segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Geografia - China Textos

CHINA, A POTÊNCIA DO SÉCULO XXI?

a) Considerações gerais
A China é hoje um país com dois sistemas econômicos amalgamados por um único sistema político, a ditadura de partido único. Os próprios dirigentes chineses definem seu país como uma economia “socialista de mercado”. O significa isso? A economia da China foi a que mais cresceu no mundo ao longo dos anos 80 e 90, enquanto a União Soviética, seu modelo inicial, desapareceu. O país já é a sétima economia do planeta (alguns, dependendo dos critérios, já colocam o país como a segunda economia mundial); cada vez mais o mercado mundial é invadido por produtos “made in china”. O custo social e político tem sido muito grande, as desigualdades sociais e regionais avançam e a repressão político-cultural é uma vergonha para o país.

b) Uma rápida passagem pela história da China
A China da dinastia Ming, no final da Idade Média, era o mais poderoso império do mundo. A sua população, de 12 milhões de pessoas, superava em muito a de toda a Europa. A eficiência e sofisticação do aparelho administrativo e da legislação do império não tinham paralelo no mundo. A China dominava as técnicas da imprensa, forjava o ferro em grandes quantidades e abrigava cidades bem maiores que as européi­as. Os chineses inventaram a pólvora e a bússola magnética. Os Ming chamavam os seus domínios de "Império do Centro", revelando o desprezo que devotavam aos povos "bárbaros" de fora da China.
A marinha Ming contava com mais de mil navios de combate e 250 embarcações de longo curso. No século XIV, o comércio oce­ânico chinês estendia-se pelo Oceano Índico, através dos portos de Malaca (estreito marítimo entre a Península da Malásia e a Ilha de Sumatra, no sudeste asiático) e do Ceilão (ilha do Oceano Índico localizada no sul da Índia), até o mar Vermelho. Nessa época, a China dis­punha de condições econômicas e técnicas para liderar a "desco­berta do mundo". Mas lhe faltava um elemento crucial: o espírito de empreendimento privado. Três anos depois de em 1433 uma grande expedição marítima chinesa visitou Zanzibar (ilha nas proximidades da atual Tanzânia, no oriente africano) e retomou com girafas africanas, uma ordem imperial proibiu a construção de navios de alto-mar. Com essa deci­são, a burocracia Ming cortou pela raiz o desenvolvimento da classe de comerciantes e solidificou o seu poder sobre a civilização chinesa. Assim, a China cedeu à Europa a expansão comercial e colo­nial, deflagrada pelas Grandes Navegações.
No século XIX, a Europa industrial consolidava a sua hegemonia mundial. As potências européias (Grã-Bretanha, França, Rússia e Alemanha) e, depois, o Japão retalhavam o litoral chinês em "portos livres" e enclaves comerciais. Os direitos das potências estrangeiras asseguravam o seu controle sobre o comércio com a China e eram garantidos pelos "tratados iníquos” (tratados injustos, assinados pela enfraquecida e desmoralizada dinastia chinesa em 1842 e 1860). Nos primeiros anos do século XX, o poder im­perial entrou em colapso. Em 1912, o movimento revolucionário e nacionalista dirigido por Sun Yat­sen proclamava a república.
A república não foi capaz de estabilizar o país ou afastar as potências estrangeiras. Os republicanos logo dividiram-se em duas facções rivais - os naci­onalistas, liderados por Chiang Kai-shek, e os comu­nistas, liderados por Mao Tsé-tung. A Revolução Chinesa foi o demorado conflito dos comunistas contra o regime nacionalista de Chiang Kai-shek. Esse conflito prolongou-se pelas décadas de 1930 e 1940, entrelaçando-se com o combate à inva­são japonesa. Durante a Segunda Guerra Mundial, na­cionalistas e comunistas uniram-se na luta contra o Japão. Depois da rendição do invasor, em 1945, volta­ram a se enfrentar. Em outubro de 1949, as forças vitoriosas de Mao Tsé-tung tomaram Pequim e pro­clamaram a República Popular da China.

c ) A China pós-revolução comunista de 1949
A China Popular estruturou-se sob um sistema de poder tota­litário. O Partido Comunista Chinês (PCC) entrelaçou-se ao Es­tado, controlando todos os níveis de poder. A burocracia comu­nista substituiu a antiga burocracia imperial. A propriedade priva­da dos meios de produção deu lugar à propriedade estatal. A in­dústria e a agricultura foram submetidas à planificação central. O modelo econômico, nas suas características essenciais, imitava a União Soviética.
Contudo, o modelo chinês distinguiu-se do soviético pela cria­ção das comunas populares*. A implantação das comunas iniciou-se em 1958, através da política oficial do Grande Salto Adiante. Essa política destinava-se a promover a industrialização acelerada do meio rural, pela difusão de pequenas fábricas nas vilas e povoados.

* As Comunas populares eram grandes unidades de produção rural, abrangendo a agricultura e pequenas indústrias. Cada comuna estruturava-se de forma coletiva e centralizada. Os lotes agrícolas familiares, distribuídos na reforma agrária de 1950, foram eliminados, e toda a terra, colocada sob controle das comunas. As comunas organizavam também a vida social e a educação das crianças. A implantação desse sistema teve forte impacto sobre a vida familiar, diminuindo a força tradicional da autoridade paterna.

O chamado “Grande Salto Adiante” desviou os recursos na­cionais da agricultura para a indústria. A coletivi­zação radical desorganizou a produção agrícola. A quantidade de grãos disponíveis por pessoa no cam­po retrocedeu de 205 quilos, em 1957, para apenas 154 quilos, em 1961. Entre 1959 e 1962, uma crise pavorosa de fome ceifou cerca de 20 milhões de vidas, numa das maiores catástrofes humanas do século XX.
Na primeira década da revolução, a China com­portou-se como fiel aliada da União Soviética. Con­tudo, em 1960, os planos chineses de construção de armas nucleares abalaram as relações com os sovié­ticos, que temiam o crescimento do poder e da in­fluência da China. Nos anos seguintes, a aliança ruiu sob pesadas acusações mútuas. A ruptura entre as duas potências comunistas preparou o caminho para a aproximação da China aos Estados Unidos.
Mao Tsé-tung governou a China como um "impe­rador vermelho" desde a revolução até a sua morte, em 1976. Nos últimos anos de governo, empreendeu o grande giro geopolítico na direção dos Estados Unidos, recebendo em Pequim o presidente norte-americano Richard Nixon (numa tentativa norte-americana de enfraquecer a antiga União Soviética, era o período da Guerra Fria). Após a morte de Mao, as facções moderadas e radicais do PCC envolveram-se numa luta pelo poder, que se concluiu em 1978, com a ascensão à liderança de Deng Xiao-ping, o chefe da facção moderada. O novo líder acreditava que a China precisava de reformas econômicas profundas. O seu “Programa das Qua­tro Modernizações” (na indústria, na agricultura, na defesa e na ciência e tecnologia) pretendia transformar o país numa po­tência econômica.
Deng Xiao-ping lançou um lema célebre: "Não importa a cor do gato. O que importa é que ele cace os ratos". Isso significava que o novo líder não dava muito valor às idéias coletivistas e igualitárias. Valorizava a eficiência econômica e a produção de riquezas.
As comunas populares foram dissolvidas, e os camponeses, esti­mulados a vender seus produtos no mercado livre e a realizar lu­cros. Criaram-se as Zonas Econômicas Especiais, geralmente em cidades portuárias do sudeste e leste (já ocorreu uma maior interiorização, com alguns poucos exemplos), nas quais os investimentos estrangeiros passavam a ser aceitos e estimulados pelo Estado (incentivos fiscais, facilidades para exportar, ampliação da infra-estrutura, etc.).


A "economia socialista de mercado", rótulo cunhado para iden­tificar o sistema misto gerado pelas reformas, aprofundou-se após a morte de Deng Xiao-ping e a ascensão de seu sucessor, Jiang Ze­min, em 1997. A modernização econômica gerou profundas desi­gualdades sociais, expressas no abismo de renda que separa as cida­des do meio rural e a classe média, dos camponeses. Ao mesmo tempo, resultou na expansão acelerada dos investimentos estran­geiros e do comércio exterior.
A China tornou-se o quarto exportador mundial, atrás ape­nas dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão. O seu PIB ex­perimentou, nas duas últimas décadas, as maiores taxas de ex­pansão do mundo. Atualmente, o PIB chinês é o segundo maior do mundo, embora o PIB per capita seja ainda bastante inferior ao brasileiro.




d) O espaço econômico chinês

A China Ocidental é o domínio das altas cordilheiras montanho­sas e dos desertos. A China Oriental, das férteis planícies tempera­das e subtropicais, drenadas por grandes rios com amplos espaços destinados à produção agropecuária. Na China Ocidental as densidades demográficas são baixas ou médias, e elevadas na China Oriental.
As grandes cidades chinesas localizam-se nos vales fluviais e nas planícies costeiras da China Oriental, sendo que em muitas dessas grandes cidades estão instaladas as chamadas Zonas Econômicas Especiais (ZEEs). A China Oriental é, portanto, a porção do espaço chinês onde as reformas de orientação capitalista são mais nitidamente notadas. Mesmo fora das ZEEs, nas áreas que compõem o cinturão agrícola, as modernidades associadas à disseminação das práticas capitalistas são muito presentes.

De qualquer forma, é nas ZEEs que as reformas capitalistas chinesas se fazem notar de maneira mais marcante. Nelas a plena adoção das leis de mercado, os pesados investimentos de capital em modernização da infra-estrutura e as vantagens tributárias oferecidas pelo Estado Chinês sustentam a atração dos capitais transnacionais, conferindo a elas a condição de principais elos de ligação da economia chinesa à economia-mundo. As atividades econômicas realizadas nas ZEEs sustentam o crescimento econômico do país a taxas médias de 10% ao ano, desde o início dos anos 1980.

d) O novo gigante do mercado mundial e seus principais desafios.
A rapidez do crescimento econômico da China impressiona. Nos últimos 25 anos, depois da abertura econômica, 400 milhões de chineses passaram para o lado bom da linha de pobreza e se tornaram consumidores de produtos modernos. No mesmo período, o PIB da China aumentou 5 vezes e as exportações saltaram de 20 bilhões para mais de 300 bilhões de dólares em 2002. E a tendência é crescer mais. Só nos primeiros noves meses de 2003, o país já registrou um aumento de 32,3% nas exportações e a economia acumulou um crescimento de 9% - um percentual invejável para qualquer nação do mundo.
O país mais populoso do planeta também é o campeão no recebimento de investimentos externos. Em 2003, conseguiu atrair 52,7 bilhões de dólares e desbancou os Estados Unidos no ranking mundial de países que mais receberam investimentos diretos do exterior. Um dos setores mais prestigiados é o automobilístico. Em outubro, a Ford americana anunciou um reforço de 1 bilhão de dólares em seus investimentos no país para os próximos anos.
A China começou a se preparar para a abertura econômica em 1978, quando o então líder Deng Xiaoping trocou os dogmas de Karl Marx pelos de Adam Smith e deu uma guinada que incluiu a abertura de zonas comerciais nas províncias costeiras, aumento de investimentos estrangeiros e liberalização do comércio e do mercado agrícola, tendo como ingredientes fartos subsídios, mão-de-obra barata e repressão brutal à oposição. Foi quando sob o bordão “Enriquecer é glorioso”, o então país de Mao começou a experimentar os desafios e prazeres da livre iniciativa na economia.
O princípio básico do comunismo, a propriedade estatal, começou a cair por terra em 1997, quando o Congresso chinês anunciou um gigantesco programa de privatização. Dois anos depois, os chineses comemoraram cinqüenta anos de comunismo ao mesmo tempo em que realizava uma manobra histórica: depois de treze anos de negociações, fecharam um acordo para a esperada abertura de sua economia à globalização. Foi quando em menos de uma década o país se tornou a sétima economia do mundo com perspectiva de vir a ser a segunda em breve.
Em 2001, a China oficializou sua entrada no mundo globalizado ao ingressar de forma definitiva na Organização Mundial do Comércio (OMC). Com um fabuloso mercado potencial de mais de 1 bilhão de consumidores, o gigante oriental representava um dos mais tentadores e difíceis mercados internacionais, mas enfim abria as suas portas para o mundo. Com a economia globalizada, a China precisa atualmente criar 80 milhões de empregos e, ao mesmo tempo, assimilar o golpe que deverá arrasar setores inteiros defasados em relação à concorrência externa, como a indústria automobilística. Já as indústrias têxtil, de calçados e de brinquedos, que já nadam de braçadas, deverão aumentar as exportações em 200%.
A mão-de-obra barata é o grande chamariz para a entrada de capital externo. Na maioria das regiões da China, o salário, por exemplo, na linha de montagem é de menos de 2 reais por hora. Um operário brasileiro ganha quatro vezes mais. Um mexicano, seis vezes. Um americano não pega no batente por menos de um salário vinte vezes maior. Nessas condições, montar bases para exportar é um ótimo negócio. A China já responde por metade da produção mundial de máquinas fotográficas. Três em cada dez aparelhos de ar condicionado e de TV produzidos são feitos lá. Mais de 25% das máquinas de lavar e 20% das geladeiras no mundo levam o selo "Made in China."
Apesar do acelerado crescimento econômico, o maior desafio dos chineses é a desigualdade social. Dois terços dos chineses vivem em áreas rurais muito pobres e a renda per capita é compatível com as piores do terceiro mundo. Nos centros urbanos da China, o salário varia de 30 a 80 dólares mensais e a renda per capita é de 760 dólares anuais. No campo, onde vivem 900 milhões de chineses, ganha-se menos de 250 dólares por ano. Outro sério problema associado ao acelerado crescimento econômico diz respeito aos custos ambientais. Em poucos anos o país tornou-se o segundo maior emissor de gases causadores do efeito estufa do mundo, perdendo apenas para os EUA. Das 20 cidades mais poluídas do planeta, 16 são chinesas, segundo o Banco Mundial, e 70% da água dos cinco maiores sistemas de rios do país encontram-se poluídos.
As reformas econômicas não tiveram contrapartida política, o que se configura num sério problema de ordem social. A ditadura de partido único sofreu a contestação de um amplo movi­mento estudantil e popular, em 1989. Em Pequim e diversas outras cidades, os manifestantes exigiram, nas ruas, uma abertura demo­crática. Contudo, o movimento foi violentamente reprimido e sufo­cado após o massacre da Praça da Paz Celestial.

Isso ninguém pode esquecer!

O MASSACRE DA PRAÇA DA PAZ EM PEQUIM – 1989
Estudantes chineses organizaram em Pequim, durante a primavera de 1989, uma grande manifestação de protesto exigindo reformas democráticas. A diminuição das medidas repressoras permitiu este movimento que buscava uma transição rápida da China para a democracia. Entretanto, quando os estudantes estavam reunidos, na praça de Tiananmen, o governo ordenou uma enérgica repressão e centenas de manifestantes foram assassinados. Na foto abaixo um homem tenta impedir o avanço de tanques durante os protestos da Praça da Paz Celestial, em Pequim, 1989.


















Cidadãos chineses também não são bem tratados por autoridades chinesas. Estão sujeitos a prisões arbitrárias e a punições brutais. É o país onde há mais execuções: 1.060 no ano passado, segundo estatísticas oficiais, pouco confiáveis. Esta semana, a Anistia internacional divulgou relatório que responsabiliza a China por 80% das execuções no mundo, além de sistemáticas violações dos direitos humanos. Veja a hipocrisia. O governo de Pequim oculta números da Aids, dificultando o combate à doença, como aconteceu com a pneumonia asiática. Já um humilde agricultor foi condenado à morte por, sem querer, ter transmitido essa doença para 40 pessoas.


A questão demográfica se constitui num outro sério desafio enfrentado pelo país. A China é a maior potência demográfica do planeta, com mais de 1,3 bilhão de habitantes. A maior parte da população habita o meio rural. Mesmo assim, a população urbana - perto de 35% do total - soma mais de 400 milhões de pessoas. Na China oriental encontram-se três imensas metrópoles. Xangai tem mais de 15 mi­lhões de habitantes. Pequim (12 milhões) e Ti­anjin (10 milhões) configuram, juntas, uma enor­me megalópole.

Chinês põe bebês à venda em site na internet
Que tal comprar um bebê chinês sem problemas de saúde, com entrega a domicílio em Xangai, venda por cartão pela internet e por apenas 28 mil yuans (R$ 7.800), meninos, ou 13 mil yuans (R$ 3.600), meninas? Pois a China foi surpreendida ontem pela revelação de que uma pessoa com o apelido de “Chuangxinzhe Yongyuan” (algo como “inovador perene”) estava vendendo bebês de Xangai desde o dia 16, no site de leilões e-Bay em sua versão chinesa, conhecida como Eachnet. A polícia procura Chuangxinzhe Yongyuan, em mais uma tentativa de coibir uma das práticas mais freqüentes no país da política do filho único: o tráfico de bebês, a maioria meninas rejeitadas pelos pais — delito que, no país, pode resultar em pena de morte.
( ...) No entanto, na maior parte das vezes, e fora das estatísticas da polícia, a venda dos bebês é feita pelos próprios pais, especialmente os que moram nas áreas rurais. Como a legislação chinesa impõe pesadas multas a pais que têm o segundo filho, a venda é o caminho mais prático para os que querem um menino, em vez de uma menina, como filho natural. Explique-se: o sistema previdenciário chinês não garante o sustento de todos os idosos e a imensa maioria dos chineses, para garantir a sobrevivência na velhice, conta com a ajuda dos filhos. No campo — devido à necessidade de ajuda braçal na agricultura — as meninas não são consideradas “uma boa aposentadoria”.
O Globo, 21.10.2005



A questão do controle da natalidade e a mulher chinesa
Em razão dos abortos de meninas e dos assassinatos, o número de bebês do sexo feminino registrados na China é muito inferior ao de crianças do sexo masculino.
Há no país uma falta crônica de mulheres adultas. Na pior tradição oriental, o problema tem sido contornado com o aumento de outro crime: o seqüestro de moças que se submeterão a casamentos forçados. Já se verificaram casos de mulheres que se casam com um homem e acabam servindo sexualmente a todos os irmãos dele. As mulheres recebem 70% do salário do homem.


e) A China e os chineses na Ásia
A unidade política e territorial da China é a maior meta de política externa do regime de Pequim. Os enclaves coloniais eu­ropeus de Hong Kong e Macau retornaram à soberania chinesa, mas a unidade ainda não foi alcançada, pois falta a reincorpora­ção de Taiwan. Taiwan foi o refúgio do regime nacionalista derrubado em 1949 pelos comunistas. Durante a Guerra Fria, a província rebelde rece­beu a proteção dos Estados Unidos. Na ilha, os nacionalistas im­plantaram um sistema econômico capitalista e recusaram-se a re­conhecer o regime comunista de Pequim. Desde 1979, os Estados Unidos reconhecem o regime de Pequim, mas mantêm a ajuda mi­litar a Taiwan.
A China e Taiwan concordam sobre a existência de "uma única China". Mas isso não é suficiente para fazer avançar em as negocia­ções sobre a reunificação, pois Taiwan não aceita a imposição do poder comunista chinês sobre a ilha. De tempos em tempos, foram acesas tensões militares no Estreito de Taiwan.

Desde o século XVII, fluxos migratórios orientaram-se da China do sul para diversas áreas da Ásia meridional. Atualmente, há signi­ficativos grupos de chineses étnicos concentrados principalmente nas cidades do sudeste asiático. Os chineses étnicos representam três quartos da população de Cingapura. Na Malásia, correspondem a um terço da população, mas controlam cerca de 60% da renda nacional. Na Tailândia, são 10%, porém controlam metade da renda nacional; o mesmo ocor­re na Indonésia, onde são apenas 4% da população. Nas Filipinas e no Vietnã, os chineses étnicos representam uma ínfima minoria demográfica, mas também compõem uma elite econômica.
As elites de origem chinesa da Ásia do sudeste sempre manti­veram estreitos laços econômicos com os chineses de Hong Kong. As reformas deflagradas por Deng Xiao-ping abriram as portas da China para os investimentos dessas elites. O dinamismo econômico das províncias do sul chinês deve-se, em grande parte, à ponte que foi erguida entre a "China do interior" e as "Chinas do exterior".

Texto comlementar
EXPRESSO ORIENTE
A China e a Índia desequilibram a economia mundial
com crescimento acelerado há mais de uma década.

Dois países vêm redesenhando totalmente a economia global: a China e a Índia. Esses orien­tais têm em comum o gigantis­mo de seus territórios, vastas populações e uma capacidade extraordi­nária de descobrir suas vocações no emaranhado da teia mundial das relações comerciais de bens e serviços. Guardam ainda o mes­mo zelo pelo desenvolvimento da infra-estrutura e pela forma­ção de uma mão-de-obra de pon­ta, com padrões educacionais que superam muitos dos seus pa­res entre os países em desenvol­vimento - um exército qualifica­do e barato, em comparação ao das nações desenvolvidas. Aber­tos ao mercado, vão avançando sem a menor cerimônia, para o de­sespero dos demais emergentes que ainda não compreenderam a natureza dessa revolução. O Bra­sil, por exemplo.
A consolidação de ambos como players internacionais já está em curso. Quase nenhum ar­ranjo produtivo global acontece sem que um deles esteja envol­vido. Raros são os projetos de desenvolvimento nacional ou corporativo que desconsideram esses dois gigantes. O mundo real os corte­ja. As nações desenvolvidas os temem. Não é para menos, dada a velocidade com que estão galgando os rankings econômicos globais. A palavra-chave é crescimento. Muito crescimento, que vai manter em alta os preços das com­modities neste ano e propiciar uma no­va rodada de aquecimento da economia do planeta.
O mundo vai avançar 4,3% em 2006, segundo previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), expressas no documento World Economic Outlook, de ou­tubro de 2005. O FMI projeta um au­mento de 8,2% do Produto In­terno Bruto (PIB) chinês. O in­diano deve apresentar variação positiva de 6,3%. São estimati­vas conservadoras. O ano passa­do já deu dor de cabeça aos ana­listas, que subestimaram a força desses países. Compreensível o equívoco: pelo seu histórico de re­gimes políticos e econômicos fe­chados, nenhum dos dois dispõe de informações precisas e confiáveis. Já o PIB brasileiro deve crescer 3,5% em 2006, ainda de acordo com o FMI.
A China e a Índia perseguem o cres­cimento acelerado porque é preciso in­tegrar seus habitantes ao sistema eco­nômico formal. É muita gente para ser incorporada à sociedade de consumo. A população mundial totaliza 6,5 bi­lhões de pessoas, sendo 2,4 bilhões de chineses e indianos. As estatísticas mostram que, na média dos últimos dez anos, o PIB chinês cresceu 8,7% ao ano e o indiano avançou 6,5%. Já o bra­sileiro exibiu a pífia performance de 2,6%, de acordo com dados compila­dos pela Economist Intelligence Unit, braço de pesquisas do semanário britâ­nico The Economist.
Na sua inserção no comércio inter­nacional, esses gigantes também im­pressionam. O lado mais visível e óbvio é o aumento de exportações e importa­ções de bens, como os destinados ao consumo, à manufatura e à instalação de parques industriais. O mais precioso e significativo é revelado nas transações de serviços, como tecnologia da infor­mação, produtos financeiros e indústria do lazer/entretenimento, setores que agregam valor, trazem desenvolvimen­to e atraem capitais.
De acordo com o último levantamento da Organização Mundial do Comércio (OMC), as exportações chinesas de serviços já estavam em nono lugar no ranking global de 2004 e as indianas, em 16°, enquanto o Brasil situava-se na 35a colocação. Segundo o Banco Mundial, o setor de serviços já respon­de por quase dois terços do PIB do mundo desenvolvido e está alcançan­do os 50% nas nações em desenvolvi­mento. Esta é outra chave do futuro, calcada na educação. Mudou a confi­guração da economia global. E tam­bém os critérios que atraem os inves­timentos estrangeiros diretos.
O presidente da consultoria interna­cional KPMG no Brasil, David Bunce, identifica duas vocações na dobradinha sino-indiana. A China tornou-se um pólo de produção de baixo custo, com vida longa pela frente, maior que os ci­clos registrados na Coréia do Sul e em Taiwan, nas décadas de 1980 e 1990. O mo­tivo é a fartura de mão-de-obra barata, a ser inserida no mercado de trabalho. Tornou-se, por isso, o paraíso do offsho­ring, processo no qual uma empresa li­teralmente transfere para outro país to­da a sua linha de produção.
Já a Índia moldou seu modelo com base na terceirização e na tecnologia. Call centers de grandes empresas ame­ricanas estabeleceram-se lá, por moti­vos não desprezíveis: os indianos falam inglês e têm boa formação educacional. Existem até programas de neutraliza­ção de sotaques, como descreve o jor­nalista Thomas Friedman, no livro O Mundo É Plano. Chega a soar repugnan­te, mas atende à demanda dos consumi­dores americanos por uma voz, do outro lado da linha, que não fira seus ouvidos.
Quanto à expertise em tecnologia da informação e softwares, foi obtida por meio de profissionais formados em suas 259 universidades, que abrigam institutos tecnológicos de ponta, com­paráveis aos norte-americanos. Por is­so, cidades como Bangalore, localizada no sul da Índia, tornaram-se uma es­pécie de Vale do Silício local, com re­luzentes edifícios estampando logoti­pos das mundialmente conhecidas Mi­crosoft, IBM, Oracle, Alcatel e NEC, entre outras.
No modelo chinês, há ênfase no ensino profissionalizante. Segundo o econo­mista Gustavo Ioschpe, autor do livro A Ignorância Custa um Mundo, 41% dos alunos que freqüentam o nível secundário chinês estão em programas de formação profissional. As universida­des desse país - continua - dividem-se em três tipos: as abrangentes (destina­das à carreira acadêmica), as politéc­nicas e as profissionalizantes de nível mais básico.
Isso ocorre, de acordo com Ioschpe, porque há clareza das autoridades: a educação não pode estar dissociada do processo de desenvolvimento. China e Índia pensaram as grades curriculares para atingir uma meta de crescimento de longo prazo. Sabem que somente por meio de uma sólida formação escolar de suas populações poderão produzir bens de alto valor agregado. E não é apenas uma questão de recursos. Ioschpe diz que a China gasta 2% do PIB com edu­cação, ante o dispêndio de 4,5% do Bra­sil. Aqui, um gasto sem os mesmos fru­tos concretos. "O nosso país tem uma taxa de repetência de 32% na primeira série do Primeiro Grau. Simplesmente, as crianças não são alfabetizadas. Um terço desses meninos, portanto, está condenado à exclusão e à baixa auto-es­tima", diz o especialista.
Não é difícil, então, depreender por que companhias de todo o planeta foram para a Índia e para a China. Segundo o consultor Luiz Nelson Porto Araújo, da BDO Trevisan, "a Índia é o país com o maior número de profissionais com Ph.D (doutorado) per capita do mundo". Às críticas de que um engenheiro india­no tem remuneração dez vezes inferior aos dos países desenvolvidos - portanto, seria uma troca internacional desigual e prejudicial aos profissionais daquele país -, Araújo ressalta que o conceito mais relevante é a chamada paridade do poder de compra (na sigla em inglês, PPP). "As medidas de PIB mais usadas atualmente são com base nessa parida­de, ou seja, efetivamente quanto um tra­balhador pode consumir localmente" e não quanto consumiria em alguma ca­pital do chamado Primeiro Mundo.

O lado sombrio do espetacular cresci­mento da China e da Índia tem dois contra pontos sérios. O primeiro: sobram denúncias de desrespeito aos di­reitos humanos, prática que subsiste pelo fato de serem dois regimes políticos com raízes autoritárias. O segundo: é a escas­sa consciência sobre as questões ambien­tais, para não falar em descaso.
A Anistia Internacional, em seu relatório global de 2005, diz que houve algum pro­gresso na China, mas nada que tivesse im­pacto relevante para o bem-estar da popu­lação do país. Diz o texto que dezenas de milhares de pessoas foram detidas sem acusação formal em 2004, sujeitas a tor­turas e maus-tratos. Milhares foram con­denados à morte e executados, a maioria em julgamentos parciais. A liberdade de expressão continuou a ser ultra-restrita, especialmente na região do Tibete (região localizada no sudoeste chinês e anexada em 1950).
Também na Índia, os casos de violação dos direitos humanos gozaram de impunida­de em muitos casos. Críticos do governo sofreram constrangimentos legais. A Anis­tia enfatiza ainda que minorias étnicas, re­ligiosas e mulheres continuaram a ser víti­mas da discriminação, patrocinada pela polícia e pelo sistema judiciário do país.
Na questão ambiental. o Worldwatch Institute, centro independente de pesqui­sas sediado em Washington, divulgou um relatório na quarta-feira 11, em que alerta para os riscos que os dois países expõem seus habitantes e o restante do mundo.
De acordo com a publicação, a deman­da crescente da China por insumos atingiu um nível preocupante. Em 2005, consumiu 26% do aço produzido em todo o mundo, 32% do arroz e 47% do cimento. Além dis­so, os estoques de água dos dois países es­tão minguando: a China dispõe de apenas 8% para suprir as necessidades do país e o consumo da Índia deve triplicar até 2025. Os modelos chinês e indiano, por ora, não contemplam a hipótese de crescimento com baixo consumo de recursos e polui­ção ambiental reduzida. Quando atingirem o estágio econômico dos Estados Unidos, o que não está longe, “serão necessários dois planetas Terra para manter as duas economias”, diz o texto.
As organizações não-governamentais já estão de olho nos dois países há algum tem­po. Por serem nações em desenvolvimento, não têm metas de redução de emissões, co­mo os países ricos signatários do Protocolo de Kyoto. A poluição, aliás, é um dos focos de insatisfação de suas sociedades. Segun­do relato da revista Time Asia, o desrespei­to ao meio ambiente é um dos principais motivos de protestos e distúrbios nas cida­des chinesas: foram 74 mil em 2005.
O próprio Ministério de Recursos Hídri­cos da China admite que 300 milhões de pessoas no país bebem água contamina­da todos os dias. Desse total, 190 milhões literalmente adoecem. Mais de 30 mil crianças morrem anualmente de diarréia, por causa da impureza da água. A polui­ção é ainda responsável pelo aumento de 25% da taxa de bebês que nascem com alguma anomalia.
A situação na Índia não é muito melhor. O ponto crítico é a qualidade do ar, pela emis­são de gases da indústria e alta concentra­ção de automóveis nas grandes cidades - o país tem 20 centros urbanos com mais de 1 milhão de habitantes. Como na China, exis­tem leis que coíbem a poluição, mas por fal­ta de fiscalização e multas de baixo valor são sistematicamente desrespeitadas.
Do ponto de vista global, os números tam­bém são assustadores. As emissões tóxicas da índia cresceram 61% entre 1990 e 2001 e as da China, 111%. É uma fatura que o globo já está pagando e revela-se na multiplicação de desastres naturais contemporâneos - da temporada de furacões de intensidade re­corde nos Estados Unidos e Caribe à seca, sem precedentes, na Região Amazônica.
Revista Carta Capital, 25 de janeiro de 2006.

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