve origem na suspeita, dos EUA e do Reino Unido, de que o presi­dente iraquiano Saddam Hussein escon­dia armas de destruição em massa. Para Bush, o ataque ao país era também par­te da "guerra contra o terror".
No início de 2003, os EUA e o Reino Unido pressionaram a Orga­nização das Nações Unidas (ONU) a aprovar o uso da força para desarmar o Iraque, mas enfrentaram a resistência de outros países - particularmente da França e da Alemanha. Os norte-ame­ricanos e os britânicos decidiram então atacar unilateralmente, mesmo sem o respaldo da ONU. Em 19 de março iniciaram a guerra e, em apenas um mês, derrubaram o regime de Saddam, que foi preso e está sendo julgado.
Os combates entre Exércitos acaba­ram, mas os soldados norte-america­nos, ocupando um país estranho, ain­da são alvos de uma intensa campa­nha de atentados e ações guerrilhei­ras. A resistência armada voltou-se também contra as tropas aliadas, as organizações internacionais e os civis iraquianos que colaboram com as tro­pas de ocupação, como a nova polí­cia. Vários jornalistas estrangeiros, diplomatas e cidadãos estrangeiros foram seqüestrados e mortos.
Além de enfrentar pesadas baixas de iraquianos e de soldados da coalizão, o governo Bush não encontrou no Iraque as armas de destruição em mas­sa que foram a justificativa para o con­flito. Na opinião de muitos críticos da política de Bush, o verdadeiro motivo da invasão era o acesso ao petróleo, insumo fundamental para a economia norte-americana e do mundo. A guer­ra garantiria o controle das reservas petrolíferas do Iraque, menores apenas que as da Arábia Saudita.
Na guerra propriamente dita, os EUA tiveram número relativamente pequeno de baixas. Mas, com os con­flitos após a ocupação, até janeiro de 2006, cerca de 2,2 mil soldados norte-americanos haviam morrido no Iraque.
Tudo isso ocorre em meio a um qua­dro caótico de infra-estrutura e de abas­tecimento no país: faltam água, comida, energia e remédios. De acordo com um relatório da Comissão de Direitos Huma­nos da ONU, o índice de desnutrição aguda em crianças com menos de 5 anos dobrou desde o início da guerra.
A principal fonte de sofrimento da po­pulação iraquiana tem sido o índice altíssimo de perdas civis. Mesmo divergentes, as estimativas são todas alarmantes. Em 2004, a revista médica britâni­ca The Lancet estima que o número de mortos desde o início do conflito seja de cerca de 100 mil pessoas, incluindo no cálculo as mortes decor­rentes da degradação provocada pela guerra, como a falta de remédios. O presidente Bush, em dezembro de 2005, fala em 30 mil iraquianos mor­tos. De acordo com estimativa da ONG britânica Iraq Body Count, divulga da em janeiro de 2006, foram entre 27,8 mil e 31,3 mil.
Seja como for, a frieza dos números passa longe da sombria realidade da população iraquiana, sujeita diariamen­te a atentados cruéis. O grande proble­ma enfrentado pelas forças de seguran­ça é justamente identificar os inimigos antes que ataquem. Os rebeldes agem sem um padrão ordenado. Não consti­tuem uma organização centralizada. Os insurgentes estão entre nacionalis­tas, fundamentalistas religiosos, parti­dários de Saddam Hussein, militantes da organização terrorista Al Qaeda e muçulmanos de outros países.
Além de não estabilizar o Iraque, a ocupação dos EUA teve ainda um ter­rível efeito colateral: fortaleceu, em todo o Oriente Médio, movimentos islâ­micos fundamentalistas, que têm sido identificados como os maiores oposito­res da presença estrangeira na região. A vitória da ala mais radical dos islâmi­cos iranianos, na eleição presidencial de 2005, e a do Hamas, nas eleições palestinas de janeiro, são apontadas como exemplo disso.
Qualquer tentativa de estabilização do lraque precisa passar pelo intrincado mosaico étnico e religioso do país. A população é composta majoritariamen­te de três grupos: uma maioria de árabes xiitas, cerca de 60% dos habitantes; os ára­bes sunitas, minoria que ocupou o poder na era Saddam; e os curdos, muçulma­nos sunitas que vivem no norte e alme­jam a independência.

A maior rivalidade ocorre entre os árabes sunitas e os xiitas. Os primeiros (20% da população) sempre foram a eli­te dominante, controlando a cena polí­tica local muito antes da era Saddam, ele próprio um sunita. Alijados do poder com a ocupação externa, agora tentam garantir a maior participação possível nas decisões e a manutenção de suas prerrogativas. Mas as pretensões sunitas contam com a oposição da maioria xii­ta, que por décadas foi oprimida.
Os curdos (15% dos habitantes) batem­-se pela criação de uma nação própria, o Curdistão, que englobaria o norte do Iraque e partes da Turquia, da Síria, da Armênia e do Irã. Por ora, seus líderes se contentam com a maior autonomia para a região na qual são majoritários.

O CURDISTÃO


Em janeiro de 2005 foram realiza­das as primeiras eleições parlamentares da era pós-Saddam. Apesar das amea­ças de violência contra os eleitores e do boicote das lideranças sunitas, cerca de 8,5 milhões de pessoas votaram, mais da metade dos quase 15 milhões de eleitores inscritos. O objetivo era ele­ger os deputados para a Assembléia Nacional, encarregada de formar um governo transitório e de redigir a nova Constituição. A coalizão Aliança Ira­quiana Unida, que reúne os xiitas reli­giosos, venceu as eleições, mas não con­seguiu eleger dois terços dos parlamen­tares. Por isso, teve de negociar com outras forças para poder governar.
Após meses de impasse político, em abril, finalmente, o Parlamento chegou a uma decisão: o curdo Jalal Talabani foi eleito presidente. Para o cargo de primeiro-ministro, o posto de maior importância, foi escolhido o árabe xii­ta Ibrahim al-Jaafari.
A demora na escolha se deu pela necessidade de equilibrar os interesses dos três grupos majoritários, sobretudo os dos sunitas. Atraí-los para o novo gover­no era de vital importância para tentar enfraquecer a insurgência, pois é de suas fileiras que parte a resistência mais feroz.
Após alguns meses, uma comissão da Assembléia Nacional apresentou o pro­jeto de Constituição. O texto desagradou às lideranças sunitas, por prever a possibilidade de criação de federações autônomas dentro do Iraque, que controlariam os rendimentos obtidos com o petróleo. Os sunitas temem o desmembramento do país, com a formação de governos regionais dos curdos (no norte) e dos xiitas (no sul), ou seja, nas regiões onde se concentram as jazidas de petróleo.
O governo dos EUA interveio dire­tamente, pressionando todas as partes a aceitar a Constituição, que não foi votada formalmente pelos parlamenta­res. Um acordo fechado poucos dias antes do referendo popular sobre a Constituição, em outubro de 2005, previa que os próximos parlamentares eleitos pode­riam revisar o texto e aprovar emendas. No referendo, a Constituição foi apro­vada por 78,6% dos votantes.
Em dezembro de 2005 realizaram-se novas eleições parlamentares. A Aliança Iraquiana Unida venceu, mas sem con­seguir maioria absoluta. Obteve 128 das 275 cadeiras do Parlamento, dez a menos que a maioria. O segundo maior bloco é a Aliança do Curdistão, com 53 assentos, seguida pelo principal partido árabe sunita, a Frente de Acordo Ira­quiano, que conquistou 44 assentos.
Começou então a difícil negociação para formar o governo. Mais uma vez, o ponto central era atrair os sunitas para compor o gabinete. O presidente Bush exortou, em 10 de janeiro, as lideranças iraquianas a pôr de lado suas diferenças e formar um governo de unidade nacio­nal. Até meados de fevereiro, o governo ainda não havia sido formado.
Com o aumento da violência no Iraque, o governo norte-americano tem assistido a uma sensíve1 redução do apoio à ocupação do país, sobretudo dentro dos próprios EUA. O povo norte-americano está descontente com a morte de seus soldados. Uma pesquisa publicada pe1a revista Newsweek, em agosto de 2005, mostrou que apenas 34% dos norte-ame­ricanos concordam com a manutenção de um grande contingente no Iraque.
A falta de aprovação dentro de casa é acompanhada de igual perda no âmbi­to externo. Um fator de peso para isso foi a comprovação de que o motivo ale­gado para a invasão do Iraque - as supos­tas armas de destruição em massa de Saddam - não existia.
Diversos países retiraram ou anuncia­ram a iminente retirada das tropas que mantinham no Iraque, entre eles estão Espanha, Filipinas, Honduras, República Dominicana, Noruega, Cazaquistão, Ucrânia, Holanda, Bulgária, Polônia, Hungria e Itália.
Bush insiste em dizer que qualquer retirada não deve ser precipitada, alegan­do que, caso as tropas de ocupação saiam agora, o Iraque poderia mergulhar em uma guerra civil e se transformar em abrigo de terroristas. Para os que criti­cam Bush, o cenário descrito por ele já é vivido pelo Iraque atualmente.
Atualidades no Vestibular – 1o semestre de 2006 – Ed. Abril



c) A questão palestina

Para acompanhar as relações entre israelenses e palestinos, nos últi­mos tempos, não dá para tirar os olhos dos jornais nem da TV. Em menos de seis meses, tudo passou por grandes e profundas transformações de lado a lado. Ainda assim, permanece o impas­se. Veja os principais fatos.
1) Em agosto de 2005, Israel retirou todos os colonos judeus que viviam na Faixa de Gaza (território palestino no litoral sul de Israel) e os que ocupavam quatro das dezenas de assentamentos na Cisjordânia (território palestino). A reti­rada foi executada a mando do primei­ro-ministro Ariel Sharon, político iden­tificado com a direita israelense, que não costuma fazer nenhuma concessão aos palestinos e defende tradicionalmente a ocupação de toda a extensão atual de Israel pelo Estado judaico.
2) Sharon, em seguida, saiu de seu velho partido Likud e iria disputar - na condição de franco favorito - as eleições parlamentares de março de 2006 pela agremiação que fundou, o Kadima (que significa "avançar"). Em janeiro, porém, sofreu um derrame devastador que o dei­xou em grave risco de vida até meados de fevereiro (fechamento desta edição). Foi substituído por seu vice, Ehud Olmert. O resultado eleitoral, então, virou uma incógnita.
3) No fim de janeiro veio o abalo do lado palestino. Nas eleições parlamen­tares da Autoridade Nacional Palestina, o partido fundamentalista islâmico Hamas conquistou expressiva maioria, desbancando o partido governista Fatah, do presidente Mahmoud Abbas. O Hamas, que defende o fim do Estado de Israel, é responsável por inúmeros aten­tados contra israe­lenses e considera­do um grupo terrorista por Israel, Esta­dos Unidos (EUA) e União Européia (UE). Com esse re­sultado, ninguém sabe dizer com cer­teza se - e como ­continuarão as ne­gociações de paz.

Um breve histórico
O movimento Sionista, expressão do nacionalismo judaico,­ surgiu na Europa dos últimos anos do século XIX. A sua bandeira era o estabelecimento de um Estado para os judeus. Essa bandeira desdobrou-se na campanha pelo "retorno" à Terra Santa, através da aquisição de terras e do assentamento de imigrantes judeus na Palestina.
A imigração, organizada pelas agências do movimen­to sionista, desenvolveu-se aceleradamen­te no entre - guerras. Desde 1918, com a ruína do Império Turco-Otomano, a Pa­lestina tinha se tornado mandato britâni­co e a potência mandatária, através da De­claração Balfour (1917), havia se compro­metido a possibilitar a criação de um Esta­do judeu no território.
A colonização judaica provocou san­grentos conflitos com a população árabe nativa. Em muitos lugares, as terras adqui­ridas pelo movimento sionista estavam ocu­padas, há gerações, por pastores e campo­neses que não detinham títulos de propri­edade. As expulsões de residentes pelos novos colonos, organizados militarmente, geraram revoltas árabes que, na década de 30, desestabilizaram a Palestina. Israel, ori­ginalmente, foi uma singular colônia de povoamento européia: uma colônia criada por um movi­mento nacionalista, não por um Estado Imperial.
No final da Segunda Guerra Mundial, a revelação do Holocausto promovido pelo nazismo horrorizou a opinião pública internacional. Em 1947, a ONU decidiu encerrar o mandato britânico na Palestina e promover a partilha do território em dois Estados. A resolução contou com o apoio de Washington e Moscou, mas teve a oposição decidida dos novos Estados árabes.


O plano de partilha conduziu à guerra entre o novo Estado de Israel e uma coalizão de países árabes integrada pelo Egito, Síria, Jordânia e Iraque. A guerra de 1948-49, que terminou com a vitória de Israel, deixou como legado uma população de refugiados palestinos no Oriente Mé­dio. Os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, que seriam parte do Estado Palestino, ficaram sob a "proteção" da Jordânia e do Egito. Jerusalém foi dividida, ficando a parte ocidental da cidade sob o controle de Israel e a parte oriental, que abrange a Cidade Velha e era habitada quase exclusivamente por árabes, sob a "proteção" da Jordânia.




O Egito, sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, fez da oposição a Israel a sua principal bandeira geopolítica. Israel sintetizava, aos olhos dos árabes, a opressão colonial euro­péia e, de modo geral, a arrogância imperial do Ocidente. Nesse contexto, o Egito montou uma coligação, com a Síria e a Jordânia, que enfrentou Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Mas o desastre militar constituiu um golpe fatal nas aspirações de unidade árabe e acarretou a ocupação de territórios palestinos, sírios e egípcios.


Desde o início, o sionismo encarava toda a Palestina ­a "Terra Santa” - como o lar nacional judaico. Esse impul­so expansionista expressou-se, após a Guerra dos Seis Dias, na colonização israelense dos territórios palestinos ocupa­dos (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Leste). Os as­sentamentos iniciaram-se sob o governo do Partido Traba­lhista mas aceleraram-se, após 1977, sob o Likud. No to­tal, cerca de 190 mil colonos israelenses instalaram-se na Cisjordânia e algo como 10 mil em Gaza. Além disso, 175 mil fixaram residência na parte leste de Jerusalém.
O projeto expansionista sofre atualmente um impor­tante redirecionamento. As intifadas (revoltas palestinas) e, sobretudo, o elevado crescimento demográfico da po­pulação árabe geraram um consenso político em Israel fa­vorável à separação política e física entre o Estado judeu e um futuro Estado palestino.
Esse consenso traduz-se na estratégia israelense de defi­nição unilateral de fronteiras. A retirada de Gaza, conduzida em 2005, e a projetada anexação de partes da Cisjordânia (os maiores blocos de assentamentos e o estratégico vale do rio Jordão) configurariam as fronteiras definitivas. O "muro de segurança” na Cisjordânia, em plena edificação, destina­-se a materializar a fronteira como um front militar. Do ou­tro lado do front, sobrariam fragmentos de territórios des­conexos que, cinicamente, são apresentados como o em­brião do Estado Palestino.






Muro que separa israelenses de palestinos fica pronto em 2007
O "muro de proteção" que Israel está construindo desde 2002 sob a alegação de que a barreira impedirá o acesso de terroristas palestinos a seu território será completado em 2007. Os palestinos criticam a cons­trução e dizem que ela é uma medida sepa­ratista, mesma opinião da comunidade inter­nacional. A informação foi dada nesta ter­ça-feira pelo jornal The Jerusalem Post, que publicou uma entrevista com Danny Tírza, porta-voz do Ministério da Defesa em Tel Aviv encarregado de planejar o traçado do muro (...).
O traçado do muro provocou muita polê­mica tanto em Israel quanto no exterior, pois em vários pontos ele foi erguido sobre terri­tório palestino. O representante israelense afirmou que, no final de março, a barreira de segurança será um "obstáculo contínuo" para os terroristas e que a parte do muro que segue as "fronteiras de 1967" entre o território reconhecido de Israel e a Cisjordânia estará terminada. A construção em tomo de Jerusalém, cujo traçado é composto por três partes, terminará em meados deste ano. (...)
Calcula-se que aproximadamente 50 mil palestinos residentes nos bairros árabes peri­féricos de Jerusalém fiquem do lado pales­tino da barreira quando ela estiver finaliza­da. Outros 180 mil árabes residentes de Jerusalém ficarão do lado israelense, segun­do dados de fontes oficiais de segurança de Israel.
Tirza disse que a construção do muro de separação tem sido atrasada, em média, em nove meses pelas ações legais dos prejudi­cados pela barreira (...).
A Corte Internacional de Justiça de Haia disse que a barreira é "ilegal", contrária ao Direito Internacional, e deve ser destruí­da, e que os palestinos prejudicados devem ser indenizados. A Suprema Corte israelense ordenou mudanças no traçado da cerca por considerar que, em alguns pontos, ela violava o direito de palestinos, separando-os de suas terras de trabalho.
Folha Online, 7/2/2006


HISTÓRICO DO CONFLITO ÁRAVE-ISRAELENSE
CRONOLOGIA
1945: Criação da Organização das Nações Unidas (ONU), com o fim da Segunda Guerra Mundial.
1947: ONU divide a Palestina entre árabes e judeus. Os primeiros rejeitam a divisão.
1948/1949: Fundação de Israel, com a retirada das forças britânicas. Após a declaração de independência, países árabes invadem Israel em maio. A guerra dura até julho de 1949, com 6 mil judeus mortos e mais de 650 mil palestinos em fuga.
1956: Crise de Suez. Israel, França e Grã-Bretanha invadem o Egito.

1964: Criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat.
1967: Guerra dos Seis Dias. Israel enfrenta forças árabes no Sinai, na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, nas Colinas de Golã e em Jerusalém Oriental, recuperando o Muro das Lamentações.As conquistas no conflito multiplicam por três o tamanho original de Israel.

1973: Guerra do Yom Kippur. Ajudadas pela Síria, forças do Egito atacam Israel. O Estado judeu é apanhado de surpresa, mas se recupera e triunfa no conflito.

1977: Em novembro, o então presidente do Egito, Anwar Sadat, visita Jerusalém, abrindo caminho para o Acordo de Camp David.
1978: Acordo de paz de Camp David é assinado entre Israel e Egito.
1982: Israel invade o Sul do Líbano. Em setembro, ocorre o massacre no campo de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, em Beirute. Milícias cristãs libanesas, com a anuência das forças de Israel, chacinam 1.800 muçulmanos. À época, Ariel Sharon era ministro da Defesa israelense.

1987 a 1993: Período da Intifada, revolta palestina contra a ocupação de seus territórios pelo Exército israelense.
1993: Encontro histórico entre o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, e o premier israelense à época, Yitzhak Rabin. O encontro põe fim à Intifada e confere aos dois, juntamente com o então chanceler israelense, Shimon Peres, o prêmio Nobel da Paz. São assinados os Acordos de Oslo, que estabelecem um cronograma para a retirada israelense de Cisjordânia e Faixa de Gaza.

1995: Rabin é assassinado por um judeu fanático e contrário aos Acordos de Oslo.



2000: É iniciada a nova Intifada, a segunda fase do levante palestino contra a ocupação de seus territórios por forças de Israel. A revolta, que já provocou a morte de 3.503 palestinos e 956 israelenses, continua até os dias atuais.
2001: Sharon é Primeiro-ministro de Israel. Em dezembro, Yasser Arafat é confinado por Israel na sede da Autoridade Nacional Palestina, em Ramallah, na Cisjordânia.

2002: Começa a construção do muro na Cisjordânia.
2003: Em abril, o mapa da paz, plano de pacificação do Oriente Médio, foi apresentado a autoridades palestinas em israelenses pelo quarteto internacional composto por EUA, União Européia, Rússia e ONU. Aceito pelas duas partes, o mapa da paz marcou pela primeira vez na História a aceitação por parte do Estado judeu o princípio de existência de um Estado palestino, cuja criação, segundo o plano, estava prevista para 2005.
2003/2004: Com o fracasso do mapa da paz, o governo de Ariel Sharon decide adotar uma solução unilateral para o conflito. A partir de 2003, cercas isolam a Cisjordânia e estabelece-se um plano para a retirada de tropas e colonos judaicos da Faixa de Gaza e de regiões cisjordanas, aprovado finalmente no Parlamento israelense em outubro de 2004.

2004: Morre Yasser Arafat.

2005: Muhmud Abbas é eleito presidente da ANP. Israel remove os assentamentos de Gaza e quatro da Cisjordânia. Sharon abandona o Likud e funda um novo partido, o Kadima.

2006: Sharon sofre um derrame em janeiro e é afastado do governo. O Kadima, partido de Sharon, vence as eleições de março, o primeiro-ministro passa a ser Ehud Olmert. Nas eleições parlamentares palestinas, o Hamas obtém inesperada vitória contra o Fatah, partido de Abbas.

AS DUAS MURALHAS DA PALESTINA

Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, o cenário político do país foi domi­nado por dois grandes partidos: o Traba­lhista, de centro-esquerda, e a Direita con­servadora, que acabou se agrupando ao Likud. Hoje, porém, há um só grande "partido" político no país, chamado Ariel Sharon, primeiro-ministro afastado por conta de um acidente vascular cerebral (AVC) e que, em meados de fevereiro de 2006, os­cilava entre a vida e a morte.
Vivo ou morto, porém, Sharon deverá continuar dando as cartas na política israe­lense por meio de seu novo partido, o Kadima (Avante, em hebraico), que foi o grande vencedor das eleições parlamentares em março de 2006. Esse “dar as cartas” tem como eixo a imposição de um plano de de­volução de parte da Cisjordânia e fixação unilateral das fronteiras de Israel. Uma im­posição, claro, aos palestinos, que exigem a devolução de toda a Cisjordânia, assim como de Jerusalém Oriental, territórios ocupados por Israel em 1967. Mas, uma imposição também para parte da sociedade israelense, que é contrária a concessões aos palestinos, principalmente após a vitória eleitoral do Hamas.
Jornal Mundo – Geografia e Política Internacional, março de 2006.


O HAMAS NO PODER!
Um paradoxo assola o Oriente Médio: o paradoxo democrático. A surpreendente e esmagadora vitória do grupo fundamentalista Hamas (acrônimo, em árabe, de Movi­mento de Resistência Islâmica) nas eleições para o Parlamento palestino, em janeiro de 2006, foi o mais contundente golpe na política americana de "exportar" a democracia para o Oriente Médio como forma de estabilizar a região e combater o terrorismo.
Antes da vitória do Hamas, o fracasso dessa faceta da Doutrina Bush já era evidente em toda a região. Foi o caso do Iraque, que os Estados Unidos invadiram em 2003 para derrubar o regime de Saddam Hussein. Desde então, a guerra civil engolfou o país, transformando-o em centro de treinamento de terroristas da Al-Qaeda, que se aliaram à insurgência sunita local em luta contra a ocupação. Para piorar, as eleições de dezembro consagraram os setores xiitas mais comprometidos com a implantação de um Estado islâmico.
Na Arábia Saudita, que sob pressão adotou um arremedo quase risível de aber­tura política permitindo eleições municipais, saíram fortalecidos os wahabitas, a seita puritana que representa o setor mais duro da teocracia saudita. No Líbano, o grupo terrorista Hezbollah, representando a comunidade xiita, ganhou força políti­ca no Parlamento. Finalmente, na ditadura secular do Egito, reformas limitadas levaram a Irmandade Muçulmana - a fonte histórica do fundamentalismo islâmico contemporâneo - a conquistar 88 das 150 cadeiras no Parlamento.
Mas considerações geopolíticas certamente pesaram pouco nos motivos que leva­ram a maioria do eleitorado palestino a depositar suas esperanças no grupo responsá­vel pelos mais sangrentos atentados terroristas em Israel. Cansados de serem liderados por uma organização inepta e corrupta até o último fio de cabelo - a Fatah de Yasser Arafat -, os palestinos resolveram dar uma chance aos incorruptíveis do Hamas.
O Hamas tem uma história curiosa. Suas raízes remontam aos anos 70, com a formação da Irmandade Muçulmana na Faixa de Gaza, sob os auspícios da Arábia Saudita e o olhar benevolente de Israel, que buscava uma alternativa religiosa e filan­trópica ao nacionalismo da OLP. Mas o Hamas saiu do ovo em 1988, entre as pedras da primeira intifada (revolta palestina), sob uma configuração muito mais radical, defendendo a destruição de Israel e a formação de um Estado islâmico em toda a Palestina. O grupo se opôs violentamente aos acordos de Oslo de 1993, que permiti­ram o surgimento da Autoridade Nacional Palestina (ANP), lançando mão de san­grentos atentados suicidas contra civis israelenses ao longo dos últimos dez anos.
Contudo, ao mesmo tempo, o Hamas nunca abandonou sua vocação filantró­pica original e, com fundos recebidos do Irã, de palestinos no exílio e de outros Estados árabes, sustenta uma extensa rede de proteção social aos palestinos em Gaza e na Cisjordânia, como hospitais, creches e escolas. Nos últimos tempos, os palesti­nos puderam avaliar algumas administrações municipais conquistadas pelo Hamas, um vivo contraste com as depravadas prefeituras dirigidas pelos herdeiros de Arafat do grupo Fatah, que dirigia a ANP.
Apesar do espanto inicial e da tentativa de punir o "desatino" dos palestinos com o boicote econômico, os Estados Unidos, a União Européia e mesmo Israel se convence­ram de que não há outra alternativa senão engolir a seco a vitória do Hamas e esperar para ver. A opção de destruir a ANP não faz parte do cardápio político das correntes políticas dominantes em Israel, pois a conseqüência seria o retorno das tropas israelenses ao conjunto dos territórios ocupados e a retomada da repressão direta aos palestinos, num quadro de radicalização e conflitos sangrentos.
Os americanos, os europeus e os israelenses definiram uma estratégia transitó­ria. Eles pressionam por algum tipo de coalizão entre o Hamas e o Fatah e, ao mesmo tempo, exigem que o Hamas reconheça o Estado de Israel e renuncie à vio­lência. No horizonte de curto prazo, nada disso acontecerá. O Hamas, eleito pela maioria esmagadora dos palestinos, cometeria suicídio político se desistisse, a troco de nada, das suas posições tradicionais. Mas, e num horizonte mais largo?
As eleições de março de 2006 em Israel foram vencidas pelo Kadima, o novo partido dissidência formado por Ariel Sharon, que agrupou uma vasta dissidência do Likud e alguns líderes históricos do Partido Trabalhista como, principalmente, Shimon Peres. O Kadima, sob o comando de Ehud Olmert, segue a linha definida por Sharon: uma "paz sem parceiros", ou seja, a definição unilateral das fronteiras definitivas na Palestina e a separação física entre Israel e os palestinos. Como responderá o Hamas aos fatos consumados impostos por essa estratégia? Escolherá a via do confronto, pela retomada de ações terroristas ou pela organiza­ção da resistência popular armada?
O conceituado jornal israelense Haaretz preferiu conjeturar em outra direção. Ele sugeriu que o Hamas poderia repetir a trajetória do Likud - uma organização com passado terrorista e uma plataforma radical, de anexação de toda a Terra Santa, que, pouco depois de chegar ao poder, em 1977, fez a paz com o Egito, então um dos piores inimigos de Israel. Paz entre Israel e o Hamas? Quem viver verá.
O certo é que a Doutrina Bush vai de fracasso em fracasso. A visão de um Iraque estável, pró-americano, e de uma Palestina sob controle dos confiáveis herdeiros de Arafat dissolveu-se sob o impacto do voto de iraquianos e palestinos. Além disso, com a vitória do Hamas, a Palestina voltou a ocupar o lugar central do tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. É tudo o que Washington não queria.

Cláudio Camargo, jornalista e sociólogo, e editor internacional da Revista Isto É.
Março de 2006 / texto adaptado.

Foi uma retirada unilateral semelhan­te - da Faixa de Gaza, em 2005 - que con­solidou Sharon como o estadista israelen­se mais forte das últimas quatro décadas e permitiu a criação do Kadima, logo trans­formado em peça-chave do tabuleiro po­lítico. Isso porque Sharon, primeiro-mi­nistro do Likud em uma coalizão com os trabalhistas, não tinha o apoio de seu par­tido para retirar as tropas israelenses de Gaza. Em uma manobra ousada, Sharon deixou o Likud e fundou o Kadima ao lado de outros ministros, com destaque para o veterano trabalhista Shimon Peres, que havia perdido o comando de seu partido.
A retirada de Gaza reduziu a intensida­de de atentados terroristas, trazendo um pouco de paz a Israel, após anos de turbu­lências. Coisa que nem os trabalhistas ­autores da mais ousada proposta de paz aos palestinos, incluindo sua soberania parcial sobre setores de Jerusalém - nem o Likud, com sua política linha-dura - haviam con­seguido. Esse sopro de paz explica a força de Sharon, vivo ou morto, e de seu parti­do. "Sharon é o único capaz de fazer a paz", afirmou Shimon Peres, ele mesmo derro­tado pela estagnação das negociações com a Autoridade Nacional Palestina (ANP).
A vitória do Kadima nas urnas representou um sinal verde is­raelenses à política de devolver parcelas da Cisjordânia, enquanto se prepara a ane­xação de fato do Vale do Jordão, onde es­tão as fontes de água e as terras mais fér­teis da região, assim como a maioria das colônias que alojam cerca de 200 mil isra­elenses. A desocupação certamente viria acompanhada de protestos dos colonos judeus de extrema-direita, assim como pelo fim de qualquer conversa sobre de­volver Jerusalém Oriental, de maioria ára­be, selando - com sólidos muros de con­tenção - as novas e picotadas fronteiras de um futuro Estado palestino. Um rela­tório recente, elaborado pelo consulado da Grã-Bretanha em Jerusalém Oriental (e que a União Européia rejeitou como "ex­cessivamente unilateral"), acusa Israel de já estar anexando terras árabes próximas à cidade milenar e afirma: "quando o muro estiver concluído, Israel irá controlar to­dos os acessos a Jerusalém Oriental, iso­lando-a das cidades satélites palestinas de Belém e Ramallah, assim como da Cisjor­dânia”.
As fontes da estratégia do Kadima en­contram-se na dinâmica demográfica na Palestina. O crescimento vegetativo mui­to mais elevado da população árabe cria­rá, em pouco tempo, uma maioria demográfica palestina no conjunto forma­do por Israel, pela Cisjordânia e pela Fai­xa de Gaza. Israel não tem alternativas se­não promover a fixação definitiva de fron­teiras entre o Estado judeu e um Estado palestino ou engajar-se na missão inviável de assegurar o poder da minoria judaica sobre a maioria árabe. É essa razão estra­tégia que uniu Sharon a Peres.
Com o Kadima e sua solução unilate­ral comandando Israel, e o Hamas, que não reconhece o Estado judeu, à frente da ANP, a paz parece perdida nas brumas de um futuro improvável. É como se duas muralhas, construídas com os tijolos da ideologia e do ódio, impedissem o diálo­go. Mas, no Oriente Médio, quase nada é o que parece. Em artigo recente, publica­do no diário israelense Haaretz, o analista, Aluf Benn observa uma semelhança mui­to interessante entre o Kadima e o Hamas. Os dois têm planos ideológicos de longo prazo: o Kadima almeja anexar de vez par­te da Cisjordânia, assim como Jerusalém Oriental; o Hamas pretende varrer Israel do mapa. Mas os dois demonstram sinais de pragmatismo que poderão conduzir a acordos transitórios que durem muito tempo, talvez até o amadurecimento de gerações menos rancorosas, dos dois lados.
Afinal, Sharon, o general linha-dura que defendia o Grande Israel, incluindo quase todos os territórios palestinos, ter­minou desocupando Gaza de forma uni­lateral. E o Hamas, apesar da retórica e dos homens-bomba, admite uma hudnah, uma trégua de longo prazo com o inimi­go. De acordo com a lógica própria do Oriente Médio, Kadima e o Hamas poderi­am dar o primeiro passo para que seus pla­nos finais (o Grande Israel ou os judeus atirados ao mar) evaporem silenciosamen­te ao longo dos anos, sob o sol do deserto.
Não por acaso, o analista Bradley Burston afirmava com bom humor, em recente artigo no jornal The Jerusalém Post: "Se você quer o Grande Israel, vote na esquerda”. Sim, porque foram os trabalhis­tas (e não a direita) os responsáveis pelo início da colonização judaica nos territó­rios palestinos ocupados na Guerra dos Seis Dias (1967). Quem planejou as pri­meiras 16 colônias foi Israel Galili, um socialista. Na mão oposta, um primeiro-ministro ultra­conservador, Menahem Begin, devolveu ao Egito a península do Sinai, ocupada por Israel em 1967. Sharon, outro direitista, deixou Gaza. E seu sucessor, o ex-ministro das Finanças, Ehud Olmert, quer sair já de partes da Cisjor­dânia. Começando por Hebron, onde, diz­ se, está enterrado um patriarca de judeus e muçulmanos: Abraão/Ibrahim, confor­me a preferência. E onde 400 colonos ju­deus de ultradireita vivem, protegidos por forças militares, entre 120 mil palestinos.
A sombra de Sharon poderia, portan­to, empurrar o Kadima a uma curiosa aproximação com o Hamas em uma situ­ação de "nem guerra nem paz", onde Israel e a Palestina se tolerem. Ou não - e nesse caso a violência explodiria com mais força do que nunca, em meio a um Oriente Médio desestabilizado pela Doutrina Bush e pelo avanço dos fundamentalistas.

Jornal Mundo – Março de 2006 (adaptado)

Quem foi Ariel Sharon?
Da indecisão ideológica ao personalismo político
Mesmo que se recupere, dificilmente a carreira política de Ariel Sharon sobreviverá ao segundo acidente vascular em menos de três semanas. Aos 77 anos, o Trator pode estar encerrando quase seis décadas de luta, armada ou política, em nome de Israel, como uma das figuras mais importantes e polêmicas da História do país.
Após participar, com crescente importância, em ações militares desde antes da criação de Israel e nas cinco guerras do país, Sharon entrou na política de forma tão controvertida.

Durante a década de 1950, recusou-se a seguir o Herut, partido nacionalista radical. Na juventude, tinha preferência pelo Mapai, partido sionista-socialista que em 1968 se uniria ao Partido Trabalhista.
Apesar de sua coragem nos campos de batalha, sua indisciplina e seu ideário político radical tornaram sua permanência no Exército insustentável. O conturbado momento de Israel e o fato de Sharon ser considerado por muitos na época um herói de guerra fizeram com que ele fosse figura fundamental na criação do Likud, então um bloco de direita unindo o Herut e os liberais, em 1973.
Ele foi eleito deputado em 1973, mas, dizendo estar cansado da vida política, renunciou um ano depois. Entre 1975 e 1976, foi assessor do premier trabalhista Yitzhak Rabin. Mas com a aproximação das eleições de 1977, tentou voltar ao Likud tirando Menachen Begin da liderança. Não foi aceito e tentou entrar no Partido Trabalhista e no centrista Dash, sendo recusado. Fundou, então, seu próprio partido, o Shlomtzion, e conquistou dois deputados. Depois da eleição, uniu-se ao vencedor Likud e assumiu o Ministério da Agricultura.
Em 1982, como ministro da Defesa, comandou a invasão do Líbano, segundo críticos fazendo isso sem revelar ao premier Begin a real extensão da movimentação militar. Foi acusado de ser responsável por tornar possível o massacre de palestinos por milicianos cristãos maronitas em Sabra e Chatila, vilarejos que estavam cercados por tropas de Israel.
Perdeu o cargo na Defesa, mas, entre 1983 e 1998, foi ministro de Comércio e Indústria, Habitação e Infra-Estrutura, tendo como prioridade a construção de assentamentos judeus.
Sharon só assumiria a liderança do Likud em 1999. Sua principal plataforma política era não negociar com os palestinos, com especial ódio ao líder da OLP Yasser Arafat.
Em 2000, Sharon visitou a Esplanada das Mesquitas, um dos locais mais sagrados para muçulmanos e judeus e evitado por políticos. O aumento da violência gerou um forte sentimento de insegurança que, segundo analistas, beneficiou Sharon que, aos 73 anos, foi eleito premier em 2001.
No poder, aproveitou o 11 de Setembro para angariar apoio na luta contra o terror palestino, aliando-se a Bush e alijando Arafat das negociações. Construiu a barreira entre Israel e Cisjordânia. Por outro lado, ordenou a retirada de colonos e militares da Faixa de Gaza. E, para se livrar da oposição do Likud, fundou outro partido, o Kadima.
O grande falcão tornara-se uma pomba? Ou tudo não passava de realpolitik de um estadista que chegou à conclusão que sua idéia de vencer militarmente os árabes não é suficiente diante da força do crescimento demográfico da maioria não judaica no território almejado por Israel? Com a saída do Trator da cena política, Israel nunca saberá.
O GLOBO, 06 de janeiro de 2006

Trabalho de História com resposta

COLÉGIO PEDRO II - UNIDADE SÃO CRISTÓVÃO III
3ª Cert. História - 2007 – 2ª Série do Ensino Médio
Prof. Albano Teixeira - Coord. Prof. Paulo Seabra


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TRABALHANDO COM TEXTOS: 2º REINADO

“Pelos caminhos de ferro que ligavam Vassouras ao Rio de Janeiro corriam vagões carregados. Era o café que se dirigia ao porto para ser vendido à Europa ou aos Estados Unidos.
O café foi, a partir de 1840, o principal produto de exportação brasileiro e o fator de recuperação da economia do país, que estava em crise desde a independência em virtude da decadência das principais lavouras de exportação.
O desenvolvimento da Revolução Industrial (...) gerou uma divisão internacional do trabalho com base no mercado mundial”.
(ALENCAR, Chico. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994, p. 163)
1 - Explique qual o papel do Brasil nessa divisão internacional do trabalho. Explique que mudanças para economia brasileira vieram com a produção do café em relação as suas relações internacionais. (0,25)

Os eixos da resposta seriam os seguintes: o Brasil se insere na divisão internacional do trabalho como uma área dependente de produtos industrializados e capitais e fornecedora de matérias primas e produtos agrícolas. O segundo eixo significa que a hegemonia do café reduziu relativamente a dependência brasileira em relação à Inglaterra.

“Entre 1850 e 1860, foram inauguradas no Brasil 70 fábricas que produziam chapéus, sabão, tecidos de algodão e cerveja, artigos que até então vinham do exterior. Essas primeiras fábricas já apresentavam um aspecto diferente das antigas oficinas artesanais: utilizavam motor hidráulico ou a vapor e o trabalho era organizado por mestres e contramestres vindos da Europa. Além disso, foram fundados 14 bancos, três caixas econômicas, 20 companhias de navegação a vapor, 23 companhias de seguro, oito estradas de ferro. Criaram-se, ainda, empresas de mineração, transporte urbano, gás etc.
O Rio de Janeiro era o espelho de toda essa organização. A cidade ganhou iluminação a gás e água encanada. Aos poucos as carruagens eram esquecidas, dando lugar, primeiro, aos bondes elétricos, recebidos com grande entusiasmo pelos moradores de Santa Teresa”.
(ALENCAR, Chico. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994, p. 179)
2 - Quais foram os fatores que contribuíram para esse surto de industrialização e quais foram os que atuaram para seu fim? (0,25)

Os eixos que explicam o desenvolvimento do período seriam os seguintes: a não renovação dos tratados de 1827 com a Inglaterra e a implantação das tarifas Alves Branco em 1844; o fim do tráfico negreiros através da Lei Eusébio de Queiróz, em 1850.
Os que explicam seu final: as pressões dos cafeicultores e dos comerciantes ingleses e a implantação das Tarifas Alves Ferraz.

“Uma sublevação de colonos aconteceu na fazenda de Ibicaba, em 1857, obrigando o governo brasileiro a tomar providências. Thomas Davatz, líder do movimento, quando retornou à Suíça, escreveu o livro ‘Memórias de um colono no Brasil’, em que descrevia minuciosamente as condições a que estavam submetidos os colonos no sistema de parceria. Sua obra teve grande repercussão sobre a opinião pública européia, e em 1859 o Governo da Prússia proibiu a emigração de alemães para o Brasil.”
(ALENCAR, Chico. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994, p. 177)
3 - Explique o que foi o sistema de parceria, por que originou tantos problemas e qual foi a solução encontrada: (0,25)

Os eixos seriam os seguintes: o sistema de parceria constituía-se do custeio do transporte e dos primeiros tempos dos imigrantes pelos fazendeiros, o cultivo por parte destes de café e gêneros alimentícios com obtenção de um terço dos lucros da colheita.
O que levou este sistema ao fracasso foram o mau tratamento aos imigrantes; a baixa remuneração e o crescente endividamentos destes com os respectivos fazendeiros.
O problema foi resolvido através da imigração subvencionada.

“Em 1862, Antônio Lopez foi sucedido no poder por seu filho, Francisco Solano Lopez. Foi na gestão deste jovem de 36 anos, ex-ministro plenipotenciário de seu país na Europa, que a economia paraguaia atingiu o ápice: foram instaladas linhas de telégrafo, estradas de ferro, fábricas de material de construção, tecidos, papel, tinta, louça e pólvora ( El Mariscal, como ficou conhecido em sua pátria, não se descuidava da produção bélica...). suprindo a ausência de burguesia, o Estado administrava 64 fazendas e cedia aos camponeses parcelas de terra, que não poderiam ser vendidas. Em 1860, as exportações paraguaias eqüivaliam ao dobro das importações. Graças às medidas de proteção à produção nacional, a balança comercial era sempre favorável. A moeda era forte e estável, no país não entravam empréstimos estrangeiros e quase não havia crianças analfabetas. Um quadro original na América Latina!”
(ALENCAR, Chico. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1994, p. 191)
4 - Descreva as diversas análises explicativas para Guerra do Paraguai. (0,25)

A expansão paraguaia prejudicava os interesses ingleses na região; Solano López teria enfatizado uma política expansionista; o Brasil queria garantir a livre navegação na região do Prata e o Brasil queria impedir o surgimento de um Estado poderoso na região.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

História - Liberalismo

Colégio Pedro II – EU SCIII – ano: 2006
Disciplina: História
Coordenador pedagógico: Paulo Seabra
Professor: Albano
Turma: 1201, 1203, 1205 e 2208
Aluno:
N.º:


TEXTO SOBRE LIBERALISMO E CRISES REVOLUCIONÁRIAS EUROPÉIAS NO SÉCULO XIX
As Idéias Liberais e Nacionalistas

“De fato, no campo material trava-se a luta pela implantação do liberalismo econômico que se caracteriza pela livre empresa, pela abstenção do estado, pela eliminação dos entraves e barreiras à livre circulação das mercadorias, proibindo-se, por outro lado, os sindicatos por constituírem interferência na liberdade de contrato entre patrões e empregados. Trata-se, em suma, de abolir todo e qualquer entrave ao desenvolvimento capitalista, daí o entusiasmo do empresário burguês por essa idéias liberais.
No plano político, o ideário do liberalismo coloca em lugar de destaque a garantia das liberdades fundamentais, consideradas como inerentes a pessoa humana e depois, como um meio de assegurar essa liberdade, configura-se a necessidade de uma constituição e da divisão de poderes, garantindo-se o direito de representação apenas aos setores considerados como “ativos”, isto é, proprietários, empresários e indivíduos de rendas mais elevadas.
Quase sempre o modelo entrevisto é o da monarquia constitucional, apoiada no sufrágio censitário, pois, na verdade, a república aparecia sempre, ao longo de quase todo o século XIX, como algo perigoso e ameaçador, dado o rompimento que representa com a tradição e o conservadorismo, além de trazer para muitos, mais ou menos implícita, a idéia de sufrágio universal (masculino), coisa inaceitável para as classes dominantes que temem a participação dos “cidadãos passivos” no processo político, por considerarem que são os mesmos um instrumento fácil de demagogia e de ameaça às posições conquistadas. República e sufrágio universal identificavam-se aos olhos da maioria burguesa e aristocrática com a “mentalidade jacobina”, cuja expressão máxima teria sido o “terror” e a tirania das assembléias populares destituídas de preparo político e de condições econômicas, sendo conduzidas apenas pelos seus sentimentos mais baixos e violentos. Isso colocaria em xeque dois outros princípios básicos da ideologia liberal: a propriedade e a segurança.
Para o liberalismo, é evidente que não se colocava o problema da igualdade em termos sociais e muito menos em termos econômicos. A igualdade e a própria liberdade são sempre subentendidas em termos estritamente políticos e jurídicos. Caberia ao socialismo, numa outra linha de pensamento, colocar na ordem do dia a chamada “questão social” em oposição à questão política que discute apenas as modalidades institucionais necessárias à prática do Liberalismo.
O nacionalismo pode ser considerado como uma “resultante da aplicação do princípio da liberdade individual às coletividades que são as nações.”[1] As nações, como os indivíduos, têm direito a ser livres e gozar de autodeterminação. Desse modo, as nações divididas em vários estados devem unificar-se, enquanto as que se encontram submetidas a um Estado devem libertar-se e constituir-se em unidades políticas autônomas.
O nacionalismo é um produto dos mais representativos da revolução burguesa, pois foi ao longo da crítica e da oposição aos regimes absolutistas que se configurou com nitidez a oposição crescente entre a “Nação” e o “Rei”, representando tal fato uma espécie de tomada de consciência coletiva dos direitos e reivindicações populares à liberdade e à igualdade, face ao autoritarismo e ao despotismo dos monarcas absolutistas. Na prática, quando se trata de precisar o conceito de “nação”, várias são as interpretações que se colocam.

Movimentos Revolucionários na Europa

A série de agitações e movimentos revolucionários que caracterizam a sociedade européia após 1815 está ligada à insatisfação burguesa ante o estatuto político e social fixado em 1815 pelas forças conservadoras, insatisfação esta que nada mais é do que a tradução, no plano social e ideológico, dos antagonismos suscitados pelo rápido desenvolvimento da produção capitalista industrial.
Poder-se-ia acrescentar ainda a tais determinantes a influência, acelerada ou não, dado o caso, das oscilações cíclicas, conforme e possível verificar-se facilmente através do exame das principais tendências da época a partir dos movimentos de preços e salários.
(...) De qualquer modo, preocupar-nos-emos aqui, apenas, com as grandes crises revolucionárias, que são principalmente as de 1819-1822, as de 1830-1833 e as de 1848-1850.
De 1815 a 1819 subsiste na Europa, especialmente na Alemanha, Itália e França, uma agitação revolucionária quase sempre latente, que se traduz por vezes em manifestações públicas e, principalmente, em atividades secretas revolucionárias.
Em 1819 têm início movimentos revolucionários na Alemanha, que no ano seguinte se propagam a Nápoles, Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Embora circunstâncias específicas sejam naturalmente típicas de cada um desses movimentos, o fato é que em todos eles predomina a luta pelos princípios liberais, provocando, em contrapartida, a pronta reação das forças conservadoras através dos diversos Congressos, que se reúnem nessa época. Apenas o caso da independência grega coloca em xeque a entente austro-russa, que se estabelece nessa ocasião para fazer face ao “perigo revolucionário”.
A repressão na Alemanha, a intervenção austríaca em Nápoles e a intervenção francesa na Espanha conseguem, até 1823, sufocar praticamente os diversos movimentos revolucionários desse período, com exceção, provisoriamente, de Portugal e Grécia, seguindo-se então uma época de dura repressão, principalmente na Espanha e na Itália.
Os movimentos revolucionários iniciados em 1830, a partir das jornadas de julho na França, assumem maior importância no caso da revolta dos belgas contra o domínio holandês e da revolta polonesa contra o domínio russo. Tais movimentos em parte vitoriosos repercutem na Itália e na Alemanha, embora limitados apenas a algumas regiões. As forças da reação conseguem restaurar a antiga ordem de coisas, com exceção da França e da Bélgica. Tem início um novo período de repressão que, salvo exceções, se prolonga até 1848.
As revoluções de 1848 assinalam o ponto culminante dos movimentos liberais e nacionais, produzindo-se então não só a revolução de fevereiro na França, como também grandes surtos revolucionários, de caráter ao mesmo tempo liberal e nacional, na Itália e na Alemanha, enquanto que no Império austríaco as diversas nacionalidades procuram adquirir autonomia ou independência, destacando-se a revolução húngara, esmagada pela intervenção russa.
O insucesso das revoluções românticas de 1848, chamadas também, como no caso alemão, da “revolução dos intelectuais” [2], cede lugar a uma era que se poderia denominar de época do “realismo e do nacionalismo”[3], caracterizada pela progressiva execução das políticas de unificação da Itália e da Alemanha, empreendidas por governos predominantemente conservadores. Nesse período, os ideais liberais entram parcialmente em recesso, enquanto que a exaltação nacionalista ganha novo impulso.
Encerrando este período, pode-se colocar o episódio revolucionário constituído pela Comuna de Paris como uma espécie de marco divisório a assinalar o fim das revoluções burguesas e o início das revoluções predominantemente proletárias que irão caracterizar épocas posteriores. Essa transição já é observável na própria França durante os acontecimentos de 1848, bastando para isso compararmos as jornadas de fevereiro, predominantemente burguesas, às jornadas de junho, basicamente proletárias.”( extraído de FALCON, Francisco & MOURA, Gerson. A formação do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro, Campus, 1989)
[1] RENOUVIN, P. Histoire des rélations internationales. Le XIXe siècle, lère partie. Paris, Hachette, 1954. DUROSELLE, J. B. Introduction à l’histoire des rélations internartionales. Paris, ª Colin, 1964.
[2] NAMIER, L. 1848: the revolution of the intellectuals. Londres, Cumberlege, 1944.
[3] BINKLEY, R. Realism and nationalism. Nova Iorque, Harper, s/d.

Geografia - Afica textos

ÁFRICA
INTRODUÇÃO

Na maior parte da África, metade da população adulta jamais freqüentou a escola ou abandonou os estudos antes de completada a alfabetização básica. Em todo o continente, com variações regionais, os indicadores vitais e sociais atestam a extensão assustadora da pobreza.
Mas a pobreza africana não é um fenômeno de raízes puramente econômicas: é, antes de tudo, um fruto da falência política dos Estados. O controle autoritário do poder por elites étnicas, que usam os Estados exclusivamente para promover o aumento da própria riqueza e influência, é o pano de fundo da tragédia social na África.
Essa tragédia social africana tem uma história, que a entrelaça ao tráfico de escravos e ao imperialismo europeu. Também tem uma geografia, que a liga às fronteiras políticas coloniais e à exploração dos recursos minerais e energéticos.








O continente africano abriga duas sub-regiões claramente delimitadas: a África Setentrional (África Branca) e a Subsaariana (África Negra). O limite natural entre ambas é o deserto do Saara.
Os seis países da África Setentrional têm características físicas e humanas semelhan­tes às das nações do Oriente Médio. Seu clima é desértico e a região, majoritariamente ocu­pada desde o século VII, por povos árabes, que difundiram o islamismo a língua e a cultura árabes.
A porção mais ocidental dessa sub-região, conhecida pelo nome de Magreb (que sig­nifica "poente", em árabe), compreende o Marrocos, a Argélia e a Tunísia. Os outros três países são Líbia, Egito e Djibuti.
A África Subsaariana bem mais extensa. reúne a maioria da população, predominantemen­te negra. Essa região concentra alguns dos principais problemas econômicos e sociais do planeta somados a guerras civis que opõem diversos grupos étnicos e ciclos de golpes e contragolpes de Estado.
Índices altíssimos de desnutrição são regis­trados na República Democrática do Congo (73%), na Somália (71 %) e no Burundi (69%). Nessa região também vivem cerca de 70% dos portadores do vírus HIV no mundo em 2002. No ranking do índice de Desenvolvimento Humano (IDH), calculado pela Organização das Nações Unidas (ONU), os países subsaa­rianos ocupam 32 das 35 piores posições.

1 – Região do Magreb

2 – Deserto do Saara

3 – Região do Sahel

, mas também problemas decorrentes de sua dependência, econômica e financeira, herança do colonialismo e da atual ordem econômica mundial ditada pelos paises desenvolvidos.

A SITUAÇÃO ATUAL E O DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO AFRICANO

‘Quando os colonizadores aqui chegaram,
eles tinham a Bíblia e nós, a terra;
quando partiram, nós ficamos com a Bíblia
e eles, com a terra.’
Na América Latina e na Ásia, eles tornaram-se exceções. Na África Subsaariana, são a regra – os países cujas economias dependem das exportações primárias. Nesses países, o setor exportador concentra-se num grupo pequeno de gêneros tropicais (cacau, café, banana, amendoim) ou minérios (cobre, cobalto, bauxita, urânio, ouro, diamantes). Alguns deles dependem basicamente das exportações de petróleo.
A origem das suas estruturas econômicas encontra-se na divisão internacional do trabalho configurada no século XIX, que se destinava a atender às necessidades de matérias-primas e gêneros tropicais dos mercados consumidores dos países industriais. A condição de fornecedores de produtos primários retira desses países o controle sobre o destino, na medida em que os preços dos seus produtos de exportação subordinam-se à demanda nos países desenvolvidos. As oscilações bruscas nos preços internacionais das suas exportações degeneram em saldos negativos na balança comercial, que aprofundam o endividamento externo e ampliam a pobreza.
Na geografia econômica africana, os fornecedores de gêneros tropicais concentram-se, principalmente, no Golfo da Guiné e na África Ocidental. Mais de 40% da produção mundial de cacau localiza-se na Costa do Marfim e em Gana. O Senegal especializou-se no amendoim; Gâmbia e Benin, no óleo de palma; Togo, no algodão; Guiné-Bissau, na castanha de cajú.
A África Austral distingue-se pela importância das exportações minerais. A África do Sul, única economia industrial da África Subsaariana, é o maior produtor mundial de cromo, ouro e platina. O Zimbábue destaca-se na produção de cromo e platina; Zâmbia, na de cobalto e cobre, Botsuana, na de diamantes industriais; Namíbia, na de urânio. Já na África Equatorial, a República Democrática do Congo é fornecedora de diamantes industriais e cobre. A Guiné, na África Ocidental, é o 2º produtor mundial de bauxita. O Níger, no Sahel, é o 3º maior produtor de urânio.
O petróleo sustenta diversas economias exportadoras africanas. A Nigéria, no golfo da Guiné, é o maior produtor do continente, sendo membro da OPEP. Ao sul desse país, na África Equatorial, diversos países especializaram-se no fornecimento de petróleo, que também é o fundamento do setor exportador de Angola, na África Austral.
As exportações representam quase a metade do PIB de Angola e do Gabão, mais de um terço da riqueza nacional da Libéria e Guiné Equatorial, um quarto em Botsuana e quase um quinto na Costa do Marfim e na Namíbia. Na Nigéria, com seus 125 milhões de habitantes, um sexto do PIB depende das exportações, o que é um indicador da pobreza da população e limites impostos por essa situação ao desenvolvimento do mercado interno.
Na África Subsaariana como um todo, o crescimento demográfico explosivo não foi acompanhado por expansão proporcional da produção de alimentos. A produção agrícola per capita é, atualmente, inferior à registrada em 1970. A conseqüência consiste no aumento da dependência das importações de alimentos. Entre as economias baseadas nas exportações primárias, algumas têm que importar um terço ou mais dos alimentos que consomem: Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau e República Democrática do Congo.
Mas os preços internacionais das matérias-primas e gêneros tropicais vêm se reduzindo, década após década, de modo que a renda obtida com as exportações não acompanha as necessidades crescentes de importação de alimentos.
A pobreza está disseminada por toda a África. Mas os extremos de miséria – que se manifestão, periodicamente, em devastadoras crises de fome – concentram-se no Sahel (Mali, Chade, Níger e Burkina-Fasso), no Chifre da África (Etiópia, Somália e Eritréia) e na África Oriental (Burundi, Ruanda e Tanzânia). O grupo de países nos quais o PIB per capita é inferior a mil dólares abrange ainda Serra Leoa, República Democrática do Congo, Nigéria, Moçambique, Malaui, Zâmbia e Madagascar. Com poucas exceções, são países nos quais o setor exportador é quase insignificante, representando menos de 5% do PIB.
Uma das características mais importantes desses países é o fraco grau de integração entre as suas economias e os fluxos internacionais de mercadorias. As antigas estruturas produtivas, baseadas na subsistência e nas trocas em mercados puramente locais, não foram profundamente transformadas pela modernização. Mas elas sofreram o impacto da aceleração do crescimento demográfico e revelaram-se incapazes de sustentar populações muitas vezes maiores que as existentes na primeira metade do século. Quando desastres naturais – como secas prolongadas ou inundações – combinam-se com a violência política interna, o frágil equilíbrio da miséria é rompido.

A partilha do continente africano entre as potencias européias foi oficializada na Conferencia de Berlim (1884-85) e destruiu por completo as estruturas sociais e econômicas das antigas comunidades africanas. Os europeus transformaram a África numa fonte de matérias-primas e, para tal, dividiram seu território segundo os interesses dos colonizadores, delimitando novas fronteiras, deslocando tribos, comunidades de suas atividades tradicionais, para as que mais lhes interessavam, como a agricultura exportadora – em forma de plantation – ou o trabalho das minas.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Europa estava enfraquecida política e economicamente, o que favoreceu a proliferação de rebeliões nas colônias africanas. Levado a efeito, sobretudo na década de 60, quando se emancipou a maioria dos paises africanos, o processo de independência, entretanto, não trouxe paz ao continente, pois os novos paises foram formados nas mesmas bases territoriais instituídas pelos colonizadores, muitas vezes, sem nenhuma unidade nacional ou étnica (“As fronteiras artificiais”).

As imagens terríveis dessas catástrofes humanas, difundidas pela mídia, foram associadas à África como um todo. Mas, efetivamente, as catástrofes da fome atingem o grupo de países miseráveis, isolados da economia mundial, cujos aparelhos de Estado não passam de frágeis instrumentos do poder de uma diminuta elite étnica. A continuidade dos conflitos armados, o avanço de epidemias e o agravamento da miséria marcam a história recente da África e contribuem para o isolamento econômico do continente.

A economia contemporânea depende da existência de instituições políticas que controlam a aplicação das leis, fazem valer os contratos e criam, assim, a confiança necessária para os investimentos produtivos e a expansão do comércio. Depende também da existência de infra-estruturas energéticas, redes de transporte e comunicações, além das garantias mínimas para a circulação, em segurança, de mercadorias e pessoas. Tudo isso requer Estados nacionais modernos, capazes de administrar o território através de uma burocracia razoavelmente eficiente e de forças militares e policiais organizadas e subordinadas às instituições políticas.
A fraqueza dos Estados é a outra característica que define o grupo de países miseráveis da África Subsaariana. Em muitos deles, o poder central resume-se a uma elite étnica que utiliza o aparelho de Estado como fonte de extração de renda para seus círculos clânicos. O governo não é capaz de tributar o conjunto da sociedade e, em certos casos, sequer controla de fato vastas regiões do território. Conflitos entre clãs geram insegurança e instabilidade permanentes, impedindo a unificação do mercado interno.


A rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética transformou a África num estranho e confuso “campo de batalha”. As tradicionais rivalidades entre as tribos foram exploradas pelas superpotências, a fim de conquistarem espaços políticos nesse continente. Em qualquer país africano onde se constatava a ocorrência de divergências, lá estavam as duas superpotências financiando uma das partes, fornecendo armamentos modernos e apoio tático para levá-las ao poder. Os aliados que chegavam ao poder recebiam ajuda de toda ordem da potência aliada, inclusive financeira, o que de alguma forma servia para atenuar o quadro de miserabilidade em que vivia a maior parte dos habitantes desses paises.

A miséria africana não pode ser resolvida na esfera da economia. No passado, logo depois das independências, as experiências econômicas dos regimes autoritários do chamado “socialismo africano” fracassaram em promover a modernização e o desenvolvimento. Na década de 90, após o fim da Guerra Fria, o “liberalismo africano” suscitou novas esperanças, que já se dissiparam em ciclos de guerras clãnicas e étnicas. Nem um nem o outro experimentaram erguer verdadeiros Estados nacionais, alicerçados em instituições políticas legitimas e democráticas.

Observe, no mapa, a rede africana de transporte. Veja que o traçado das principais ferrovias não foi projetado para unir os países ou as regiões de um mesmo país. Ele foi pensado para unir as economias africanas no mercado internacional. Por isso, as ferrovias dirigem-se aos portos de exportação. O sistema de transporte reflete, portanto, uma economia dependente e voltada para o exterior.


TEXTO COMPLEMENTAR

A TRAGÉDIA DA AIDS

Em dezembro de 2002, cerca de 42 milhões de pessoas no mundo eram portadoras do vírus do HIV, incluindo-se aí mais de 3 milhões de crianças meno­res de 15 anos. A esmagadora maioria dessas pes­soas, quase 30 milhões, vivia na África subsaariana. A epidemia avançava a passos largos na região: em um único ano, foram registrados 3,5 milhões de no­vos casos, e 2,4 milhões de pessoas morreram em conseqüência da doença.
Essa é uma epidemia especial. Ao contrário da maioria das doen­ças infecciosas, que atingem princi­palmente crianças e idosos, a AIDS afeta mais vastamente os jovens adul­tos. Do ponto de vista demográfico, seus efeitos assemelham-se aos de guerras. Com a importante diferen­ça que, ao contrário da guerra, a AIDS não discrimina sexo, matando ho­mens e mulheres em igual proporção. Em Botsuana, país mais afetado, mais de um terço dos adultos estão infec­tados, e uma criança nascida hoje tem esperança de viver apenas 36 anos - cerca de metade do que viveria se a doença não existisse. O declínio da expectativa de vida é também dramá­tico no Zimbábue, na África do Sul e no Quênia.
A difusão descontrolada da doen­ça na África funciona como uma bom­ba social: destrói os núcleos familiares, que desempenham funções vitais na reprodução das sociedades - em par­ticular, entre os pobres e no meio ru­ral. Estima-se que 10% das crianças africanas sejam "órfãos da AIDS", isto é, já perderam pelo menos um dos pais, vítima da doença. Sob os efeitos da AIDS, o futuro próximo assistirá à emergência de "países de adolescentes órfãos", Uma es­trutura etária desse tipo significa­rá a virtual dissolução das institui­ções políticas e sociais e abrirá ca­minho para a disseminação, em es­cala sem precedentes, de conflitos etno-tribais.
Alguns países africanos, contu­do, estão conseguindo controlar a epidemia: no Senegal, que lançou vi­
goroso programa anti-aids em 1986, a taxa de infecção é inferior a 2%. Em Uganda, que somente começou a agir no início da década de 1990, a proporção de adultos com o vírus já caiu de 14% para 8%. São países muito mais pobres do que a África do Sul, onde a taxa de infecção é de 20% da população adulta, e mais pobres que Zimbá­bue e Namíbia, nos quais a taxa de infecção está em torno de 25%. Mas os Estados acordaram para a aids.
No Senegal e em Uganda, os governos distribu­em preservativos. Mas isso é pouco em sociedades pa­triarcais, onde as mulheres não têm voz. Oferecendo melhor educação para as jovens do sexo feminino, os dois países as colocaram em condições de exigir que seus parceiros usem os preservativos. Entre 1995 e 2000, o uso de preservativos dobrou, em grande parte devido à pressão das mulheres jovens.
As mulheres são uma chave crucial para a vitória da guerra contra a AIDS. Das crianças pequenas infecta­das, cerca de um terço contraíram o vírus na amamen­tação. Substituir o leite materno por leite em pó custa caro, mas a ajuda internacional pode contribuir para resolver o problema. Contudo, na África, a mistura de leite em pó com água é, em geral, mais letal que o HIV. A água contaminada provoca diarréia, que é a maior causa de mortalidade infantil. No Senegal e em Uganda, o investimento em saneamento básico foi crucial para o controle da epidemia.
No passado recente, o preconceito interpretou a AIDS como epidemia de homossexuais e viciados em drogas. Hoje, um racismo disfarçado classifica como moléstia de negros africanos. Entretanto, a evolução do número de casos de AIDS na região mos­tra que se trata fundamentalmente de uma epidemia de sociedades miseráveis em países onde o Estado não funciona. A falência das estruturas estatais abriu o caminho para a AIDS. Se não forem tomadas provi­dências urgentes, o alastramento da doença amea­ça bloquear qualquer tentativa de reconstrução des­sas estruturas.
Magnoli, Demétrio e Araújo, Regina. Projeto de Ensino de Geografia Geral. Ed. Moderna -2004

Geografia - China Textos

CHINA, A POTÊNCIA DO SÉCULO XXI?

a) Considerações gerais
A China é hoje um país com dois sistemas econômicos amalgamados por um único sistema político, a ditadura de partido único. Os próprios dirigentes chineses definem seu país como uma economia “socialista de mercado”. O significa isso? A economia da China foi a que mais cresceu no mundo ao longo dos anos 80 e 90, enquanto a União Soviética, seu modelo inicial, desapareceu. O país já é a sétima economia do planeta (alguns, dependendo dos critérios, já colocam o país como a segunda economia mundial); cada vez mais o mercado mundial é invadido por produtos “made in china”. O custo social e político tem sido muito grande, as desigualdades sociais e regionais avançam e a repressão político-cultural é uma vergonha para o país.

b) Uma rápida passagem pela história da China
A China da dinastia Ming, no final da Idade Média, era o mais poderoso império do mundo. A sua população, de 12 milhões de pessoas, superava em muito a de toda a Europa. A eficiência e sofisticação do aparelho administrativo e da legislação do império não tinham paralelo no mundo. A China dominava as técnicas da imprensa, forjava o ferro em grandes quantidades e abrigava cidades bem maiores que as européi­as. Os chineses inventaram a pólvora e a bússola magnética. Os Ming chamavam os seus domínios de "Império do Centro", revelando o desprezo que devotavam aos povos "bárbaros" de fora da China.
A marinha Ming contava com mais de mil navios de combate e 250 embarcações de longo curso. No século XIV, o comércio oce­ânico chinês estendia-se pelo Oceano Índico, através dos portos de Malaca (estreito marítimo entre a Península da Malásia e a Ilha de Sumatra, no sudeste asiático) e do Ceilão (ilha do Oceano Índico localizada no sul da Índia), até o mar Vermelho. Nessa época, a China dis­punha de condições econômicas e técnicas para liderar a "desco­berta do mundo". Mas lhe faltava um elemento crucial: o espírito de empreendimento privado. Três anos depois de em 1433 uma grande expedição marítima chinesa visitou Zanzibar (ilha nas proximidades da atual Tanzânia, no oriente africano) e retomou com girafas africanas, uma ordem imperial proibiu a construção de navios de alto-mar. Com essa deci­são, a burocracia Ming cortou pela raiz o desenvolvimento da classe de comerciantes e solidificou o seu poder sobre a civilização chinesa. Assim, a China cedeu à Europa a expansão comercial e colo­nial, deflagrada pelas Grandes Navegações.
No século XIX, a Europa industrial consolidava a sua hegemonia mundial. As potências européias (Grã-Bretanha, França, Rússia e Alemanha) e, depois, o Japão retalhavam o litoral chinês em "portos livres" e enclaves comerciais. Os direitos das potências estrangeiras asseguravam o seu controle sobre o comércio com a China e eram garantidos pelos "tratados iníquos” (tratados injustos, assinados pela enfraquecida e desmoralizada dinastia chinesa em 1842 e 1860). Nos primeiros anos do século XX, o poder im­perial entrou em colapso. Em 1912, o movimento revolucionário e nacionalista dirigido por Sun Yat­sen proclamava a república.
A república não foi capaz de estabilizar o país ou afastar as potências estrangeiras. Os republicanos logo dividiram-se em duas facções rivais - os naci­onalistas, liderados por Chiang Kai-shek, e os comu­nistas, liderados por Mao Tsé-tung. A Revolução Chinesa foi o demorado conflito dos comunistas contra o regime nacionalista de Chiang Kai-shek. Esse conflito prolongou-se pelas décadas de 1930 e 1940, entrelaçando-se com o combate à inva­são japonesa. Durante a Segunda Guerra Mundial, na­cionalistas e comunistas uniram-se na luta contra o Japão. Depois da rendição do invasor, em 1945, volta­ram a se enfrentar. Em outubro de 1949, as forças vitoriosas de Mao Tsé-tung tomaram Pequim e pro­clamaram a República Popular da China.

c ) A China pós-revolução comunista de 1949
A China Popular estruturou-se sob um sistema de poder tota­litário. O Partido Comunista Chinês (PCC) entrelaçou-se ao Es­tado, controlando todos os níveis de poder. A burocracia comu­nista substituiu a antiga burocracia imperial. A propriedade priva­da dos meios de produção deu lugar à propriedade estatal. A in­dústria e a agricultura foram submetidas à planificação central. O modelo econômico, nas suas características essenciais, imitava a União Soviética.
Contudo, o modelo chinês distinguiu-se do soviético pela cria­ção das comunas populares*. A implantação das comunas iniciou-se em 1958, através da política oficial do Grande Salto Adiante. Essa política destinava-se a promover a industrialização acelerada do meio rural, pela difusão de pequenas fábricas nas vilas e povoados.

* As Comunas populares eram grandes unidades de produção rural, abrangendo a agricultura e pequenas indústrias. Cada comuna estruturava-se de forma coletiva e centralizada. Os lotes agrícolas familiares, distribuídos na reforma agrária de 1950, foram eliminados, e toda a terra, colocada sob controle das comunas. As comunas organizavam também a vida social e a educação das crianças. A implantação desse sistema teve forte impacto sobre a vida familiar, diminuindo a força tradicional da autoridade paterna.

O chamado “Grande Salto Adiante” desviou os recursos na­cionais da agricultura para a indústria. A coletivi­zação radical desorganizou a produção agrícola. A quantidade de grãos disponíveis por pessoa no cam­po retrocedeu de 205 quilos, em 1957, para apenas 154 quilos, em 1961. Entre 1959 e 1962, uma crise pavorosa de fome ceifou cerca de 20 milhões de vidas, numa das maiores catástrofes humanas do século XX.
Na primeira década da revolução, a China com­portou-se como fiel aliada da União Soviética. Con­tudo, em 1960, os planos chineses de construção de armas nucleares abalaram as relações com os sovié­ticos, que temiam o crescimento do poder e da in­fluência da China. Nos anos seguintes, a aliança ruiu sob pesadas acusações mútuas. A ruptura entre as duas potências comunistas preparou o caminho para a aproximação da China aos Estados Unidos.
Mao Tsé-tung governou a China como um "impe­rador vermelho" desde a revolução até a sua morte, em 1976. Nos últimos anos de governo, empreendeu o grande giro geopolítico na direção dos Estados Unidos, recebendo em Pequim o presidente norte-americano Richard Nixon (numa tentativa norte-americana de enfraquecer a antiga União Soviética, era o período da Guerra Fria). Após a morte de Mao, as facções moderadas e radicais do PCC envolveram-se numa luta pelo poder, que se concluiu em 1978, com a ascensão à liderança de Deng Xiao-ping, o chefe da facção moderada. O novo líder acreditava que a China precisava de reformas econômicas profundas. O seu “Programa das Qua­tro Modernizações” (na indústria, na agricultura, na defesa e na ciência e tecnologia) pretendia transformar o país numa po­tência econômica.
Deng Xiao-ping lançou um lema célebre: "Não importa a cor do gato. O que importa é que ele cace os ratos". Isso significava que o novo líder não dava muito valor às idéias coletivistas e igualitárias. Valorizava a eficiência econômica e a produção de riquezas.
As comunas populares foram dissolvidas, e os camponeses, esti­mulados a vender seus produtos no mercado livre e a realizar lu­cros. Criaram-se as Zonas Econômicas Especiais, geralmente em cidades portuárias do sudeste e leste (já ocorreu uma maior interiorização, com alguns poucos exemplos), nas quais os investimentos estrangeiros passavam a ser aceitos e estimulados pelo Estado (incentivos fiscais, facilidades para exportar, ampliação da infra-estrutura, etc.).


A "economia socialista de mercado", rótulo cunhado para iden­tificar o sistema misto gerado pelas reformas, aprofundou-se após a morte de Deng Xiao-ping e a ascensão de seu sucessor, Jiang Ze­min, em 1997. A modernização econômica gerou profundas desi­gualdades sociais, expressas no abismo de renda que separa as cida­des do meio rural e a classe média, dos camponeses. Ao mesmo tempo, resultou na expansão acelerada dos investimentos estran­geiros e do comércio exterior.
A China tornou-se o quarto exportador mundial, atrás ape­nas dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão. O seu PIB ex­perimentou, nas duas últimas décadas, as maiores taxas de ex­pansão do mundo. Atualmente, o PIB chinês é o segundo maior do mundo, embora o PIB per capita seja ainda bastante inferior ao brasileiro.




d) O espaço econômico chinês

A China Ocidental é o domínio das altas cordilheiras montanho­sas e dos desertos. A China Oriental, das férteis planícies tempera­das e subtropicais, drenadas por grandes rios com amplos espaços destinados à produção agropecuária. Na China Ocidental as densidades demográficas são baixas ou médias, e elevadas na China Oriental.
As grandes cidades chinesas localizam-se nos vales fluviais e nas planícies costeiras da China Oriental, sendo que em muitas dessas grandes cidades estão instaladas as chamadas Zonas Econômicas Especiais (ZEEs). A China Oriental é, portanto, a porção do espaço chinês onde as reformas de orientação capitalista são mais nitidamente notadas. Mesmo fora das ZEEs, nas áreas que compõem o cinturão agrícola, as modernidades associadas à disseminação das práticas capitalistas são muito presentes.

De qualquer forma, é nas ZEEs que as reformas capitalistas chinesas se fazem notar de maneira mais marcante. Nelas a plena adoção das leis de mercado, os pesados investimentos de capital em modernização da infra-estrutura e as vantagens tributárias oferecidas pelo Estado Chinês sustentam a atração dos capitais transnacionais, conferindo a elas a condição de principais elos de ligação da economia chinesa à economia-mundo. As atividades econômicas realizadas nas ZEEs sustentam o crescimento econômico do país a taxas médias de 10% ao ano, desde o início dos anos 1980.

d) O novo gigante do mercado mundial e seus principais desafios.
A rapidez do crescimento econômico da China impressiona. Nos últimos 25 anos, depois da abertura econômica, 400 milhões de chineses passaram para o lado bom da linha de pobreza e se tornaram consumidores de produtos modernos. No mesmo período, o PIB da China aumentou 5 vezes e as exportações saltaram de 20 bilhões para mais de 300 bilhões de dólares em 2002. E a tendência é crescer mais. Só nos primeiros noves meses de 2003, o país já registrou um aumento de 32,3% nas exportações e a economia acumulou um crescimento de 9% - um percentual invejável para qualquer nação do mundo.
O país mais populoso do planeta também é o campeão no recebimento de investimentos externos. Em 2003, conseguiu atrair 52,7 bilhões de dólares e desbancou os Estados Unidos no ranking mundial de países que mais receberam investimentos diretos do exterior. Um dos setores mais prestigiados é o automobilístico. Em outubro, a Ford americana anunciou um reforço de 1 bilhão de dólares em seus investimentos no país para os próximos anos.
A China começou a se preparar para a abertura econômica em 1978, quando o então líder Deng Xiaoping trocou os dogmas de Karl Marx pelos de Adam Smith e deu uma guinada que incluiu a abertura de zonas comerciais nas províncias costeiras, aumento de investimentos estrangeiros e liberalização do comércio e do mercado agrícola, tendo como ingredientes fartos subsídios, mão-de-obra barata e repressão brutal à oposição. Foi quando sob o bordão “Enriquecer é glorioso”, o então país de Mao começou a experimentar os desafios e prazeres da livre iniciativa na economia.
O princípio básico do comunismo, a propriedade estatal, começou a cair por terra em 1997, quando o Congresso chinês anunciou um gigantesco programa de privatização. Dois anos depois, os chineses comemoraram cinqüenta anos de comunismo ao mesmo tempo em que realizava uma manobra histórica: depois de treze anos de negociações, fecharam um acordo para a esperada abertura de sua economia à globalização. Foi quando em menos de uma década o país se tornou a sétima economia do mundo com perspectiva de vir a ser a segunda em breve.
Em 2001, a China oficializou sua entrada no mundo globalizado ao ingressar de forma definitiva na Organização Mundial do Comércio (OMC). Com um fabuloso mercado potencial de mais de 1 bilhão de consumidores, o gigante oriental representava um dos mais tentadores e difíceis mercados internacionais, mas enfim abria as suas portas para o mundo. Com a economia globalizada, a China precisa atualmente criar 80 milhões de empregos e, ao mesmo tempo, assimilar o golpe que deverá arrasar setores inteiros defasados em relação à concorrência externa, como a indústria automobilística. Já as indústrias têxtil, de calçados e de brinquedos, que já nadam de braçadas, deverão aumentar as exportações em 200%.
A mão-de-obra barata é o grande chamariz para a entrada de capital externo. Na maioria das regiões da China, o salário, por exemplo, na linha de montagem é de menos de 2 reais por hora. Um operário brasileiro ganha quatro vezes mais. Um mexicano, seis vezes. Um americano não pega no batente por menos de um salário vinte vezes maior. Nessas condições, montar bases para exportar é um ótimo negócio. A China já responde por metade da produção mundial de máquinas fotográficas. Três em cada dez aparelhos de ar condicionado e de TV produzidos são feitos lá. Mais de 25% das máquinas de lavar e 20% das geladeiras no mundo levam o selo "Made in China."
Apesar do acelerado crescimento econômico, o maior desafio dos chineses é a desigualdade social. Dois terços dos chineses vivem em áreas rurais muito pobres e a renda per capita é compatível com as piores do terceiro mundo. Nos centros urbanos da China, o salário varia de 30 a 80 dólares mensais e a renda per capita é de 760 dólares anuais. No campo, onde vivem 900 milhões de chineses, ganha-se menos de 250 dólares por ano. Outro sério problema associado ao acelerado crescimento econômico diz respeito aos custos ambientais. Em poucos anos o país tornou-se o segundo maior emissor de gases causadores do efeito estufa do mundo, perdendo apenas para os EUA. Das 20 cidades mais poluídas do planeta, 16 são chinesas, segundo o Banco Mundial, e 70% da água dos cinco maiores sistemas de rios do país encontram-se poluídos.
As reformas econômicas não tiveram contrapartida política, o que se configura num sério problema de ordem social. A ditadura de partido único sofreu a contestação de um amplo movi­mento estudantil e popular, em 1989. Em Pequim e diversas outras cidades, os manifestantes exigiram, nas ruas, uma abertura demo­crática. Contudo, o movimento foi violentamente reprimido e sufo­cado após o massacre da Praça da Paz Celestial.

Isso ninguém pode esquecer!

O MASSACRE DA PRAÇA DA PAZ EM PEQUIM – 1989
Estudantes chineses organizaram em Pequim, durante a primavera de 1989, uma grande manifestação de protesto exigindo reformas democráticas. A diminuição das medidas repressoras permitiu este movimento que buscava uma transição rápida da China para a democracia. Entretanto, quando os estudantes estavam reunidos, na praça de Tiananmen, o governo ordenou uma enérgica repressão e centenas de manifestantes foram assassinados. Na foto abaixo um homem tenta impedir o avanço de tanques durante os protestos da Praça da Paz Celestial, em Pequim, 1989.


















Cidadãos chineses também não são bem tratados por autoridades chinesas. Estão sujeitos a prisões arbitrárias e a punições brutais. É o país onde há mais execuções: 1.060 no ano passado, segundo estatísticas oficiais, pouco confiáveis. Esta semana, a Anistia internacional divulgou relatório que responsabiliza a China por 80% das execuções no mundo, além de sistemáticas violações dos direitos humanos. Veja a hipocrisia. O governo de Pequim oculta números da Aids, dificultando o combate à doença, como aconteceu com a pneumonia asiática. Já um humilde agricultor foi condenado à morte por, sem querer, ter transmitido essa doença para 40 pessoas.


A questão demográfica se constitui num outro sério desafio enfrentado pelo país. A China é a maior potência demográfica do planeta, com mais de 1,3 bilhão de habitantes. A maior parte da população habita o meio rural. Mesmo assim, a população urbana - perto de 35% do total - soma mais de 400 milhões de pessoas. Na China oriental encontram-se três imensas metrópoles. Xangai tem mais de 15 mi­lhões de habitantes. Pequim (12 milhões) e Ti­anjin (10 milhões) configuram, juntas, uma enor­me megalópole.

Chinês põe bebês à venda em site na internet
Que tal comprar um bebê chinês sem problemas de saúde, com entrega a domicílio em Xangai, venda por cartão pela internet e por apenas 28 mil yuans (R$ 7.800), meninos, ou 13 mil yuans (R$ 3.600), meninas? Pois a China foi surpreendida ontem pela revelação de que uma pessoa com o apelido de “Chuangxinzhe Yongyuan” (algo como “inovador perene”) estava vendendo bebês de Xangai desde o dia 16, no site de leilões e-Bay em sua versão chinesa, conhecida como Eachnet. A polícia procura Chuangxinzhe Yongyuan, em mais uma tentativa de coibir uma das práticas mais freqüentes no país da política do filho único: o tráfico de bebês, a maioria meninas rejeitadas pelos pais — delito que, no país, pode resultar em pena de morte.
( ...) No entanto, na maior parte das vezes, e fora das estatísticas da polícia, a venda dos bebês é feita pelos próprios pais, especialmente os que moram nas áreas rurais. Como a legislação chinesa impõe pesadas multas a pais que têm o segundo filho, a venda é o caminho mais prático para os que querem um menino, em vez de uma menina, como filho natural. Explique-se: o sistema previdenciário chinês não garante o sustento de todos os idosos e a imensa maioria dos chineses, para garantir a sobrevivência na velhice, conta com a ajuda dos filhos. No campo — devido à necessidade de ajuda braçal na agricultura — as meninas não são consideradas “uma boa aposentadoria”.
O Globo, 21.10.2005



A questão do controle da natalidade e a mulher chinesa
Em razão dos abortos de meninas e dos assassinatos, o número de bebês do sexo feminino registrados na China é muito inferior ao de crianças do sexo masculino.
Há no país uma falta crônica de mulheres adultas. Na pior tradição oriental, o problema tem sido contornado com o aumento de outro crime: o seqüestro de moças que se submeterão a casamentos forçados. Já se verificaram casos de mulheres que se casam com um homem e acabam servindo sexualmente a todos os irmãos dele. As mulheres recebem 70% do salário do homem.


e) A China e os chineses na Ásia
A unidade política e territorial da China é a maior meta de política externa do regime de Pequim. Os enclaves coloniais eu­ropeus de Hong Kong e Macau retornaram à soberania chinesa, mas a unidade ainda não foi alcançada, pois falta a reincorpora­ção de Taiwan. Taiwan foi o refúgio do regime nacionalista derrubado em 1949 pelos comunistas. Durante a Guerra Fria, a província rebelde rece­beu a proteção dos Estados Unidos. Na ilha, os nacionalistas im­plantaram um sistema econômico capitalista e recusaram-se a re­conhecer o regime comunista de Pequim. Desde 1979, os Estados Unidos reconhecem o regime de Pequim, mas mantêm a ajuda mi­litar a Taiwan.
A China e Taiwan concordam sobre a existência de "uma única China". Mas isso não é suficiente para fazer avançar em as negocia­ções sobre a reunificação, pois Taiwan não aceita a imposição do poder comunista chinês sobre a ilha. De tempos em tempos, foram acesas tensões militares no Estreito de Taiwan.

Desde o século XVII, fluxos migratórios orientaram-se da China do sul para diversas áreas da Ásia meridional. Atualmente, há signi­ficativos grupos de chineses étnicos concentrados principalmente nas cidades do sudeste asiático. Os chineses étnicos representam três quartos da população de Cingapura. Na Malásia, correspondem a um terço da população, mas controlam cerca de 60% da renda nacional. Na Tailândia, são 10%, porém controlam metade da renda nacional; o mesmo ocor­re na Indonésia, onde são apenas 4% da população. Nas Filipinas e no Vietnã, os chineses étnicos representam uma ínfima minoria demográfica, mas também compõem uma elite econômica.
As elites de origem chinesa da Ásia do sudeste sempre manti­veram estreitos laços econômicos com os chineses de Hong Kong. As reformas deflagradas por Deng Xiao-ping abriram as portas da China para os investimentos dessas elites. O dinamismo econômico das províncias do sul chinês deve-se, em grande parte, à ponte que foi erguida entre a "China do interior" e as "Chinas do exterior".

Texto comlementar
EXPRESSO ORIENTE
A China e a Índia desequilibram a economia mundial
com crescimento acelerado há mais de uma década.

Dois países vêm redesenhando totalmente a economia global: a China e a Índia. Esses orien­tais têm em comum o gigantis­mo de seus territórios, vastas populações e uma capacidade extraordi­nária de descobrir suas vocações no emaranhado da teia mundial das relações comerciais de bens e serviços. Guardam ainda o mes­mo zelo pelo desenvolvimento da infra-estrutura e pela forma­ção de uma mão-de-obra de pon­ta, com padrões educacionais que superam muitos dos seus pa­res entre os países em desenvol­vimento - um exército qualifica­do e barato, em comparação ao das nações desenvolvidas. Aber­tos ao mercado, vão avançando sem a menor cerimônia, para o de­sespero dos demais emergentes que ainda não compreenderam a natureza dessa revolução. O Bra­sil, por exemplo.
A consolidação de ambos como players internacionais já está em curso. Quase nenhum ar­ranjo produtivo global acontece sem que um deles esteja envol­vido. Raros são os projetos de desenvolvimento nacional ou corporativo que desconsideram esses dois gigantes. O mundo real os corte­ja. As nações desenvolvidas os temem. Não é para menos, dada a velocidade com que estão galgando os rankings econômicos globais. A palavra-chave é crescimento. Muito crescimento, que vai manter em alta os preços das com­modities neste ano e propiciar uma no­va rodada de aquecimento da economia do planeta.
O mundo vai avançar 4,3% em 2006, segundo previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), expressas no documento World Economic Outlook, de ou­tubro de 2005. O FMI projeta um au­mento de 8,2% do Produto In­terno Bruto (PIB) chinês. O in­diano deve apresentar variação positiva de 6,3%. São estimati­vas conservadoras. O ano passa­do já deu dor de cabeça aos ana­listas, que subestimaram a força desses países. Compreensível o equívoco: pelo seu histórico de re­gimes políticos e econômicos fe­chados, nenhum dos dois dispõe de informações precisas e confiáveis. Já o PIB brasileiro deve crescer 3,5% em 2006, ainda de acordo com o FMI.
A China e a Índia perseguem o cres­cimento acelerado porque é preciso in­tegrar seus habitantes ao sistema eco­nômico formal. É muita gente para ser incorporada à sociedade de consumo. A população mundial totaliza 6,5 bi­lhões de pessoas, sendo 2,4 bilhões de chineses e indianos. As estatísticas mostram que, na média dos últimos dez anos, o PIB chinês cresceu 8,7% ao ano e o indiano avançou 6,5%. Já o bra­sileiro exibiu a pífia performance de 2,6%, de acordo com dados compila­dos pela Economist Intelligence Unit, braço de pesquisas do semanário britâ­nico The Economist.
Na sua inserção no comércio inter­nacional, esses gigantes também im­pressionam. O lado mais visível e óbvio é o aumento de exportações e importa­ções de bens, como os destinados ao consumo, à manufatura e à instalação de parques industriais. O mais precioso e significativo é revelado nas transações de serviços, como tecnologia da infor­mação, produtos financeiros e indústria do lazer/entretenimento, setores que agregam valor, trazem desenvolvimen­to e atraem capitais.
De acordo com o último levantamento da Organização Mundial do Comércio (OMC), as exportações chinesas de serviços já estavam em nono lugar no ranking global de 2004 e as indianas, em 16°, enquanto o Brasil situava-se na 35a colocação. Segundo o Banco Mundial, o setor de serviços já respon­de por quase dois terços do PIB do mundo desenvolvido e está alcançan­do os 50% nas nações em desenvolvi­mento. Esta é outra chave do futuro, calcada na educação. Mudou a confi­guração da economia global. E tam­bém os critérios que atraem os inves­timentos estrangeiros diretos.
O presidente da consultoria interna­cional KPMG no Brasil, David Bunce, identifica duas vocações na dobradinha sino-indiana. A China tornou-se um pólo de produção de baixo custo, com vida longa pela frente, maior que os ci­clos registrados na Coréia do Sul e em Taiwan, nas décadas de 1980 e 1990. O mo­tivo é a fartura de mão-de-obra barata, a ser inserida no mercado de trabalho. Tornou-se, por isso, o paraíso do offsho­ring, processo no qual uma empresa li­teralmente transfere para outro país to­da a sua linha de produção.
Já a Índia moldou seu modelo com base na terceirização e na tecnologia. Call centers de grandes empresas ame­ricanas estabeleceram-se lá, por moti­vos não desprezíveis: os indianos falam inglês e têm boa formação educacional. Existem até programas de neutraliza­ção de sotaques, como descreve o jor­nalista Thomas Friedman, no livro O Mundo É Plano. Chega a soar repugnan­te, mas atende à demanda dos consumi­dores americanos por uma voz, do outro lado da linha, que não fira seus ouvidos.
Quanto à expertise em tecnologia da informação e softwares, foi obtida por meio de profissionais formados em suas 259 universidades, que abrigam institutos tecnológicos de ponta, com­paráveis aos norte-americanos. Por is­so, cidades como Bangalore, localizada no sul da Índia, tornaram-se uma es­pécie de Vale do Silício local, com re­luzentes edifícios estampando logoti­pos das mundialmente conhecidas Mi­crosoft, IBM, Oracle, Alcatel e NEC, entre outras.
No modelo chinês, há ênfase no ensino profissionalizante. Segundo o econo­mista Gustavo Ioschpe, autor do livro A Ignorância Custa um Mundo, 41% dos alunos que freqüentam o nível secundário chinês estão em programas de formação profissional. As universida­des desse país - continua - dividem-se em três tipos: as abrangentes (destina­das à carreira acadêmica), as politéc­nicas e as profissionalizantes de nível mais básico.
Isso ocorre, de acordo com Ioschpe, porque há clareza das autoridades: a educação não pode estar dissociada do processo de desenvolvimento. China e Índia pensaram as grades curriculares para atingir uma meta de crescimento de longo prazo. Sabem que somente por meio de uma sólida formação escolar de suas populações poderão produzir bens de alto valor agregado. E não é apenas uma questão de recursos. Ioschpe diz que a China gasta 2% do PIB com edu­cação, ante o dispêndio de 4,5% do Bra­sil. Aqui, um gasto sem os mesmos fru­tos concretos. "O nosso país tem uma taxa de repetência de 32% na primeira série do Primeiro Grau. Simplesmente, as crianças não são alfabetizadas. Um terço desses meninos, portanto, está condenado à exclusão e à baixa auto-es­tima", diz o especialista.
Não é difícil, então, depreender por que companhias de todo o planeta foram para a Índia e para a China. Segundo o consultor Luiz Nelson Porto Araújo, da BDO Trevisan, "a Índia é o país com o maior número de profissionais com Ph.D (doutorado) per capita do mundo". Às críticas de que um engenheiro india­no tem remuneração dez vezes inferior aos dos países desenvolvidos - portanto, seria uma troca internacional desigual e prejudicial aos profissionais daquele país -, Araújo ressalta que o conceito mais relevante é a chamada paridade do poder de compra (na sigla em inglês, PPP). "As medidas de PIB mais usadas atualmente são com base nessa parida­de, ou seja, efetivamente quanto um tra­balhador pode consumir localmente" e não quanto consumiria em alguma ca­pital do chamado Primeiro Mundo.

O lado sombrio do espetacular cresci­mento da China e da Índia tem dois contra pontos sérios. O primeiro: sobram denúncias de desrespeito aos di­reitos humanos, prática que subsiste pelo fato de serem dois regimes políticos com raízes autoritárias. O segundo: é a escas­sa consciência sobre as questões ambien­tais, para não falar em descaso.
A Anistia Internacional, em seu relatório global de 2005, diz que houve algum pro­gresso na China, mas nada que tivesse im­pacto relevante para o bem-estar da popu­lação do país. Diz o texto que dezenas de milhares de pessoas foram detidas sem acusação formal em 2004, sujeitas a tor­turas e maus-tratos. Milhares foram con­denados à morte e executados, a maioria em julgamentos parciais. A liberdade de expressão continuou a ser ultra-restrita, especialmente na região do Tibete (região localizada no sudoeste chinês e anexada em 1950).
Também na Índia, os casos de violação dos direitos humanos gozaram de impunida­de em muitos casos. Críticos do governo sofreram constrangimentos legais. A Anis­tia enfatiza ainda que minorias étnicas, re­ligiosas e mulheres continuaram a ser víti­mas da discriminação, patrocinada pela polícia e pelo sistema judiciário do país.
Na questão ambiental. o Worldwatch Institute, centro independente de pesqui­sas sediado em Washington, divulgou um relatório na quarta-feira 11, em que alerta para os riscos que os dois países expõem seus habitantes e o restante do mundo.
De acordo com a publicação, a deman­da crescente da China por insumos atingiu um nível preocupante. Em 2005, consumiu 26% do aço produzido em todo o mundo, 32% do arroz e 47% do cimento. Além dis­so, os estoques de água dos dois países es­tão minguando: a China dispõe de apenas 8% para suprir as necessidades do país e o consumo da Índia deve triplicar até 2025. Os modelos chinês e indiano, por ora, não contemplam a hipótese de crescimento com baixo consumo de recursos e polui­ção ambiental reduzida. Quando atingirem o estágio econômico dos Estados Unidos, o que não está longe, “serão necessários dois planetas Terra para manter as duas economias”, diz o texto.
As organizações não-governamentais já estão de olho nos dois países há algum tem­po. Por serem nações em desenvolvimento, não têm metas de redução de emissões, co­mo os países ricos signatários do Protocolo de Kyoto. A poluição, aliás, é um dos focos de insatisfação de suas sociedades. Segun­do relato da revista Time Asia, o desrespei­to ao meio ambiente é um dos principais motivos de protestos e distúrbios nas cida­des chinesas: foram 74 mil em 2005.
O próprio Ministério de Recursos Hídri­cos da China admite que 300 milhões de pessoas no país bebem água contamina­da todos os dias. Desse total, 190 milhões literalmente adoecem. Mais de 30 mil crianças morrem anualmente de diarréia, por causa da impureza da água. A polui­ção é ainda responsável pelo aumento de 25% da taxa de bebês que nascem com alguma anomalia.
A situação na Índia não é muito melhor. O ponto crítico é a qualidade do ar, pela emis­são de gases da indústria e alta concentra­ção de automóveis nas grandes cidades - o país tem 20 centros urbanos com mais de 1 milhão de habitantes. Como na China, exis­tem leis que coíbem a poluição, mas por fal­ta de fiscalização e multas de baixo valor são sistematicamente desrespeitadas.
Do ponto de vista global, os números tam­bém são assustadores. As emissões tóxicas da índia cresceram 61% entre 1990 e 2001 e as da China, 111%. É uma fatura que o globo já está pagando e revela-se na multiplicação de desastres naturais contemporâneos - da temporada de furacões de intensidade re­corde nos Estados Unidos e Caribe à seca, sem precedentes, na Região Amazônica.
Revista Carta Capital, 25 de janeiro de 2006.