Oriente Médio: um espaço de conflitos
a) Localização
O Oriente Médio, ou Ásia ocidental, caracteriza-se antes de tudo pela sua função histórica de corredor entre três continentes: Ásia, Europa e África. O Mar Vermelho constitui o limite ocidental do Oriente Médio, que está conectado à África através da Península do Sinai. Os mares Mediterrâneo e Negro, ligados pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, formam os limites setentrionais do Oriente Médio. Os estreitos separam as duas porções do território da Turquia, como mostra a figura a seguir.
b) A geopolítica do petróleo
O PETRÓLEO NO GOLFO PÉRSICO
A geopolítica dos países do Golfo organiza-se em torno do petróleo. A exploração das jazidas iniciou-se na década de 1920, sob o comando de companhias transnacionais britânicas, norte-americanas e francesas. A estabilidade dos países da área e a garantia de suprimentos de petróleo para o mundo desenvolvido representam um dos vetores da política internacional contemporânea.
Na margem ocidental do Golfo localizam-se a Arábia Saudita (desempenha as funções geopolíticas de liderança) e os pequenos Estados petrolíferos litorâneos. Nesses países, o poder político é controlado por dinastias islâmicas conservadoras, sustentadas pelas rendas do petróleo e associadas às potências ocidentais.
O Iraque e o Irã ocupam as margens setentrional e oriental do Golfo. O Iraque nasceu do desmembramento do Império Turco e permaneceu, até 1958, sob regime monárquico pró-ocidental. A república, instalada por um golpe militar nacionalista, sofreu forte influência da ideologia pan-arabista. No Irã, a monarquia do xá Reza Pahlevi rompeu com as tradições islâmicas e promoveu campanhas ocidentalizantes, até a insurreição que conduziu o clero xiita ao poder.
O Iraque, nacionalista e acalentando o projeto da unidade árabe, entrou em conflito com o Irã, que sonhava com a difusão da revolução islâmica. A guerra eclodiu em 1980, precipitada por uma disputa de fronteira. Durou até 1988, sem alterar as fronteiras, mas arrasando os dois países. Calcula-se que cerca de 700 mil pessoas morreram na guerra.
Os países exportadores do Golfo colocaram a extração do petróleo sob controle de companhias nacionais entre as décadas de 1950 e 1970. Em 1960, foi criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). A OPEP destinava-se a transferir o poder de fixar os preços do petróleo para os países exportadores. A estratégia consistia em estabelecer cotas máximas de produção para os países integrantes, de modo a regular a oferta mundial do produto.
O primeiro "choque de preços" do petróleo utilizou como pretexto a Guerra do Yom Kippur (1973). Reagindo ao apoio dos Estados Unidos a Israel, os países árabes da OPEP conseguiram aprovar uma brusca redução nas cotas de produção, deflagrando súbito aumento de preços. O barril de petróleo saltou de cerca de 3 dólares para cerca de 12 dólares. O segundo "choque de preços" ocorreu logo após a Revolução Iraniana, em 1979. O barril de petróleo ultrapassou, então, a marca de 30 dólares.
Os "choques do petróleo" atingiram pesadamente a economia mundial, provocando inflação nos países ricos e desequilibrando a balança comercial de diversos países importadores. Ao mesmo tempo, geraram extraordinário fluxo de rendas petrolíferas para as elites econômicas dos países exportadores. No Golfo Pérsico, as rendas do petróleo consolidaram o poder da monarquia saudita e financiaram o Iraque e o Irã no seu esforço de guerra.
Os países desenvolvidos reagiram à escalada dos preços do petróleo com a pesquisa e prospecção de novos campos petrolíferos, localizados fora da área da OPEP. A exploração de jazidas situadas sob águas profundas tornou-se economicamente viável, em função dos elevados preços do barril. Assim, passaram a ser exploradas bacias em várias partes do mundo. Além disso, os países importadores engajaram-se na diversificação das fontes energéticas, reabrindo minas de carvão e implantando usinas nucleares.
A revolução tecnocientífica contribuiu decisivamente para a eficiência energética. A produção de riquezas, especialmente nos países desenvolvidos, cresce em ritmo muito mais acelerado que a expansão do consumo de energia. A partir de meados da década de 1980, os preços do barril de petróleo começaram a declinar acentuadamente. Entre os membros da OPEP, a redução das rendas petrolíferas aprofundou as divergências sobre a distribuição de cotas de produção.
Nesse contexto, em 1990, o Iraque promoveu uma invasão militar do Kuwait e declarou que o anexaria permanentemente. A iniciativa do regime nacionalista do lraque alarmou os países desenvolvidos. Temia-se o súbito aumento do controle iraquiano sobre as reservas petrolíferas do Golfo e, sobretudo, o prosseguimento da ação militar, desta vez contra a Arábia Saudita.
Os Estados Unidos reagiram articulando uma ampla coalizão internacional, formada por aliados europeus e países árabes (como o Egito, a Arábia Saudita e até a Síria), para expulsar o Iraque do Kuwait. Na Guerra do Golfo, breve e violenta, uma devastadora campanha de bombardeios aéreos e uma ofensiva final terrestre destruíram a estrutura militar do lraque e expulsaram as tropas invasoras do Kuwait.
Desde a Guerra do Golfo, os Estados Unidos estabeleceram uma ostensiva presença militar na região. Centros de comando e bases aéreas foram implantados ou modernizados na Arábia Saudita, no Kuwait, em Barein e Catar. As instalações operadas pelos Estados Unidos nesses países tornaram-se o núcleo de uma engrenagem estratégica destinada a preservar a estabilidade dos Estados da Península Arábica.
A engrenagem militar norte-americana revela o valor estratégico dos campos de petróleo e das rotas de navios petroleiros no Golfo. Mas essa engrenagem tem provocado a reação de organizações e grupos fundamentalistas, que não admitem a presença de militares estrangeiros em terras muçulmanas.
IRAQUE: CENÁRIO DE VIOLÊNCIA, TERROR E MORTE
Mesmo com a ocupação estrangeira ocorrida há três anos, o país ainda vive um cotidiano de guerra civil.
O Iraque viveu em 5 de janeiro de 2006 um triste dia típico: atentados suicidas, ataques contra peregrinos xiitas e conflitos com tropas norte-americanas. Nesse triste cotidiano do país, essa data se destacou porque o número de mortos, 130, foi um dos mais elevados de todo o período da guerra.
Três anos depois que os soldados dos Estados Unidos (EUA) e do Reino Unido - à frente de uma coalizão - invadiram e ocuparam o país, vê-se que a guerra não só continua como também está mais feroz. Diariamente, a insurgência contra a presença estrangeira se expressa em atentados terroristas, que têm custado a vida de milhares de pessoas. De 2003 para cá, de acordo com os cálculos mais conservadores, morreram em média mil civis por mês.
O presidente norte-americano, George W. Bush, porém, continua a defender a presença das tropas de seu país e reafirma a posição do governo de não deixar o Iraque até que haja uma vitória final. Os EUA mantêm no país quase 140 mil soldados. A eles se somam 22 mil militares de outras nações, entre as quais a de maior contingente é o Reino Unido.
A guerra teve origem na suspeita, dos EUA e do Reino Unido, de que o presidente iraquiano Saddam Hussein escondia armas de destruição em massa. Para Bush, o ataque ao país era também parte da "guerra contra o terror".
No início de 2003, os EUA e o Reino Unido pressionaram a Organização das Nações Unidas (ONU) a aprovar o uso da força para desarmar o Iraque, mas enfrentaram a resistência de outros países - particularmente da França e da Alemanha. Os norte-americanos e os britânicos decidiram então atacar unilateralmente, mesmo sem o respaldo da ONU. Em 19 de março iniciaram a guerra e, em apenas um mês, derrubaram o regime de Saddam, que foi preso e está sendo julgado.
Os combates entre Exércitos acabaram, mas os soldados norte-americanos, ocupando um país estranho, ainda são alvos de uma intensa campanha de atentados e ações guerrilheiras. A resistência armada voltou-se também contra as tropas aliadas, as organizações internacionais e os civis iraquianos que colaboram com as tropas de ocupação, como a nova polícia. Vários jornalistas estrangeiros, diplomatas e cidadãos estrangeiros foram seqüestrados e mortos.
Além de enfrentar pesadas baixas de iraquianos e de soldados da coalizão, o governo Bush não encontrou no Iraque as armas de destruição em massa que foram a justificativa para o conflito. Na opinião de muitos críticos da política de Bush, o verdadeiro motivo da invasão era o acesso ao petróleo, insumo fundamental para a economia norte-americana e do mundo. A guerra garantiria o controle das reservas petrolíferas do Iraque, menores apenas que as da Arábia Saudita.
Na guerra propriamente dita, os EUA tiveram número relativamente pequeno de baixas. Mas, com os conflitos após a ocupação, até janeiro de 2006, cerca de 2,2 mil soldados norte-americanos haviam morrido no Iraque.
Tudo isso ocorre em meio a um quadro caótico de infra-estrutura e de abastecimento no país: faltam água, comida, energia e remédios. De acordo com um relatório da Comissão de Direitos Humanos da ONU, o índice de desnutrição aguda em crianças com menos de 5 anos dobrou desde o início da guerra.
A principal fonte de sofrimento da população iraquiana tem sido o índice altíssimo de perdas civis. Mesmo divergentes, as estimativas são todas alarmantes. Em 2004, a revista médica britânica The Lancet estima que o número de mortos desde o início do conflito seja de cerca de 100 mil pessoas, incluindo no cálculo as mortes decorrentes da degradação provocada pela guerra, como a falta de remédios. O presidente Bush, em dezembro de 2005, fala em 30 mil iraquianos mortos. De acordo com estimativa da ONG britânica Iraq Body Count, divulga da em janeiro de 2006, foram entre 27,8 mil e 31,3 mil.
Seja como for, a frieza dos números passa longe da sombria realidade da população iraquiana, sujeita diariamente a atentados cruéis. O grande problema enfrentado pelas forças de segurança é justamente identificar os inimigos antes que ataquem. Os rebeldes agem sem um padrão ordenado. Não constituem uma organização centralizada. Os insurgentes estão entre nacionalistas, fundamentalistas religiosos, partidários de Saddam Hussein, militantes da organização terrorista Al Qaeda e muçulmanos de outros países.
Além de não estabilizar o Iraque, a ocupação dos EUA teve ainda um terrível efeito colateral: fortaleceu, em todo o Oriente Médio, movimentos islâmicos fundamentalistas, que têm sido identificados como os maiores opositores da presença estrangeira na região. A vitória da ala mais radical dos islâmicos iranianos, na eleição presidencial de 2005, e a do Hamas, nas eleições palestinas de janeiro, são apontadas como exemplo disso.
Qualquer tentativa de estabilização do lraque precisa passar pelo intrincado mosaico étnico e religioso do país. A população é composta majoritariamente de três grupos: uma maioria de árabes xiitas, cerca de 60% dos habitantes; os árabes sunitas, minoria que ocupou o poder na era Saddam; e os curdos, muçulmanos sunitas que vivem no norte e almejam a independência.
A maior rivalidade ocorre entre os árabes sunitas e os xiitas. Os primeiros (20% da população) sempre foram a elite dominante, controlando a cena política local muito antes da era Saddam, ele próprio um sunita. Alijados do poder com a ocupação externa, agora tentam garantir a maior participação possível nas decisões e a manutenção de suas prerrogativas. Mas as pretensões sunitas contam com a oposição da maioria xiita, que por décadas foi oprimida.
Os curdos (15% dos habitantes) batem-se pela criação de uma nação própria, o Curdistão, que englobaria o norte do Iraque e partes da Turquia, da Síria, da Armênia e do Irã. Por ora, seus líderes se contentam com a maior autonomia para a região na qual são majoritários.
O CURDISTÃO
Em janeiro de 2005 foram realizadas as primeiras eleições parlamentares da era pós-Saddam. Apesar das ameaças de violência contra os eleitores e do boicote das lideranças sunitas, cerca de 8,5 milhões de pessoas votaram, mais da metade dos quase 15 milhões de eleitores inscritos. O objetivo era eleger os deputados para a Assembléia Nacional, encarregada de formar um governo transitório e de redigir a nova Constituição. A coalizão Aliança Iraquiana Unida, que reúne os xiitas religiosos, venceu as eleições, mas não conseguiu eleger dois terços dos parlamentares. Por isso, teve de negociar com outras forças para poder governar.
Após meses de impasse político, em abril, finalmente, o Parlamento chegou a uma decisão: o curdo Jalal Talabani foi eleito presidente. Para o cargo de primeiro-ministro, o posto de maior importância, foi escolhido o árabe xiita Ibrahim al-Jaafari.
A demora na escolha se deu pela necessidade de equilibrar os interesses dos três grupos majoritários, sobretudo os dos sunitas. Atraí-los para o novo governo era de vital importância para tentar enfraquecer a insurgência, pois é de suas fileiras que parte a resistência mais feroz.
Após alguns meses, uma comissão da Assembléia Nacional apresentou o projeto de Constituição. O texto desagradou às lideranças sunitas, por prever a possibilidade de criação de federações autônomas dentro do Iraque, que controlariam os rendimentos obtidos com o petróleo. Os sunitas temem o desmembramento do país, com a formação de governos regionais dos curdos (no norte) e dos xiitas (no sul), ou seja, nas regiões onde se concentram as jazidas de petróleo.
O governo dos EUA interveio diretamente, pressionando todas as partes a aceitar a Constituição, que não foi votada formalmente pelos parlamentares. Um acordo fechado poucos dias antes do referendo popular sobre a Constituição, em outubro de 2005, previa que os próximos parlamentares eleitos poderiam revisar o texto e aprovar emendas. No referendo, a Constituição foi aprovada por 78,6% dos votantes.
Em dezembro de 2005 realizaram-se novas eleições parlamentares. A Aliança Iraquiana Unida venceu, mas sem conseguir maioria absoluta. Obteve 128 das 275 cadeiras do Parlamento, dez a menos que a maioria. O segundo maior bloco é a Aliança do Curdistão, com 53 assentos, seguida pelo principal partido árabe sunita, a Frente de Acordo Iraquiano, que conquistou 44 assentos.
Começou então a difícil negociação para formar o governo. Mais uma vez, o ponto central era atrair os sunitas para compor o gabinete. O presidente Bush exortou, em 10 de janeiro, as lideranças iraquianas a pôr de lado suas diferenças e formar um governo de unidade nacional. Até meados de fevereiro, o governo ainda não havia sido formado.
Com o aumento da violência no Iraque, o governo norte-americano tem assistido a uma sensíve1 redução do apoio à ocupação do país, sobretudo dentro dos próprios EUA. O povo norte-americano está descontente com a morte de seus soldados. Uma pesquisa publicada pe1a revista Newsweek, em agosto de 2005, mostrou que apenas 34% dos norte-americanos concordam com a manutenção de um grande contingente no Iraque.
A falta de aprovação dentro de casa é acompanhada de igual perda no âmbito externo. Um fator de peso para isso foi a comprovação de que o motivo alegado para a invasão do Iraque - as supostas armas de destruição em massa de Saddam - não existia.
Diversos países retiraram ou anunciaram a iminente retirada das tropas que mantinham no Iraque, entre eles estão Espanha, Filipinas, Honduras, República Dominicana, Noruega, Cazaquistão, Ucrânia, Holanda, Bulgária, Polônia, Hungria e Itália.
Bush insiste em dizer que qualquer retirada não deve ser precipitada, alegando que, caso as tropas de ocupação saiam agora, o Iraque poderia mergulhar em uma guerra civil e se transformar em abrigo de terroristas. Para os que criticam Bush, o cenário descrito por ele já é vivido pelo Iraque atualmente.
Atualidades no Vestibular – 1o semestre de 2006 – Ed. Abril
c) A questão palestina
Para acompanhar as relações entre israelenses e palestinos, nos últimos tempos, não dá para tirar os olhos dos jornais nem da TV. Em menos de seis meses, tudo passou por grandes e profundas transformações de lado a lado. Ainda assim, permanece o impasse. Veja os principais fatos.
1) Em agosto de 2005, Israel retirou todos os colonos judeus que viviam na Faixa de Gaza (território palestino no litoral sul de Israel) e os que ocupavam quatro das dezenas de assentamentos na Cisjordânia (território palestino). A retirada foi executada a mando do primeiro-ministro Ariel Sharon, político identificado com a direita israelense, que não costuma fazer nenhuma concessão aos palestinos e defende tradicionalmente a ocupação de toda a extensão atual de Israel pelo Estado judaico.
2) Sharon, em seguida, saiu de seu velho partido Likud e iria disputar - na condição de franco favorito - as eleições parlamentares de março de 2006 pela agremiação que fundou, o Kadima (que significa "avançar"). Em janeiro, porém, sofreu um derrame devastador que o deixou em grave risco de vida até meados de fevereiro (fechamento desta edição). Foi substituído por seu vice, Ehud Olmert. O resultado eleitoral, então, virou uma incógnita.
3) No fim de janeiro veio o abalo do lado palestino. Nas eleições parlamentares da Autoridade Nacional Palestina, o partido fundamentalista islâmico Hamas conquistou expressiva maioria, desbancando o partido governista Fatah, do presidente Mahmoud Abbas. O Hamas, que defende o fim do Estado de Israel, é responsável por inúmeros atentados contra israelenses e considerado um grupo terrorista por Israel, Estados Unidos (EUA) e União Européia (UE). Com esse resultado, ninguém sabe dizer com certeza se - e como continuarão as negociações de paz.
Um breve histórico
O movimento Sionista, expressão do nacionalismo judaico, surgiu na Europa dos últimos anos do século XIX. A sua bandeira era o estabelecimento de um Estado para os judeus. Essa bandeira desdobrou-se na campanha pelo "retorno" à Terra Santa, através da aquisição de terras e do assentamento de imigrantes judeus na Palestina.
A imigração, organizada pelas agências do movimento sionista, desenvolveu-se aceleradamente no entre - guerras. Desde 1918, com a ruína do Império Turco-Otomano, a Palestina tinha se tornado mandato britânico e a potência mandatária, através da Declaração Balfour (1917), havia se comprometido a possibilitar a criação de um Estado judeu no território.
A colonização judaica provocou sangrentos conflitos com a população árabe nativa. Em muitos lugares, as terras adquiridas pelo movimento sionista estavam ocupadas, há gerações, por pastores e camponeses que não detinham títulos de propriedade. As expulsões de residentes pelos novos colonos, organizados militarmente, geraram revoltas árabes que, na década de 30, desestabilizaram a Palestina. Israel, originalmente, foi uma singular colônia de povoamento européia: uma colônia criada por um movimento nacionalista, não por um Estado Imperial.
No final da Segunda Guerra Mundial, a revelação do Holocausto promovido pelo nazismo horrorizou a opinião pública internacional. Em 1947, a ONU decidiu encerrar o mandato britânico na Palestina e promover a partilha do território em dois Estados. A resolução contou com o apoio de Washington e Moscou, mas teve a oposição decidida dos novos Estados árabes.
O plano de partilha conduziu à guerra entre o novo Estado de Israel e uma coalizão de países árabes integrada pelo Egito, Síria, Jordânia e Iraque. A guerra de 1948-49, que terminou com a vitória de Israel, deixou como legado uma população de refugiados palestinos no Oriente Médio. Os territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, que seriam parte do Estado Palestino, ficaram sob a "proteção" da Jordânia e do Egito. Jerusalém foi dividida, ficando a parte ocidental da cidade sob o controle de Israel e a parte oriental, que abrange a Cidade Velha e era habitada quase exclusivamente por árabes, sob a "proteção" da Jordânia.
O Egito, sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, fez da oposição a Israel a sua principal bandeira geopolítica. Israel sintetizava, aos olhos dos árabes, a opressão colonial européia e, de modo geral, a arrogância imperial do Ocidente. Nesse contexto, o Egito montou uma coligação, com a Síria e a Jordânia, que enfrentou Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Mas o desastre militar constituiu um golpe fatal nas aspirações de unidade árabe e acarretou a ocupação de territórios palestinos, sírios e egípcios.
Desde o início, o sionismo encarava toda a Palestina a "Terra Santa” - como o lar nacional judaico. Esse impulso expansionista expressou-se, após a Guerra dos Seis Dias, na colonização israelense dos territórios palestinos ocupados (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Leste). Os assentamentos iniciaram-se sob o governo do Partido Trabalhista mas aceleraram-se, após 1977, sob o Likud. No total, cerca de 190 mil colonos israelenses instalaram-se na Cisjordânia e algo como 10 mil em Gaza. Além disso, 175 mil fixaram residência na parte leste de Jerusalém.
O projeto expansionista sofre atualmente um importante redirecionamento. As intifadas (revoltas palestinas) e, sobretudo, o elevado crescimento demográfico da população árabe geraram um consenso político em Israel favorável à separação política e física entre o Estado judeu e um futuro Estado palestino.
Esse consenso traduz-se na estratégia israelense de definição unilateral de fronteiras. A retirada de Gaza, conduzida em 2005, e a projetada anexação de partes da Cisjordânia (os maiores blocos de assentamentos e o estratégico vale do rio Jordão) configurariam as fronteiras definitivas. O "muro de segurança” na Cisjordânia, em plena edificação, destina-se a materializar a fronteira como um front militar. Do outro lado do front, sobrariam fragmentos de territórios desconexos que, cinicamente, são apresentados como o embrião do Estado Palestino.
Muro que separa israelenses de palestinos fica pronto em 2007
O "muro de proteção" que Israel está construindo desde 2002 sob a alegação de que a barreira impedirá o acesso de terroristas palestinos a seu território será completado em 2007. Os palestinos criticam a construção e dizem que ela é uma medida separatista, mesma opinião da comunidade internacional. A informação foi dada nesta terça-feira pelo jornal The Jerusalem Post, que publicou uma entrevista com Danny Tírza, porta-voz do Ministério da Defesa em Tel Aviv encarregado de planejar o traçado do muro (...).
O traçado do muro provocou muita polêmica tanto em Israel quanto no exterior, pois em vários pontos ele foi erguido sobre território palestino. O representante israelense afirmou que, no final de março, a barreira de segurança será um "obstáculo contínuo" para os terroristas e que a parte do muro que segue as "fronteiras de 1967" entre o território reconhecido de Israel e a Cisjordânia estará terminada. A construção em tomo de Jerusalém, cujo traçado é composto por três partes, terminará em meados deste ano. (...)
Calcula-se que aproximadamente 50 mil palestinos residentes nos bairros árabes periféricos de Jerusalém fiquem do lado palestino da barreira quando ela estiver finalizada. Outros 180 mil árabes residentes de Jerusalém ficarão do lado israelense, segundo dados de fontes oficiais de segurança de Israel.
Tirza disse que a construção do muro de separação tem sido atrasada, em média, em nove meses pelas ações legais dos prejudicados pela barreira (...).
A Corte Internacional de Justiça de Haia disse que a barreira é "ilegal", contrária ao Direito Internacional, e deve ser destruída, e que os palestinos prejudicados devem ser indenizados. A Suprema Corte israelense ordenou mudanças no traçado da cerca por considerar que, em alguns pontos, ela violava o direito de palestinos, separando-os de suas terras de trabalho.
Folha Online, 7/2/2006
HISTÓRICO DO CONFLITO ÁRAVE-ISRAELENSE
CRONOLOGIA
1945: Criação da Organização das Nações Unidas (ONU), com o fim da Segunda Guerra Mundial.
1947: ONU divide a Palestina entre árabes e judeus. Os primeiros rejeitam a divisão.
1948/1949: Fundação de Israel, com a retirada das forças britânicas. Após a declaração de independência, países árabes invadem Israel em maio. A guerra dura até julho de 1949, com 6 mil judeus mortos e mais de 650 mil palestinos em fuga.
1956: Crise de Suez. Israel, França e Grã-Bretanha invadem o Egito.
1964: Criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat.
1967: Guerra dos Seis Dias. Israel enfrenta forças árabes no Sinai, na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, nas Colinas de Golã e em Jerusalém Oriental, recuperando o Muro das Lamentações.As conquistas no conflito multiplicam por três o tamanho original de Israel.
1973: Guerra do Yom Kippur. Ajudadas pela Síria, forças do Egito atacam Israel. O Estado judeu é apanhado de surpresa, mas se recupera e triunfa no conflito.
1977: Em novembro, o então presidente do Egito, Anwar Sadat, visita Jerusalém, abrindo caminho para o Acordo de Camp David.
1978: Acordo de paz de Camp David é assinado entre Israel e Egito.
1982: Israel invade o Sul do Líbano. Em setembro, ocorre o massacre no campo de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, em Beirute. Milícias cristãs libanesas, com a anuência das forças de Israel, chacinam 1.800 muçulmanos. À época, Ariel Sharon era ministro da Defesa israelense.
1987 a 1993: Período da Intifada, revolta palestina contra a ocupação de seus territórios pelo Exército israelense.
1993: Encontro histórico entre o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, e o premier israelense à época, Yitzhak Rabin. O encontro põe fim à Intifada e confere aos dois, juntamente com o então chanceler israelense, Shimon Peres, o prêmio Nobel da Paz. São assinados os Acordos de Oslo, que estabelecem um cronograma para a retirada israelense de Cisjordânia e Faixa de Gaza.
1995: Rabin é assassinado por um judeu fanático e contrário aos Acordos de Oslo.
2000: É iniciada a nova Intifada, a segunda fase do levante palestino contra a ocupação de seus territórios por forças de Israel. A revolta, que já provocou a morte de 3.503 palestinos e 956 israelenses, continua até os dias atuais.
2001: Sharon é Primeiro-ministro de Israel. Em dezembro, Yasser Arafat é confinado por Israel na sede da Autoridade Nacional Palestina, em Ramallah, na Cisjordânia.
2002: Começa a construção do muro na Cisjordânia.
2003: Em abril, o mapa da paz, plano de pacificação do Oriente Médio, foi apresentado a autoridades palestinas em israelenses pelo quarteto internacional composto por EUA, União Européia, Rússia e ONU. Aceito pelas duas partes, o mapa da paz marcou pela primeira vez na História a aceitação por parte do Estado judeu o princípio de existência de um Estado palestino, cuja criação, segundo o plano, estava prevista para 2005.
2003/2004: Com o fracasso do mapa da paz, o governo de Ariel Sharon decide adotar uma solução unilateral para o conflito. A partir de 2003, cercas isolam a Cisjordânia e estabelece-se um plano para a retirada de tropas e colonos judaicos da Faixa de Gaza e de regiões cisjordanas, aprovado finalmente no Parlamento israelense em outubro de 2004.
2004: Morre Yasser Arafat.
2005: Muhmud Abbas é eleito presidente da ANP. Israel remove os assentamentos de Gaza e quatro da Cisjordânia. Sharon abandona o Likud e funda um novo partido, o Kadima.
2006: Sharon sofre um derrame em janeiro e é afastado do governo. O Kadima, partido de Sharon, vence as eleições de março, o primeiro-ministro passa a ser Ehud Olmert. Nas eleições parlamentares palestinas, o Hamas obtém inesperada vitória contra o Fatah, partido de Abbas.
AS DUAS MURALHAS DA PALESTINA
Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, o cenário político do país foi dominado por dois grandes partidos: o Trabalhista, de centro-esquerda, e a Direita conservadora, que acabou se agrupando ao Likud. Hoje, porém, há um só grande "partido" político no país, chamado Ariel Sharon, primeiro-ministro afastado por conta de um acidente vascular cerebral (AVC) e que, em meados de fevereiro de 2006, oscilava entre a vida e a morte.
Vivo ou morto, porém, Sharon deverá continuar dando as cartas na política israelense por meio de seu novo partido, o Kadima (Avante, em hebraico), que foi o grande vencedor das eleições parlamentares em março de 2006. Esse “dar as cartas” tem como eixo a imposição de um plano de devolução de parte da Cisjordânia e fixação unilateral das fronteiras de Israel. Uma imposição, claro, aos palestinos, que exigem a devolução de toda a Cisjordânia, assim como de Jerusalém Oriental, territórios ocupados por Israel em 1967. Mas, uma imposição também para parte da sociedade israelense, que é contrária a concessões aos palestinos, principalmente após a vitória eleitoral do Hamas.
Jornal Mundo – Geografia e Política Internacional, março de 2006.
O HAMAS NO PODER!
Um paradoxo assola o Oriente Médio: o paradoxo democrático. A surpreendente e esmagadora vitória do grupo fundamentalista Hamas (acrônimo, em árabe, de Movimento de Resistência Islâmica) nas eleições para o Parlamento palestino, em janeiro de 2006, foi o mais contundente golpe na política americana de "exportar" a democracia para o Oriente Médio como forma de estabilizar a região e combater o terrorismo.
Antes da vitória do Hamas, o fracasso dessa faceta da Doutrina Bush já era evidente em toda a região. Foi o caso do Iraque, que os Estados Unidos invadiram em 2003 para derrubar o regime de Saddam Hussein. Desde então, a guerra civil engolfou o país, transformando-o em centro de treinamento de terroristas da Al-Qaeda, que se aliaram à insurgência sunita local em luta contra a ocupação. Para piorar, as eleições de dezembro consagraram os setores xiitas mais comprometidos com a implantação de um Estado islâmico.
Na Arábia Saudita, que sob pressão adotou um arremedo quase risível de abertura política permitindo eleições municipais, saíram fortalecidos os wahabitas, a seita puritana que representa o setor mais duro da teocracia saudita. No Líbano, o grupo terrorista Hezbollah, representando a comunidade xiita, ganhou força política no Parlamento. Finalmente, na ditadura secular do Egito, reformas limitadas levaram a Irmandade Muçulmana - a fonte histórica do fundamentalismo islâmico contemporâneo - a conquistar 88 das 150 cadeiras no Parlamento.
Mas considerações geopolíticas certamente pesaram pouco nos motivos que levaram a maioria do eleitorado palestino a depositar suas esperanças no grupo responsável pelos mais sangrentos atentados terroristas em Israel. Cansados de serem liderados por uma organização inepta e corrupta até o último fio de cabelo - a Fatah de Yasser Arafat -, os palestinos resolveram dar uma chance aos incorruptíveis do Hamas.
O Hamas tem uma história curiosa. Suas raízes remontam aos anos 70, com a formação da Irmandade Muçulmana na Faixa de Gaza, sob os auspícios da Arábia Saudita e o olhar benevolente de Israel, que buscava uma alternativa religiosa e filantrópica ao nacionalismo da OLP. Mas o Hamas saiu do ovo em 1988, entre as pedras da primeira intifada (revolta palestina), sob uma configuração muito mais radical, defendendo a destruição de Israel e a formação de um Estado islâmico em toda a Palestina. O grupo se opôs violentamente aos acordos de Oslo de 1993, que permitiram o surgimento da Autoridade Nacional Palestina (ANP), lançando mão de sangrentos atentados suicidas contra civis israelenses ao longo dos últimos dez anos.
Contudo, ao mesmo tempo, o Hamas nunca abandonou sua vocação filantrópica original e, com fundos recebidos do Irã, de palestinos no exílio e de outros Estados árabes, sustenta uma extensa rede de proteção social aos palestinos em Gaza e na Cisjordânia, como hospitais, creches e escolas. Nos últimos tempos, os palestinos puderam avaliar algumas administrações municipais conquistadas pelo Hamas, um vivo contraste com as depravadas prefeituras dirigidas pelos herdeiros de Arafat do grupo Fatah, que dirigia a ANP.
Apesar do espanto inicial e da tentativa de punir o "desatino" dos palestinos com o boicote econômico, os Estados Unidos, a União Européia e mesmo Israel se convenceram de que não há outra alternativa senão engolir a seco a vitória do Hamas e esperar para ver. A opção de destruir a ANP não faz parte do cardápio político das correntes políticas dominantes em Israel, pois a conseqüência seria o retorno das tropas israelenses ao conjunto dos territórios ocupados e a retomada da repressão direta aos palestinos, num quadro de radicalização e conflitos sangrentos.
Os americanos, os europeus e os israelenses definiram uma estratégia transitória. Eles pressionam por algum tipo de coalizão entre o Hamas e o Fatah e, ao mesmo tempo, exigem que o Hamas reconheça o Estado de Israel e renuncie à violência. No horizonte de curto prazo, nada disso acontecerá. O Hamas, eleito pela maioria esmagadora dos palestinos, cometeria suicídio político se desistisse, a troco de nada, das suas posições tradicionais. Mas, e num horizonte mais largo?
As eleições de março de 2006 em Israel foram vencidas pelo Kadima, o novo partido dissidência formado por Ariel Sharon, que agrupou uma vasta dissidência do Likud e alguns líderes históricos do Partido Trabalhista como, principalmente, Shimon Peres. O Kadima, sob o comando de Ehud Olmert, segue a linha definida por Sharon: uma "paz sem parceiros", ou seja, a definição unilateral das fronteiras definitivas na Palestina e a separação física entre Israel e os palestinos. Como responderá o Hamas aos fatos consumados impostos por essa estratégia? Escolherá a via do confronto, pela retomada de ações terroristas ou pela organização da resistência popular armada?
O conceituado jornal israelense Haaretz preferiu conjeturar em outra direção. Ele sugeriu que o Hamas poderia repetir a trajetória do Likud - uma organização com passado terrorista e uma plataforma radical, de anexação de toda a Terra Santa, que, pouco depois de chegar ao poder, em 1977, fez a paz com o Egito, então um dos piores inimigos de Israel. Paz entre Israel e o Hamas? Quem viver verá.
O certo é que a Doutrina Bush vai de fracasso em fracasso. A visão de um Iraque estável, pró-americano, e de uma Palestina sob controle dos confiáveis herdeiros de Arafat dissolveu-se sob o impacto do voto de iraquianos e palestinos. Além disso, com a vitória do Hamas, a Palestina voltou a ocupar o lugar central do tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. É tudo o que Washington não queria.
Cláudio Camargo, jornalista e sociólogo, e editor internacional da Revista Isto É.
Março de 2006 / texto adaptado.
Foi uma retirada unilateral semelhante - da Faixa de Gaza, em 2005 - que consolidou Sharon como o estadista israelense mais forte das últimas quatro décadas e permitiu a criação do Kadima, logo transformado em peça-chave do tabuleiro político. Isso porque Sharon, primeiro-ministro do Likud em uma coalizão com os trabalhistas, não tinha o apoio de seu partido para retirar as tropas israelenses de Gaza. Em uma manobra ousada, Sharon deixou o Likud e fundou o Kadima ao lado de outros ministros, com destaque para o veterano trabalhista Shimon Peres, que havia perdido o comando de seu partido.
A retirada de Gaza reduziu a intensidade de atentados terroristas, trazendo um pouco de paz a Israel, após anos de turbulências. Coisa que nem os trabalhistas autores da mais ousada proposta de paz aos palestinos, incluindo sua soberania parcial sobre setores de Jerusalém - nem o Likud, com sua política linha-dura - haviam conseguido. Esse sopro de paz explica a força de Sharon, vivo ou morto, e de seu partido. "Sharon é o único capaz de fazer a paz", afirmou Shimon Peres, ele mesmo derrotado pela estagnação das negociações com a Autoridade Nacional Palestina (ANP).
A vitória do Kadima nas urnas representou um sinal verde israelenses à política de devolver parcelas da Cisjordânia, enquanto se prepara a anexação de fato do Vale do Jordão, onde estão as fontes de água e as terras mais férteis da região, assim como a maioria das colônias que alojam cerca de 200 mil israelenses. A desocupação certamente viria acompanhada de protestos dos colonos judeus de extrema-direita, assim como pelo fim de qualquer conversa sobre devolver Jerusalém Oriental, de maioria árabe, selando - com sólidos muros de contenção - as novas e picotadas fronteiras de um futuro Estado palestino. Um relatório recente, elaborado pelo consulado da Grã-Bretanha em Jerusalém Oriental (e que a União Européia rejeitou como "excessivamente unilateral"), acusa Israel de já estar anexando terras árabes próximas à cidade milenar e afirma: "quando o muro estiver concluído, Israel irá controlar todos os acessos a Jerusalém Oriental, isolando-a das cidades satélites palestinas de Belém e Ramallah, assim como da Cisjordânia”.
As fontes da estratégia do Kadima encontram-se na dinâmica demográfica na Palestina. O crescimento vegetativo muito mais elevado da população árabe criará, em pouco tempo, uma maioria demográfica palestina no conjunto formado por Israel, pela Cisjordânia e pela Faixa de Gaza. Israel não tem alternativas senão promover a fixação definitiva de fronteiras entre o Estado judeu e um Estado palestino ou engajar-se na missão inviável de assegurar o poder da minoria judaica sobre a maioria árabe. É essa razão estratégia que uniu Sharon a Peres.
Com o Kadima e sua solução unilateral comandando Israel, e o Hamas, que não reconhece o Estado judeu, à frente da ANP, a paz parece perdida nas brumas de um futuro improvável. É como se duas muralhas, construídas com os tijolos da ideologia e do ódio, impedissem o diálogo. Mas, no Oriente Médio, quase nada é o que parece. Em artigo recente, publicado no diário israelense Haaretz, o analista, Aluf Benn observa uma semelhança muito interessante entre o Kadima e o Hamas. Os dois têm planos ideológicos de longo prazo: o Kadima almeja anexar de vez parte da Cisjordânia, assim como Jerusalém Oriental; o Hamas pretende varrer Israel do mapa. Mas os dois demonstram sinais de pragmatismo que poderão conduzir a acordos transitórios que durem muito tempo, talvez até o amadurecimento de gerações menos rancorosas, dos dois lados.
Afinal, Sharon, o general linha-dura que defendia o Grande Israel, incluindo quase todos os territórios palestinos, terminou desocupando Gaza de forma unilateral. E o Hamas, apesar da retórica e dos homens-bomba, admite uma hudnah, uma trégua de longo prazo com o inimigo. De acordo com a lógica própria do Oriente Médio, Kadima e o Hamas poderiam dar o primeiro passo para que seus planos finais (o Grande Israel ou os judeus atirados ao mar) evaporem silenciosamente ao longo dos anos, sob o sol do deserto.
Não por acaso, o analista Bradley Burston afirmava com bom humor, em recente artigo no jornal The Jerusalém Post: "Se você quer o Grande Israel, vote na esquerda”. Sim, porque foram os trabalhistas (e não a direita) os responsáveis pelo início da colonização judaica nos territórios palestinos ocupados na Guerra dos Seis Dias (1967). Quem planejou as primeiras 16 colônias foi Israel Galili, um socialista. Na mão oposta, um primeiro-ministro ultraconservador, Menahem Begin, devolveu ao Egito a península do Sinai, ocupada por Israel em 1967. Sharon, outro direitista, deixou Gaza. E seu sucessor, o ex-ministro das Finanças, Ehud Olmert, quer sair já de partes da Cisjordânia. Começando por Hebron, onde, diz se, está enterrado um patriarca de judeus e muçulmanos: Abraão/Ibrahim, conforme a preferência. E onde 400 colonos judeus de ultradireita vivem, protegidos por forças militares, entre 120 mil palestinos.
A sombra de Sharon poderia, portanto, empurrar o Kadima a uma curiosa aproximação com o Hamas em uma situação de "nem guerra nem paz", onde Israel e a Palestina se tolerem. Ou não - e nesse caso a violência explodiria com mais força do que nunca, em meio a um Oriente Médio desestabilizado pela Doutrina Bush e pelo avanço dos fundamentalistas.
Jornal Mundo – Março de 2006 (adaptado)
Quem foi Ariel Sharon?
Da indecisão ideológica ao personalismo político
Mesmo que se recupere, dificilmente a carreira política de Ariel Sharon sobreviverá ao segundo acidente vascular em menos de três semanas. Aos 77 anos, o Trator pode estar encerrando quase seis décadas de luta, armada ou política, em nome de Israel, como uma das figuras mais importantes e polêmicas da História do país.
Após participar, com crescente importância, em ações militares desde antes da criação de Israel e nas cinco guerras do país, Sharon entrou na política de forma tão controvertida.
Durante a década de 1950, recusou-se a seguir o Herut, partido nacionalista radical. Na juventude, tinha preferência pelo Mapai, partido sionista-socialista que em 1968 se uniria ao Partido Trabalhista.
Apesar de sua coragem nos campos de batalha, sua indisciplina e seu ideário político radical tornaram sua permanência no Exército insustentável. O conturbado momento de Israel e o fato de Sharon ser considerado por muitos na época um herói de guerra fizeram com que ele fosse figura fundamental na criação do Likud, então um bloco de direita unindo o Herut e os liberais, em 1973.
Ele foi eleito deputado em 1973, mas, dizendo estar cansado da vida política, renunciou um ano depois. Entre 1975 e 1976, foi assessor do premier trabalhista Yitzhak Rabin. Mas com a aproximação das eleições de 1977, tentou voltar ao Likud tirando Menachen Begin da liderança. Não foi aceito e tentou entrar no Partido Trabalhista e no centrista Dash, sendo recusado. Fundou, então, seu próprio partido, o Shlomtzion, e conquistou dois deputados. Depois da eleição, uniu-se ao vencedor Likud e assumiu o Ministério da Agricultura.
Em 1982, como ministro da Defesa, comandou a invasão do Líbano, segundo críticos fazendo isso sem revelar ao premier Begin a real extensão da movimentação militar. Foi acusado de ser responsável por tornar possível o massacre de palestinos por milicianos cristãos maronitas em Sabra e Chatila, vilarejos que estavam cercados por tropas de Israel.
Perdeu o cargo na Defesa, mas, entre 1983 e 1998, foi ministro de Comércio e Indústria, Habitação e Infra-Estrutura, tendo como prioridade a construção de assentamentos judeus.
Sharon só assumiria a liderança do Likud em 1999. Sua principal plataforma política era não negociar com os palestinos, com especial ódio ao líder da OLP Yasser Arafat.
Em 2000, Sharon visitou a Esplanada das Mesquitas, um dos locais mais sagrados para muçulmanos e judeus e evitado por políticos. O aumento da violência gerou um forte sentimento de insegurança que, segundo analistas, beneficiou Sharon que, aos 73 anos, foi eleito premier em 2001.
No poder, aproveitou o 11 de Setembro para angariar apoio na luta contra o terror palestino, aliando-se a Bush e alijando Arafat das negociações. Construiu a barreira entre Israel e Cisjordânia. Por outro lado, ordenou a retirada de colonos e militares da Faixa de Gaza. E, para se livrar da oposição do Likud, fundou outro partido, o Kadima.
O grande falcão tornara-se uma pomba? Ou tudo não passava de realpolitik de um estadista que chegou à conclusão que sua idéia de vencer militarmente os árabes não é suficiente diante da força do crescimento demográfico da maioria não judaica no território almejado por Israel? Com a saída do Trator da cena política, Israel nunca saberá.
O GLOBO, 06 de janeiro de 2006
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
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