quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Geofrafia- Oriente Medio textos

Oriente Médio: um espaço de conflitos
a) Localização
O Oriente Médio, ou Ásia ocidental, caracteriza-se antes de tudo pela sua função histórica de corredor entre três continentes: Ásia, Europa e África. O Mar Verme­lho constitui o limite ocidental do Oriente Médio, que está conec­tado à África através da Península do Sinai. Os mares Mediterrâneo e Negro, ligados pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, formam os limites setentrionais do Oriente Médio. Os estreitos separam as duas porções do território da Turquia, como mostra a figura a seguir.




b) A geopolítica do petróleo


O PETRÓLEO NO GOLFO PÉRSICO

A geopolítica dos países do Golfo organiza-se em torno do pe­tróleo. A exploração das jazidas iniciou-se na década de 1920, sob o comando de companhias transnacionais britânicas, norte-ameri­canas e francesas. A estabilidade dos países da área e a garantia de suprimentos de petróleo para o mundo desenvolvido representam um dos vetores da política internacional contemporânea.
Na margem ocidental do Golfo localizam-se a Arábia Saudita (desempenha as funções geopolíticas de liderança) e os pequenos Estados petrolíferos litorâneos. Nesses países, o poder político é controlado por dinastias islâmicas conservadoras, susten­tadas pelas rendas do petróleo e associadas às potências ocidentais.
O Iraque e o Irã ocupam as margens setentrional e oriental do Golfo. O Iraque nasceu do desmembramento do Império Turco e permaneceu, até 1958, sob regime monárquico pró-ocidental. A re­pública, instalada por um golpe militar nacionalista, sofreu forte influ­ência da ideologia pan-arabista. No Irã, a monarquia do xá Reza Pahlevi rompeu com as tradições islâmicas e promoveu campanhas ocidentalizantes, até a insurreição que conduziu o clero xiita ao poder.
O Iraque, nacionalista e acalentando o projeto da unidade ára­be, entrou em conflito com o Irã, que sonhava com a difusão da revolução islâmica. A guerra eclodiu em 1980, precipitada por uma disputa de fronteira. Durou até 1988, sem alterar as fronteiras, mas arrasando os dois países. Calcula-se que cerca de 700 mil pessoas morreram na guerra.
Os países exportadores do Golfo colocaram a extração do pe­tróleo sob controle de companhias nacionais entre as décadas de 1950 e 1970. Em 1960, foi criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). A OPEP destinava-se a transferir o poder de fixar os preços do petróleo para os países exportadores. A estra­tégia consistia em estabelecer cotas máximas de produção para os países integrantes, de modo a regular a oferta mundial do produto.
O primeiro "choque de preços" do petróleo utilizou como pre­texto a Guerra do Yom Kippur (1973). Reagindo ao apoio dos Estados Unidos a Israel, os países árabes da OPEP conseguiram aprovar uma brusca redução nas cotas de produção, deflagrando súbito au­mento de preços. O barril de petróleo saltou de cerca de 3 dólares para cerca de 12 dólares. O segundo "choque de preços" ocorreu logo após a Revolução Iraniana, em 1979. O barril de petróleo ul­trapassou, então, a marca de 30 dólares.
Os "choques do petróleo" atingiram pesadamente a economia mundial, provocando inflação nos países ricos e desequilibrando a balança comercial de diversos países importadores. Ao mesmo tem­po, geraram extraordinário fluxo de rendas petrolíferas para as elites econômicas dos países exportadores. No Golfo Pérsico, as rendas do petróleo consolidaram o poder da monarquia saudita e financia­ram o Iraque e o Irã no seu esforço de guerra.
Os países desenvolvidos reagiram à esca­lada dos preços do petróleo com a pesquisa e prospecção de novos campos petrolíferos, localizados fora da área da OPEP. A explora­ção de jazidas situadas sob águas profundas tornou-se economicamente viável, em função dos elevados preços do barril. Assim, passa­ram a ser exploradas bacias em várias partes do mundo. Além disso, os países importado­res engajaram-se na diversificação das fontes energéticas, reabrindo minas de carvão e im­plantando usinas nucleares.
A revolução tecnocientífica contribuiu de­cisivamente para a eficiência energética. A produção de riquezas, especialmente nos pa­íses desenvolvidos, cresce em ritmo muito mais acelerado que a expansão do consumo de energia. A partir de meados da década de 1980, os preços do barril de petróleo come­çaram a declinar acentuadamente. Entre os membros da OPEP, a redução das rendas pe­trolíferas aprofundou as divergências sobre a distribuição de cotas de produção.
Nesse contexto, em 1990, o Iraque pro­moveu uma invasão militar do Kuwait e de­clarou que o anexaria permanentemente. A iniciativa do regime nacionalista do lraque alar­mou os países desenvolvidos. Temia-se o sú­bito aumento do controle iraquiano sobre as reservas petrolíferas do Golfo e, sobretudo, o prosseguimento da ação militar, desta vez contra a Arábia Saudita.
Os Estados Unidos reagiram articulando uma ampla coalizão in­ternacional, formada por aliados europeus e países árabes (como o Egito, a Arábia Saudita e até a Síria), para expulsar o Iraque do Kuwait. Na Guerra do Golfo, breve e violenta, uma devastadora campanha de bombardeios aéreos e uma ofensiva final terrestre destruíram a estrutura militar do lraque e expulsa­ram as tropas invasoras do Kuwait.
Desde a Guerra do Golfo, os Estados Unidos estabeleceram uma ostensiva presença militar na região. Centros de comando e bases aéreas foram implantados ou modernizados na Arábia Saudita, no Kuwait, em Barein e Catar. As instalações operadas pelos Estados Unidos nesses países tornaram-se o núcleo de uma engrenagem estratégica destinada a preservar a estabilidade dos Estados da Península Arábica.
A engrenagem militar norte-americana revela o valor estratégi­co dos campos de petróleo e das rotas de navios petroleiros no Golfo. Mas essa engrenagem tem provocado a reação de organiza­ções e grupos fundamentalistas, que não admitem a presença de militares estrangeiros em terras muçulmanas.


IRAQUE: CENÁRIO DE VIOLÊNCIA, TERROR E MORTE
Mesmo com a ocupação estrangeira ocorrida há três anos, o país ainda vive um cotidiano de guerra civil.

O Iraque viveu em 5 de janeiro de 2006 um triste dia típico: atentados suici­das, ataques contra peregrinos xiitas e conflitos com tropas norte-americanas. Nesse triste cotidiano do país, essa data se destacou porque o número de mor­tos, 130, foi um dos mais elevados de todo o período da guerra.
Três anos depois que os soldados dos Estados Unidos (EUA) e do Reino Unido - à frente de uma coalizão - inva­diram e ocuparam o país, vê-se que a guerra não só continua como também está mais feroz. Diariamente, a insur­gência contra a presença estrangeira se expressa em atentados terroristas, que têm custado a vida de milhares de pes­soas. De 2003 para cá, de acordo com os cálculos mais conservadores, morre­ram em média mil civis por mês.
O presidente norte-americano, George W. Bush, porém, continua a defender a presença das tropas de seu país e reafir­ma a posição do governo de não deixar o Iraque até que haja uma vitória final. Os EUA mantêm no país quase 140 mil soldados. A eles se somam 22 mil milita­res de outras nações, entre as quais a de maior contingente é o Reino Unido.
A guerra teve origem na suspeita, dos EUA e do Reino Unido, de que o presi­dente iraquiano Saddam Hussein escon­dia armas de destruição em massa. Para Bush, o ataque ao país era também par­te da "guerra contra o terror".
No início de 2003, os EUA e o Reino Unido pressionaram a Orga­nização das Nações Unidas (ONU) a aprovar o uso da força para desarmar o Iraque, mas enfrentaram a resistência de outros países - particularmente da França e da Alemanha. Os norte-ame­ricanos e os britânicos decidiram então atacar unilateralmente, mesmo sem o respaldo da ONU. Em 19 de março iniciaram a guerra e, em apenas um mês, derrubaram o regime de Saddam, que foi preso e está sendo julgado.
Os combates entre Exércitos acaba­ram, mas os soldados norte-america­nos, ocupando um país estranho, ain­da são alvos de uma intensa campa­nha de atentados e ações guerrilhei­ras. A resistência armada voltou-se também contra as tropas aliadas, as organizações internacionais e os civis iraquianos que colaboram com as tro­pas de ocupação, como a nova polí­cia. Vários jornalistas estrangeiros, diplomatas e cidadãos estrangeiros foram seqüestrados e mortos.
Além de enfrentar pesadas baixas de iraquianos e de soldados da coalizão, o governo Bush não encontrou no Iraque as armas de destruição em mas­sa que foram a justificativa para o con­flito. Na opinião de muitos críticos da política de Bush, o verdadeiro motivo da invasão era o acesso ao petróleo, insumo fundamental para a economia norte-americana e do mundo. A guer­ra garantiria o controle das reservas petrolíferas do Iraque, menores apenas que as da Arábia Saudita.
Na guerra propriamente dita, os EUA tiveram número relativamente pequeno de baixas. Mas, com os con­flitos após a ocupação, até janeiro de 2006, cerca de 2,2 mil soldados norte-americanos haviam morrido no Iraque.
Tudo isso ocorre em meio a um qua­dro caótico de infra-estrutura e de abas­tecimento no país: faltam água, comida, energia e remédios. De acordo com um relatório da Comissão de Direitos Huma­nos da ONU, o índice de desnutrição aguda em crianças com menos de 5 anos dobrou desde o início da guerra.
A principal fonte de sofrimento da po­pulação iraquiana tem sido o índice altíssimo de perdas civis. Mesmo divergentes, as estimativas são todas alarmantes. Em 2004, a revista médica britâni­ca The Lancet estima que o número de mortos desde o início do conflito seja de cerca de 100 mil pessoas, incluindo no cálculo as mortes decor­rentes da degradação provocada pela guerra, como a falta de remédios. O presidente Bush, em dezembro de 2005, fala em 30 mil iraquianos mor­tos. De acordo com estimativa da ONG britânica Iraq Body Count, divulga da em janeiro de 2006, foram entre 27,8 mil e 31,3 mil.
Seja como for, a frieza dos números passa longe da sombria realidade da população iraquiana, sujeita diariamen­te a atentados cruéis. O grande proble­ma enfrentado pelas forças de seguran­ça é justamente identificar os inimigos antes que ataquem. Os rebeldes agem sem um padrão ordenado. Não consti­tuem uma organização centralizada. Os insurgentes estão entre nacionalis­tas, fundamentalistas religiosos, parti­dários de Saddam Hussein, militantes da organização terrorista Al Qaeda e muçulmanos de outros países.
Além de não estabilizar o Iraque, a ocupação dos EUA teve ainda um ter­rível efeito colateral: fortaleceu, em todo o Oriente Médio, movimentos islâ­micos fundamentalistas, que têm sido identificados como os maiores oposito­res da presença estrangeira na região. A vitória da ala mais radical dos islâmi­cos iranianos, na eleição presidencial de 2005, e a do Hamas, nas eleições palestinas de janeiro, são apontadas como exemplo disso.
Qualquer tentativa de estabilização do lraque precisa passar pelo intrincado mosaico étnico e religioso do país. A população é composta majoritariamen­te de três grupos: uma maioria de árabes xiitas, cerca de 60% dos habitantes; os ára­bes sunitas, minoria que ocupou o poder na era Saddam; e os curdos, muçulma­nos sunitas que vivem no norte e alme­jam a independência.

A maior rivalidade ocorre entre os árabes sunitas e os xiitas. Os primeiros (20% da população) sempre foram a eli­te dominante, controlando a cena polí­tica local muito antes da era Saddam, ele próprio um sunita. Alijados do poder com a ocupação externa, agora tentam garantir a maior participação possível nas decisões e a manutenção de suas prerrogativas. Mas as pretensões sunitas contam com a oposição da maioria xii­ta, que por décadas foi oprimida.
Os curdos (15% dos habitantes) batem­-se pela criação de uma nação própria, o Curdistão, que englobaria o norte do Iraque e partes da Turquia, da Síria, da Armênia e do Irã. Por ora, seus líderes se contentam com a maior autonomia para a região na qual são majoritários.

O CURDISTÃO


Em janeiro de 2005 foram realiza­das as primeiras eleições parlamentares da era pós-Saddam. Apesar das amea­ças de violência contra os eleitores e do boicote das lideranças sunitas, cerca de 8,5 milhões de pessoas votaram, mais da metade dos quase 15 milhões de eleitores inscritos. O objetivo era ele­ger os deputados para a Assembléia Nacional, encarregada de formar um governo transitório e de redigir a nova Constituição. A coalizão Aliança Ira­quiana Unida, que reúne os xiitas reli­giosos, venceu as eleições, mas não con­seguiu eleger dois terços dos parlamen­tares. Por isso, teve de negociar com outras forças para poder governar.
Após meses de impasse político, em abril, finalmente, o Parlamento chegou a uma decisão: o curdo Jalal Talabani foi eleito presidente. Para o cargo de primeiro-ministro, o posto de maior importância, foi escolhido o árabe xii­ta Ibrahim al-Jaafari.
A demora na escolha se deu pela necessidade de equilibrar os interesses dos três grupos majoritários, sobretudo os dos sunitas. Atraí-los para o novo gover­no era de vital importância para tentar enfraquecer a insurgência, pois é de suas fileiras que parte a resistência mais feroz.
Após alguns meses, uma comissão da Assembléia Nacional apresentou o pro­jeto de Constituição. O texto desagradou às lideranças sunitas, por prever a possibilidade de criação de federações autônomas dentro do Iraque, que controlariam os rendimentos obtidos com o petróleo. Os sunitas temem o desmembramento do país, com a formação de governos regionais dos curdos (no norte) e dos xiitas (no sul), ou seja, nas regiões onde se concentram as jazidas de petróleo.
O governo dos EUA interveio dire­tamente, pressionando todas as partes a aceitar a Constituição, que não foi votada formalmente pelos parlamenta­res. Um acordo fechado poucos dias antes do referendo popular sobre a Constituição, em outubro de 2005, previa que os próximos parlamentares eleitos pode­riam revisar o texto e aprovar emendas. No referendo, a Constituição foi apro­vada por 78,6% dos votantes.
Em dezembro de 2005 realizaram-se novas eleições parlamentares. A Aliança Iraquiana Unida venceu, mas sem con­seguir maioria absoluta. Obteve 128 das 275 cadeiras do Parlamento, dez a menos que a maioria. O segundo maior bloco é a Aliança do Curdistão, com 53 assentos, seguida pelo principal partido árabe sunita, a Frente de Acordo Ira­quiano, que conquistou 44 assentos.
Começou então a difícil negociação para formar o governo. Mais uma vez, o ponto central era atrair os sunitas para compor o gabinete. O presidente Bush exortou, em 10 de janeiro, as lideranças iraquianas a pôr de lado suas diferenças e formar um governo de unidade nacio­nal. Até meados de fevereiro, o governo ainda não havia sido formado.
Com o aumento da violência no Iraque, o governo norte-americano tem assistido a uma sensíve1 redução do apoio à ocupação do país, sobretudo dentro dos próprios EUA. O povo norte-americano está descontente com a morte de seus soldados. Uma pesquisa publicada pe1a revista Newsweek, em agosto de 2005, mostrou que apenas 34% dos norte-ame­ricanos concordam com a manutenção de um grande contingente no Iraque.
A falta de aprovação dentro de casa é acompanhada de igual perda no âmbi­to externo. Um fator de peso para isso foi a comprovação de que o motivo ale­gado para a invasão do Iraque - as supos­tas armas de destruição em massa de Saddam - não existia.
Diversos países retiraram ou anuncia­ram a iminente retirada das tropas que mantinham no Iraque, entre eles estão Espanha, Filipinas, Honduras, República Dominicana, Noruega, Cazaquistão, Ucrânia, Holanda, Bulgária, Polônia, Hungria e Itália.
Bush insiste em dizer que qualquer retirada não deve ser precipitada, alegan­do que, caso as tropas de ocupação saiam agora, o Iraque poderia mergulhar em uma guerra civil e se transformar em abrigo de terroristas. Para os que criti­cam Bush, o cenário descrito por ele já é vivido pelo Iraque atualmente.
Atualidades no Vestibular – 1o semestre de 2006 – Ed. Abril



c) A questão palestina

Para acompanhar as relações entre israelenses e palestinos, nos últi­mos tempos, não dá para tirar os olhos dos jornais nem da TV. Em menos de seis meses, tudo passou por grandes e profundas transformações de lado a lado. Ainda assim, permanece o impas­se. Veja os principais fatos.
1) Em agosto de 2005, Israel retirou todos os colonos judeus que viviam na Faixa de Gaza (território palestino no litoral sul de Israel) e os que ocupavam quatro das dezenas de assentamentos na Cisjordânia (território palestino). A reti­rada foi executada a mando do primei­ro-ministro Ariel Sharon, político iden­tificado com a direita israelense, que não costuma fazer nenhuma concessão aos palestinos e defende tradicionalmente a ocupação de toda a extensão atual de Israel pelo Estado judaico.
2) Sharon, em seguida, saiu de seu velho partido Likud e iria disputar - na condição de franco favorito - as eleições parlamentares de março de 2006 pela agremiação que fundou, o Kadima (que significa "avançar"). Em janeiro, porém, sofreu um derrame devastador que o dei­xou em grave risco de vida até meados de fevereiro (fechamento desta edição). Foi substituído por seu vice, Ehud Olmert. O resultado eleitoral, então, virou uma incógnita.
3) No fim de janeiro veio o abalo do lado palestino. Nas eleições parlamen­tares da Autoridade Nacional Palestina, o partido fundamentalista islâmico Hamas conquistou expressiva maioria, desbancando o partido governista Fatah, do presidente Mahmoud Abbas. O Hamas, que defende o fim do Estado de Israel, é responsável por inúmeros aten­tados contra israe­lenses e considera­do um grupo terrorista por Israel, Esta­dos Unidos (EUA) e União Européia (UE). Com esse re­sultado, ninguém sabe dizer com cer­teza se - e como ­continuarão as ne­gociações de paz.

Um breve histórico
O movimento Sionista, expressão do nacionalismo judaico,­ surgiu na Europa dos últimos anos do século XIX. A sua bandeira era o estabelecimento de um Estado para os judeus. Essa bandeira desdobrou-se na campanha pelo "retorno" à Terra Santa, através da aquisição de terras e do assentamento de imigrantes judeus na Palestina.
A imigração, organizada pelas agências do movimen­to sionista, desenvolveu-se aceleradamen­te no entre - guerras. Desde 1918, com a ruína do Império Turco-Otomano, a Pa­lestina tinha se tornado mandato britâni­co e a potência mandatária, através da De­claração Balfour (1917), havia se compro­metido a possibilitar a criação de um Esta­do judeu no território.
A colonização judaica provocou san­grentos conflitos com a população árabe nativa. Em muitos lugares, as terras adqui­ridas pelo movimento sionista estavam ocu­padas, há gerações, por pastores e campo­neses que não detinham títulos de propri­edade. As expulsões de residentes pelos novos colonos, organizados militarmente, geraram revoltas árabes que, na década de 30, desestabilizaram a Palestina. Israel, ori­ginalmente, foi uma singular colônia de povoamento européia: uma colônia criada por um movi­mento nacionalista, não por um Estado Imperial.
No final da Segunda Guerra Mundial, a revelação do Holocausto promovido pelo nazismo horrorizou a opinião pública internacional. Em 1947, a ONU decidiu encerrar o mandato britânico na Palestina e promover a partilha do território em dois Estados. A resolução contou com o apoio de Washington e Moscou, mas teve a oposição decidida dos novos Estados árabes.


O plano de partilha conduziu à guerra entre o novo Estado de Israel e uma coalizão de países árabes integrada pelo Egito, Síria, Jordânia e Iraque. A guerra de 1948-49, que terminou com a vitória de Israel, deixou como legado uma população de refugiados palestinos no Oriente Mé­dio. Os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, que seriam parte do Estado Palestino, ficaram sob a "proteção" da Jordânia e do Egito. Jerusalém foi dividida, ficando a parte ocidental da cidade sob o controle de Israel e a parte oriental, que abrange a Cidade Velha e era habitada quase exclusivamente por árabes, sob a "proteção" da Jordânia.




O Egito, sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, fez da oposição a Israel a sua principal bandeira geopolítica. Israel sintetizava, aos olhos dos árabes, a opressão colonial euro­péia e, de modo geral, a arrogância imperial do Ocidente. Nesse contexto, o Egito montou uma coligação, com a Síria e a Jordânia, que enfrentou Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Mas o desastre militar constituiu um golpe fatal nas aspirações de unidade árabe e acarretou a ocupação de territórios palestinos, sírios e egípcios.


Desde o início, o sionismo encarava toda a Palestina ­a "Terra Santa” - como o lar nacional judaico. Esse impul­so expansionista expressou-se, após a Guerra dos Seis Dias, na colonização israelense dos territórios palestinos ocupa­dos (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Leste). Os as­sentamentos iniciaram-se sob o governo do Partido Traba­lhista mas aceleraram-se, após 1977, sob o Likud. No to­tal, cerca de 190 mil colonos israelenses instalaram-se na Cisjordânia e algo como 10 mil em Gaza. Além disso, 175 mil fixaram residência na parte leste de Jerusalém.
O projeto expansionista sofre atualmente um impor­tante redirecionamento. As intifadas (revoltas palestinas) e, sobretudo, o elevado crescimento demográfico da po­pulação árabe geraram um consenso político em Israel fa­vorável à separação política e física entre o Estado judeu e um futuro Estado palestino.
Esse consenso traduz-se na estratégia israelense de defi­nição unilateral de fronteiras. A retirada de Gaza, conduzida em 2005, e a projetada anexação de partes da Cisjordânia (os maiores blocos de assentamentos e o estratégico vale do rio Jordão) configurariam as fronteiras definitivas. O "muro de segurança” na Cisjordânia, em plena edificação, destina­-se a materializar a fronteira como um front militar. Do ou­tro lado do front, sobrariam fragmentos de territórios des­conexos que, cinicamente, são apresentados como o em­brião do Estado Palestino.






Muro que separa israelenses de palestinos fica pronto em 2007
O "muro de proteção" que Israel está construindo desde 2002 sob a alegação de que a barreira impedirá o acesso de terroristas palestinos a seu território será completado em 2007. Os palestinos criticam a cons­trução e dizem que ela é uma medida sepa­ratista, mesma opinião da comunidade inter­nacional. A informação foi dada nesta ter­ça-feira pelo jornal The Jerusalem Post, que publicou uma entrevista com Danny Tírza, porta-voz do Ministério da Defesa em Tel Aviv encarregado de planejar o traçado do muro (...).
O traçado do muro provocou muita polê­mica tanto em Israel quanto no exterior, pois em vários pontos ele foi erguido sobre terri­tório palestino. O representante israelense afirmou que, no final de março, a barreira de segurança será um "obstáculo contínuo" para os terroristas e que a parte do muro que segue as "fronteiras de 1967" entre o território reconhecido de Israel e a Cisjordânia estará terminada. A construção em tomo de Jerusalém, cujo traçado é composto por três partes, terminará em meados deste ano. (...)
Calcula-se que aproximadamente 50 mil palestinos residentes nos bairros árabes peri­féricos de Jerusalém fiquem do lado pales­tino da barreira quando ela estiver finaliza­da. Outros 180 mil árabes residentes de Jerusalém ficarão do lado israelense, segun­do dados de fontes oficiais de segurança de Israel.
Tirza disse que a construção do muro de separação tem sido atrasada, em média, em nove meses pelas ações legais dos prejudi­cados pela barreira (...).
A Corte Internacional de Justiça de Haia disse que a barreira é "ilegal", contrária ao Direito Internacional, e deve ser destruí­da, e que os palestinos prejudicados devem ser indenizados. A Suprema Corte israelense ordenou mudanças no traçado da cerca por considerar que, em alguns pontos, ela violava o direito de palestinos, separando-os de suas terras de trabalho.
Folha Online, 7/2/2006


HISTÓRICO DO CONFLITO ÁRAVE-ISRAELENSE
CRONOLOGIA
1945: Criação da Organização das Nações Unidas (ONU), com o fim da Segunda Guerra Mundial.
1947: ONU divide a Palestina entre árabes e judeus. Os primeiros rejeitam a divisão.
1948/1949: Fundação de Israel, com a retirada das forças britânicas. Após a declaração de independência, países árabes invadem Israel em maio. A guerra dura até julho de 1949, com 6 mil judeus mortos e mais de 650 mil palestinos em fuga.
1956: Crise de Suez. Israel, França e Grã-Bretanha invadem o Egito.

1964: Criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat.
1967: Guerra dos Seis Dias. Israel enfrenta forças árabes no Sinai, na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, nas Colinas de Golã e em Jerusalém Oriental, recuperando o Muro das Lamentações.As conquistas no conflito multiplicam por três o tamanho original de Israel.

1973: Guerra do Yom Kippur. Ajudadas pela Síria, forças do Egito atacam Israel. O Estado judeu é apanhado de surpresa, mas se recupera e triunfa no conflito.

1977: Em novembro, o então presidente do Egito, Anwar Sadat, visita Jerusalém, abrindo caminho para o Acordo de Camp David.
1978: Acordo de paz de Camp David é assinado entre Israel e Egito.
1982: Israel invade o Sul do Líbano. Em setembro, ocorre o massacre no campo de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, em Beirute. Milícias cristãs libanesas, com a anuência das forças de Israel, chacinam 1.800 muçulmanos. À época, Ariel Sharon era ministro da Defesa israelense.

1987 a 1993: Período da Intifada, revolta palestina contra a ocupação de seus territórios pelo Exército israelense.
1993: Encontro histórico entre o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, e o premier israelense à época, Yitzhak Rabin. O encontro põe fim à Intifada e confere aos dois, juntamente com o então chanceler israelense, Shimon Peres, o prêmio Nobel da Paz. São assinados os Acordos de Oslo, que estabelecem um cronograma para a retirada israelense de Cisjordânia e Faixa de Gaza.

1995: Rabin é assassinado por um judeu fanático e contrário aos Acordos de Oslo.



2000: É iniciada a nova Intifada, a segunda fase do levante palestino contra a ocupação de seus territórios por forças de Israel. A revolta, que já provocou a morte de 3.503 palestinos e 956 israelenses, continua até os dias atuais.
2001: Sharon é Primeiro-ministro de Israel. Em dezembro, Yasser Arafat é confinado por Israel na sede da Autoridade Nacional Palestina, em Ramallah, na Cisjordânia.

2002: Começa a construção do muro na Cisjordânia.
2003: Em abril, o mapa da paz, plano de pacificação do Oriente Médio, foi apresentado a autoridades palestinas em israelenses pelo quarteto internacional composto por EUA, União Européia, Rússia e ONU. Aceito pelas duas partes, o mapa da paz marcou pela primeira vez na História a aceitação por parte do Estado judeu o princípio de existência de um Estado palestino, cuja criação, segundo o plano, estava prevista para 2005.
2003/2004: Com o fracasso do mapa da paz, o governo de Ariel Sharon decide adotar uma solução unilateral para o conflito. A partir de 2003, cercas isolam a Cisjordânia e estabelece-se um plano para a retirada de tropas e colonos judaicos da Faixa de Gaza e de regiões cisjordanas, aprovado finalmente no Parlamento israelense em outubro de 2004.

2004: Morre Yasser Arafat.

2005: Muhmud Abbas é eleito presidente da ANP. Israel remove os assentamentos de Gaza e quatro da Cisjordânia. Sharon abandona o Likud e funda um novo partido, o Kadima.

2006: Sharon sofre um derrame em janeiro e é afastado do governo. O Kadima, partido de Sharon, vence as eleições de março, o primeiro-ministro passa a ser Ehud Olmert. Nas eleições parlamentares palestinas, o Hamas obtém inesperada vitória contra o Fatah, partido de Abbas.

AS DUAS MURALHAS DA PALESTINA

Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, o cenário político do país foi domi­nado por dois grandes partidos: o Traba­lhista, de centro-esquerda, e a Direita con­servadora, que acabou se agrupando ao Likud. Hoje, porém, há um só grande "partido" político no país, chamado Ariel Sharon, primeiro-ministro afastado por conta de um acidente vascular cerebral (AVC) e que, em meados de fevereiro de 2006, os­cilava entre a vida e a morte.
Vivo ou morto, porém, Sharon deverá continuar dando as cartas na política israe­lense por meio de seu novo partido, o Kadima (Avante, em hebraico), que foi o grande vencedor das eleições parlamentares em março de 2006. Esse “dar as cartas” tem como eixo a imposição de um plano de de­volução de parte da Cisjordânia e fixação unilateral das fronteiras de Israel. Uma im­posição, claro, aos palestinos, que exigem a devolução de toda a Cisjordânia, assim como de Jerusalém Oriental, territórios ocupados por Israel em 1967. Mas, uma imposição também para parte da sociedade israelense, que é contrária a concessões aos palestinos, principalmente após a vitória eleitoral do Hamas.
Jornal Mundo – Geografia e Política Internacional, março de 2006.


O HAMAS NO PODER!
Um paradoxo assola o Oriente Médio: o paradoxo democrático. A surpreendente e esmagadora vitória do grupo fundamentalista Hamas (acrônimo, em árabe, de Movi­mento de Resistência Islâmica) nas eleições para o Parlamento palestino, em janeiro de 2006, foi o mais contundente golpe na política americana de "exportar" a democracia para o Oriente Médio como forma de estabilizar a região e combater o terrorismo.
Antes da vitória do Hamas, o fracasso dessa faceta da Doutrina Bush já era evidente em toda a região. Foi o caso do Iraque, que os Estados Unidos invadiram em 2003 para derrubar o regime de Saddam Hussein. Desde então, a guerra civil engolfou o país, transformando-o em centro de treinamento de terroristas da Al-Qaeda, que se aliaram à insurgência sunita local em luta contra a ocupação. Para piorar, as eleições de dezembro consagraram os setores xiitas mais comprometidos com a implantação de um Estado islâmico.
Na Arábia Saudita, que sob pressão adotou um arremedo quase risível de aber­tura política permitindo eleições municipais, saíram fortalecidos os wahabitas, a seita puritana que representa o setor mais duro da teocracia saudita. No Líbano, o grupo terrorista Hezbollah, representando a comunidade xiita, ganhou força políti­ca no Parlamento. Finalmente, na ditadura secular do Egito, reformas limitadas levaram a Irmandade Muçulmana - a fonte histórica do fundamentalismo islâmico contemporâneo - a conquistar 88 das 150 cadeiras no Parlamento.
Mas considerações geopolíticas certamente pesaram pouco nos motivos que leva­ram a maioria do eleitorado palestino a depositar suas esperanças no grupo responsá­vel pelos mais sangrentos atentados terroristas em Israel. Cansados de serem liderados por uma organização inepta e corrupta até o último fio de cabelo - a Fatah de Yasser Arafat -, os palestinos resolveram dar uma chance aos incorruptíveis do Hamas.
O Hamas tem uma história curiosa. Suas raízes remontam aos anos 70, com a formação da Irmandade Muçulmana na Faixa de Gaza, sob os auspícios da Arábia Saudita e o olhar benevolente de Israel, que buscava uma alternativa religiosa e filan­trópica ao nacionalismo da OLP. Mas o Hamas saiu do ovo em 1988, entre as pedras da primeira intifada (revolta palestina), sob uma configuração muito mais radical, defendendo a destruição de Israel e a formação de um Estado islâmico em toda a Palestina. O grupo se opôs violentamente aos acordos de Oslo de 1993, que permiti­ram o surgimento da Autoridade Nacional Palestina (ANP), lançando mão de san­grentos atentados suicidas contra civis israelenses ao longo dos últimos dez anos.
Contudo, ao mesmo tempo, o Hamas nunca abandonou sua vocação filantró­pica original e, com fundos recebidos do Irã, de palestinos no exílio e de outros Estados árabes, sustenta uma extensa rede de proteção social aos palestinos em Gaza e na Cisjordânia, como hospitais, creches e escolas. Nos últimos tempos, os palesti­nos puderam avaliar algumas administrações municipais conquistadas pelo Hamas, um vivo contraste com as depravadas prefeituras dirigidas pelos herdeiros de Arafat do grupo Fatah, que dirigia a ANP.
Apesar do espanto inicial e da tentativa de punir o "desatino" dos palestinos com o boicote econômico, os Estados Unidos, a União Européia e mesmo Israel se convence­ram de que não há outra alternativa senão engolir a seco a vitória do Hamas e esperar para ver. A opção de destruir a ANP não faz parte do cardápio político das correntes políticas dominantes em Israel, pois a conseqüência seria o retorno das tropas israelenses ao conjunto dos territórios ocupados e a retomada da repressão direta aos palestinos, num quadro de radicalização e conflitos sangrentos.
Os americanos, os europeus e os israelenses definiram uma estratégia transitó­ria. Eles pressionam por algum tipo de coalizão entre o Hamas e o Fatah e, ao mesmo tempo, exigem que o Hamas reconheça o Estado de Israel e renuncie à vio­lência. No horizonte de curto prazo, nada disso acontecerá. O Hamas, eleito pela maioria esmagadora dos palestinos, cometeria suicídio político se desistisse, a troco de nada, das suas posições tradicionais. Mas, e num horizonte mais largo?
As eleições de março de 2006 em Israel foram vencidas pelo Kadima, o novo partido dissidência formado por Ariel Sharon, que agrupou uma vasta dissidência do Likud e alguns líderes históricos do Partido Trabalhista como, principalmente, Shimon Peres. O Kadima, sob o comando de Ehud Olmert, segue a linha definida por Sharon: uma "paz sem parceiros", ou seja, a definição unilateral das fronteiras definitivas na Palestina e a separação física entre Israel e os palestinos. Como responderá o Hamas aos fatos consumados impostos por essa estratégia? Escolherá a via do confronto, pela retomada de ações terroristas ou pela organiza­ção da resistência popular armada?
O conceituado jornal israelense Haaretz preferiu conjeturar em outra direção. Ele sugeriu que o Hamas poderia repetir a trajetória do Likud - uma organização com passado terrorista e uma plataforma radical, de anexação de toda a Terra Santa, que, pouco depois de chegar ao poder, em 1977, fez a paz com o Egito, então um dos piores inimigos de Israel. Paz entre Israel e o Hamas? Quem viver verá.
O certo é que a Doutrina Bush vai de fracasso em fracasso. A visão de um Iraque estável, pró-americano, e de uma Palestina sob controle dos confiáveis herdeiros de Arafat dissolveu-se sob o impacto do voto de iraquianos e palestinos. Além disso, com a vitória do Hamas, a Palestina voltou a ocupar o lugar central do tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. É tudo o que Washington não queria.

Cláudio Camargo, jornalista e sociólogo, e editor internacional da Revista Isto É.
Março de 2006 / texto adaptado.

Foi uma retirada unilateral semelhan­te - da Faixa de Gaza, em 2005 - que con­solidou Sharon como o estadista israelen­se mais forte das últimas quatro décadas e permitiu a criação do Kadima, logo trans­formado em peça-chave do tabuleiro po­lítico. Isso porque Sharon, primeiro-mi­nistro do Likud em uma coalizão com os trabalhistas, não tinha o apoio de seu par­tido para retirar as tropas israelenses de Gaza. Em uma manobra ousada, Sharon deixou o Likud e fundou o Kadima ao lado de outros ministros, com destaque para o veterano trabalhista Shimon Peres, que havia perdido o comando de seu partido.
A retirada de Gaza reduziu a intensida­de de atentados terroristas, trazendo um pouco de paz a Israel, após anos de turbu­lências. Coisa que nem os trabalhistas ­autores da mais ousada proposta de paz aos palestinos, incluindo sua soberania parcial sobre setores de Jerusalém - nem o Likud, com sua política linha-dura - haviam con­seguido. Esse sopro de paz explica a força de Sharon, vivo ou morto, e de seu parti­do. "Sharon é o único capaz de fazer a paz", afirmou Shimon Peres, ele mesmo derro­tado pela estagnação das negociações com a Autoridade Nacional Palestina (ANP).
A vitória do Kadima nas urnas representou um sinal verde is­raelenses à política de devolver parcelas da Cisjordânia, enquanto se prepara a ane­xação de fato do Vale do Jordão, onde es­tão as fontes de água e as terras mais fér­teis da região, assim como a maioria das colônias que alojam cerca de 200 mil isra­elenses. A desocupação certamente viria acompanhada de protestos dos colonos judeus de extrema-direita, assim como pelo fim de qualquer conversa sobre de­volver Jerusalém Oriental, de maioria ára­be, selando - com sólidos muros de con­tenção - as novas e picotadas fronteiras de um futuro Estado palestino. Um rela­tório recente, elaborado pelo consulado da Grã-Bretanha em Jerusalém Oriental (e que a União Européia rejeitou como "ex­cessivamente unilateral"), acusa Israel de já estar anexando terras árabes próximas à cidade milenar e afirma: "quando o muro estiver concluído, Israel irá controlar to­dos os acessos a Jerusalém Oriental, iso­lando-a das cidades satélites palestinas de Belém e Ramallah, assim como da Cisjor­dânia”.
As fontes da estratégia do Kadima en­contram-se na dinâmica demográfica na Palestina. O crescimento vegetativo mui­to mais elevado da população árabe cria­rá, em pouco tempo, uma maioria demográfica palestina no conjunto forma­do por Israel, pela Cisjordânia e pela Fai­xa de Gaza. Israel não tem alternativas se­não promover a fixação definitiva de fron­teiras entre o Estado judeu e um Estado palestino ou engajar-se na missão inviável de assegurar o poder da minoria judaica sobre a maioria árabe. É essa razão estra­tégia que uniu Sharon a Peres.
Com o Kadima e sua solução unilate­ral comandando Israel, e o Hamas, que não reconhece o Estado judeu, à frente da ANP, a paz parece perdida nas brumas de um futuro improvável. É como se duas muralhas, construídas com os tijolos da ideologia e do ódio, impedissem o diálo­go. Mas, no Oriente Médio, quase nada é o que parece. Em artigo recente, publica­do no diário israelense Haaretz, o analista, Aluf Benn observa uma semelhança mui­to interessante entre o Kadima e o Hamas. Os dois têm planos ideológicos de longo prazo: o Kadima almeja anexar de vez par­te da Cisjordânia, assim como Jerusalém Oriental; o Hamas pretende varrer Israel do mapa. Mas os dois demonstram sinais de pragmatismo que poderão conduzir a acordos transitórios que durem muito tempo, talvez até o amadurecimento de gerações menos rancorosas, dos dois lados.
Afinal, Sharon, o general linha-dura que defendia o Grande Israel, incluindo quase todos os territórios palestinos, ter­minou desocupando Gaza de forma uni­lateral. E o Hamas, apesar da retórica e dos homens-bomba, admite uma hudnah, uma trégua de longo prazo com o inimi­go. De acordo com a lógica própria do Oriente Médio, Kadima e o Hamas poderi­am dar o primeiro passo para que seus pla­nos finais (o Grande Israel ou os judeus atirados ao mar) evaporem silenciosamen­te ao longo dos anos, sob o sol do deserto.
Não por acaso, o analista Bradley Burston afirmava com bom humor, em recente artigo no jornal The Jerusalém Post: "Se você quer o Grande Israel, vote na esquerda”. Sim, porque foram os trabalhis­tas (e não a direita) os responsáveis pelo início da colonização judaica nos territó­rios palestinos ocupados na Guerra dos Seis Dias (1967). Quem planejou as pri­meiras 16 colônias foi Israel Galili, um socialista. Na mão oposta, um primeiro-ministro ultra­conservador, Menahem Begin, devolveu ao Egito a península do Sinai, ocupada por Israel em 1967. Sharon, outro direitista, deixou Gaza. E seu sucessor, o ex-ministro das Finanças, Ehud Olmert, quer sair já de partes da Cisjor­dânia. Começando por Hebron, onde, diz­ se, está enterrado um patriarca de judeus e muçulmanos: Abraão/Ibrahim, confor­me a preferência. E onde 400 colonos ju­deus de ultradireita vivem, protegidos por forças militares, entre 120 mil palestinos.
A sombra de Sharon poderia, portan­to, empurrar o Kadima a uma curiosa aproximação com o Hamas em uma situ­ação de "nem guerra nem paz", onde Israel e a Palestina se tolerem. Ou não - e nesse caso a violência explodiria com mais força do que nunca, em meio a um Oriente Médio desestabilizado pela Doutrina Bush e pelo avanço dos fundamentalistas.

Jornal Mundo – Março de 2006 (adaptado)

Quem foi Ariel Sharon?
Da indecisão ideológica ao personalismo político
Mesmo que se recupere, dificilmente a carreira política de Ariel Sharon sobreviverá ao segundo acidente vascular em menos de três semanas. Aos 77 anos, o Trator pode estar encerrando quase seis décadas de luta, armada ou política, em nome de Israel, como uma das figuras mais importantes e polêmicas da História do país.
Após participar, com crescente importância, em ações militares desde antes da criação de Israel e nas cinco guerras do país, Sharon entrou na política de forma tão controvertida.

Durante a década de 1950, recusou-se a seguir o Herut, partido nacionalista radical. Na juventude, tinha preferência pelo Mapai, partido sionista-socialista que em 1968 se uniria ao Partido Trabalhista.
Apesar de sua coragem nos campos de batalha, sua indisciplina e seu ideário político radical tornaram sua permanência no Exército insustentável. O conturbado momento de Israel e o fato de Sharon ser considerado por muitos na época um herói de guerra fizeram com que ele fosse figura fundamental na criação do Likud, então um bloco de direita unindo o Herut e os liberais, em 1973.
Ele foi eleito deputado em 1973, mas, dizendo estar cansado da vida política, renunciou um ano depois. Entre 1975 e 1976, foi assessor do premier trabalhista Yitzhak Rabin. Mas com a aproximação das eleições de 1977, tentou voltar ao Likud tirando Menachen Begin da liderança. Não foi aceito e tentou entrar no Partido Trabalhista e no centrista Dash, sendo recusado. Fundou, então, seu próprio partido, o Shlomtzion, e conquistou dois deputados. Depois da eleição, uniu-se ao vencedor Likud e assumiu o Ministério da Agricultura.
Em 1982, como ministro da Defesa, comandou a invasão do Líbano, segundo críticos fazendo isso sem revelar ao premier Begin a real extensão da movimentação militar. Foi acusado de ser responsável por tornar possível o massacre de palestinos por milicianos cristãos maronitas em Sabra e Chatila, vilarejos que estavam cercados por tropas de Israel.
Perdeu o cargo na Defesa, mas, entre 1983 e 1998, foi ministro de Comércio e Indústria, Habitação e Infra-Estrutura, tendo como prioridade a construção de assentamentos judeus.
Sharon só assumiria a liderança do Likud em 1999. Sua principal plataforma política era não negociar com os palestinos, com especial ódio ao líder da OLP Yasser Arafat.
Em 2000, Sharon visitou a Esplanada das Mesquitas, um dos locais mais sagrados para muçulmanos e judeus e evitado por políticos. O aumento da violência gerou um forte sentimento de insegurança que, segundo analistas, beneficiou Sharon que, aos 73 anos, foi eleito premier em 2001.
No poder, aproveitou o 11 de Setembro para angariar apoio na luta contra o terror palestino, aliando-se a Bush e alijando Arafat das negociações. Construiu a barreira entre Israel e Cisjordânia. Por outro lado, ordenou a retirada de colonos e militares da Faixa de Gaza. E, para se livrar da oposição do Likud, fundou outro partido, o Kadima.
O grande falcão tornara-se uma pomba? Ou tudo não passava de realpolitik de um estadista que chegou à conclusão que sua idéia de vencer militarmente os árabes não é suficiente diante da força do crescimento demográfico da maioria não judaica no território almejado por Israel? Com a saída do Trator da cena política, Israel nunca saberá.
O GLOBO, 06 de janeiro de 2006

Um comentário:

Anônimo disse...

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